Um Big Mac depois da academia: A ação da Petrobras (PETR4) continua subindo, mas é por causa do governo ou apesar dele?
Petrobras estabeleceu recentemente um novo recorde de valor de mercado, mas a razão para isso é diferente daquela que a direção da empresa acredita ser

Já tinha virado rotina, depois de correr 10 km na academia, Paulo saía da esteira e ia direto para o McDonald's.
Não tenho nada contra quem corre, muito menos contra quem come um Big Mac. Mas convenhamos que esse é um hábito um tanto quanto peculiar, especialmente para alguém que estava tão focado em emagrecer, como era o caso do meu amigo.
O mais curioso é que ele realmente estava emagrecendo, já tinha perdido uns 2 kg em dois meses, mesmo com essa média elevada de quase uma mordida por quilômetro.
Mas mais curioso do que esse hábito do meu amigo, foi a justificativa dele.
Por causa disso ou apesar disso?
Ruy: "Paulo, por que você come um Big Mac logo depois de correr. Você não quer emagrecer?"
Paulo: "Você não vai acreditar no que eu vou te dizer agora: o lanche me ajuda a emagrecer".
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Ruy, depois de rolar no chão de tanto dar risada: "Como é que é?"
Paulo, já meio puto comigo: "Pode continuar dando risada, não estou nem aí… Mas a verdade é que já perdi 2 kg graças ao Big Mac".
Sentindo que eu estava prestes a perder uma amizade, segurei a risada, respirei fundo e continuei.
Ruy: "Tá bom, se você está dizendo… Mas por que você acha isso?"
Paulo: "É o seguinte, eu corri bastante logo no primeiro dia que vim para a academia, mas senti muita fome depois e não tive como não parar ali no 'Méqui'. Só que no dia seguinte fiz a mesma coisa, e depois também…
Ruy: "Aham…"
Paulo: "E quando fui me pesar no fim daquela semana, reparei que tinha perdido quase 300g. Você acredita nisso? Está claro que o Big Mac está me ajudando a emagrecer, já estou até pensando em começar a comer dois por dia".
Ruy, depois de rolar no chão pela segunda vez em menos de um minuto: "Cara, você não está perdendo peso por causa do Big Mac, você está perdendo peso apesar dele. O Big Mac não ajuda a emagrecer, nem um pouco, mas você está correndo tanto que mesmo com um lanche por dia você ainda está conseguindo perder peso."
Essa parece uma história absurda, e é mesmo. Mas essa confusão entre as expressões "por causa de" e "apesar de" é muito mais frequente do que você imagina.
Pior, tem gente que se aproveita dessa confusão para propagar algumas informações tão enganosas como a de que o "Big Mac emagrece".
Por causa do governo ou apesar do governo
Na semana passada eu me deparei com uma matéria sobre o novo recorde de valor de mercado da Petrobras (PETR4).
Mas o que realmente me chamou a atenção foram as justificativas que a companhia e seu CEO deram para que tal feito fosse alcançado. Aqui vão elas:
"Entre as medidas que permitiram alcançar tais resultados, a empresa destaca a nova estratégia comercial para gasolina e diesel; o aprimoramento da política de remuneração aos acionistas, que inclui o programa de recompra de ações". Em outra matéria do início do mês, Prates disse que "o recorde é consequência da retomada de investimentos que a nova gestão tem realizado no último ano."
Mas será que foi por isso mesmo?
Me engana que eu gosto
Com relação à mudança da política comercial, a nova estratégia tende a ser pior para os resultados do que a antiga, porque não obriga os preços a seguirem as cotações internacionais, e isso permite que a companhia abra mão de margem para não descontentar a população e o governo, caso o preço lá fora suba.
Essa mudança pode não ter atrapalhado muito os resultados da Petrobras até agora, mas também não ajudou e abre espaço para surpresas negativas no futuro. Ou seja, não foi por causa da estratégia comercial.
Sobre o "aprimoramento da política de remuneração", houve uma clara piora: em julho de 2023, a Petrobras reduziu a distribuição de dividendos de 60% para 45% do fluxo de caixa livre, um corte considerável, e que certamente não deixou nenhum acionista feliz. Ou seja, também não foi por causa da nova remuneração.
Fato Relevante de 28/7/23. Fonte: Petrobras.
Sobre a estratégia de investimentos, também tivemos uma piora. A companhia parou de vender ativos ruins e voltou a aportar dinheiro em negócios com retorno muito baixo, o que afeta a rentabilidade consolidada. Sinto muito, Prates, mas também não foi por causa disso.
Por que a Petrobras continua subindo então?
Por causa do Petróleo e do pré-sal, e apesar do governo.
A verdade é que com o petróleo nos patamares atuais (US$ 80/barril) e com os custos reduzidos por conta do pré-sal, a Petrobras gera um montante absurdo de caixa.
Petróleo tipo Brent. Fonte: Google.
Lembre-se que a Petrobras teve 7 presidentes diferentes nos últimos 6 anos, e mesmo nenhum deles sendo brilhante, os resultados seguiram muito sólidos durante todo esse período. Com o petróleo nos níveis atuais, basta que a gestão não atrapalhe muito para que ela continue gerando valor, mesmo que isso não seja assim tão simples em se tratando de uma estatal.
Fato é que, apesar das mudanças negativas em sua política comercial, de investimentos e de remuneração aos acionistas, o caixa extra gerado com o barril nos preços atuais mais do que compensou as alterações.
Para falar a verdade, a Petrobras poderia gerar resultados ainda melhores se não fossem essas mudanças, assim como meu amigo Paulo poderia emagrecer ainda mais rápido se não comesse um Big Mac por dia.
Mas enquanto as condições permanecerem favoráveis, não há muitos motivos para se preocupar com isso.
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E se a maré parar de ajudar?
O problema é que o preço do petróleo pode mudar bastante, e as alterações recentes na estratégia podem tornar a companhia menos preparada para enfrentar adversidades.
Por exemplo, não tem muito problema gastar mais com investimento em energia eólica, refinarias e tudo o que não for o que realmente gera valor para a companhia – o pré-sal –, mas se o preço do petróleo cair muito, vai começar a faltar dinheiro para essas novas aventuras.
Qual será a estratégia da companhia neste novo cenário, cortar ainda mais os dividendos, ou rever o investimento nesses outros ativos pouco rentáveis?
Se o petróleo começar a subir demais lá fora, a nova política de precificação de combustíveis pode abrir espaço para que a companhia segure os repasses para não desagradar o governo e comece a oferecer subsídios para o diesel e a gasolina, o que já aconteceu no passado e quase destruiu a empresa.
Ou seja, essas mudanças abrem espaço para consequências negativas, ainda que por enquanto não precisamos nos preocupar muito com elas.
Tem coisa mais interessante que a Petrobras na bolsa
Para falar a verdade, apesar de não estar entre as nossas recomendações na Empiricus, eu nem acho que a Petrobras seja um investimento tão ruim assim, desde que seja feito com muita parcimônia e que você entenda que para ser sócio do governo é preciso dormir com um olho aberto.
Mas o que realmente importa nessa história é o acionista entender o verdadeiro motivo da melhora de resultados da companhia, caso contrário correrá o risco de começar a torcer para mudanças que só atrapalham os resultados dela.
Mas existem outras formas de se aproveitar a apreciação do petróleo. Na série Palavra do Estrategista, há uma outra companhia do setor que pode se beneficiar dos preços elevados da commodity, sem que você precise se preocupar em ter o governo como sócio.
- A outra ação de petroleira, recomendada por Felipe Miranda, também faz parte da carteira 10 Ideias da Empiricus Research. Você pode conhecer essa e mais 9 ações recomendadas para compra agora acessando este relatório gratuito.
Um grande abraço e até a semana que vem.
Ruy
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