Shein costura parceria com a dona da Artex, da MMartan e da Casa Moysés para ter acesso a 2 mil fornecedores brasileiros
O entendimento foi assinado com a Coteminas, que é comandada por Josué Gomes da Silva, presidente da Fiesp e filho do ex-vice-presidente do primeiro governo Lula

A Shein parece realmente disposta a cumprir a promessa de investir e produzir no Brasil depois que o governo Lula recuou na taxação das varejistas asiáticas. A empresa chinesa com sede em Cingapura anunciou nesta quinta-feira (20) que assinou um memorando de entendimento com a Companhia de Tecidos Norte de Minas (CTNM4), a Coteminas.
A ideia é que 2 mil dos clientes confeccionistas da brasileira passem a ser fornecedores da Shein para atendimento do mercado doméstico e da América Latina. O memorando também inclui um financiamento para capital de trabalho e um contrato de exportação de produtos para o lar.
Em carta divulgada mais cedo, a Shein mencionava a parceria comercial sem dizer o nome da empresa brasileira. A varejista asiática também se comprometeu com um investimento inicial de R$ 750 milhões para “aumentar a competitividade de fabricantes têxteis brasileiras”, além da geração de cerca de 100 mil novos empregos no País.
Após reunião hoje com representantes da Shein, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, chegou a afirmar que a varejista asiática pretende nacionalizar 85% de suas vendas em quatro anos, com produtos feitos aqui.
"Uma coisa para nós muito importante também é que vejam o Brasil não só como mercado consumidor, mas como uma economia de produção", disse Haddad na ocasião.
A reunião com a Shein foi acompanhada do presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Josué Gomes da Silva — que também é presidente da Coteminas.
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Quem está por trás da Coteminas
A Conteminas é controlada pela holding Springs Global, que também tem sob seu guarda-chuva a Coteminas Argentina e a AMMO Varejo.
A AMMO Varejo, que chegou a ensaiar a abertura de capital (IPO) em julho de 2021, tem a licença perpétua da marca Santista, firmada com a Santista Têxtil Ltda, e é proprietária das marcas Artex, MMartan e Casa Moysés.
Josué Gomes da Silva, presidente da Coteminas, é filho de José de Alencar — ex-vice-presidente do primeiro governo Lula — que chegou a ser cotado, no final do ano passado, para assumir o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.
Como presidente da Fiesp, Josué Gomes da Silva foi quem intermediou o entendimento entre o governo e a Shein, segundo o próprio Haddad.
As dívidas da Coteminas
O entendimento com a Shein pode ter vindo em boa hora para a Coteminas. Reportagem recente da Folha apurou que a empresa de Josué Gomes da Silva voltou a atrasar o pagamento de seus funcionários depois de 11 dias sem realizar depósitos em fevereiro.
De acordo com o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Têxteis de Blumenau, Gaspar e Indaial (Sintrafite), Carlos Alexandre Maske, os salários voltaram a atrasar, desta vez, por oito dias.
E os problemas da Coteminas não param por aí: os credores também bateram na porta da empresa. No último dia 12, a Coteminas também foi alvo de um requerimento de falência na 2ª Vara Empresarial de Montes Claros (MG).
Shein e Coteminas: uma mão lava a outra?
Se, de um lado, a Coteminas parece enfrentar alguns problemas financeiros, de outro, a Shein também não está livre de imbróglios no Brasil — além da questão tributária, o governo mirou nas asiáticas após pressão de varejistas brasileiras, cujos negócios estavam sendo afetados pela concorrência vinda do Oriente.
Mas tudo parece endereçado agora. Haddad disse hoje que a Shein aderiu ao plano de conformidade da Receita Federal.
"Estão dispostos a fazer aquilo que for necessário para normalizar as relações com o Ministério da Fazenda", afirmou Haddad. "Segundo eles, se a regra valer para todo mundo, absorverão os custos dessa conformidade."
Haddad disse ainda que o governo pretende solucionar a questão da taxação do e-commerce seguindo o exemplo de países desenvolvidos, com um imposto digital.
O ministro também afirmou que a alternativa atende a sinalização do presidente Lula, que pediu uma solução administrativa negociada com o comércio eletrônico.
Antes da Shein, Lula na China
Na recente viagem que fez à China, acompanhando Lula, Haddad foi questionado sobre a pressão para a taxação das compras de produtos chineses.
Na ocasião, ele afirmou que é preciso garantir igualdade de tratamento entre empresas estrangeiras e brasileiras e disse que iria acabar com a isenção do imposto sobre compras pelos correios de até US$ 50 feitas por pessoas físicas.
O governo até tentou esta última medida, mas diante da reação negativa nas redes sociais, voltou atrás.
"A concorrência tem de ser leal, entre empresas brasileiras e estrangeiras", defendeu Haddad na China. Questionado sobre a Shein na ocasião, Haddad chegou a dizer que não conhecia a empresa, e costumava apenas comprar livros na Amazon.
A empresária Luiza Trajano, presidente do conselho de administração do Magazine Luiza, é uma das que tem criticado publicamente a diferença de tratamento tributário entre as varejistas chinesas e brasileiras.
Em evento recente em Porto Alegre, disse que é impossível competir quando a empresa nacional paga 37% de imposto ao governo e as concorrentes asiáticas não pagam nada.
"Eu sempre digo que não pagar imposto é um negócio da China. Isso vai tirar o emprego do Brasil", disse.
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