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Victor Aguiar

Victor Aguiar

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e com MBA em Informações Econômico-Financeiras e Mercado de Capitais pelo Instituto Educacional BM&FBovespa. Trabalhou nas principais redações de economia do país, como Bloomberg, Agência Estado/Broadcast e Valor Econômico. Em 2020, foi eleito pela Jornalistas & Cia como um dos 10 profissionais de imprensa mais admirados no segmento de economia, negócios e finanças.

AÇÕES EM ALTA

Na Natura (NTCO3), o plano é dar um glow up nas operações após a venda da Aesop — e sem se desfazer de mais marcas

As ações da Natura (NTCO3) chegaram a subir 7% na abertura, em resposta à venda da Aesop. Conheça a estratégia da empresa a partir de agora

Victor Aguiar
Victor Aguiar
4 de abril de 2023
11:09 - atualizado às 15:02
Fachada de loja da Natura (NATU3)
Fachada de loja da Natura (NATU3) - Imagem: Divulgação/Natura

O tão aguardado "movimento transformacional" da Natura finalmente saiu: a empresa acertou a venda da Aesop para a L'Oréal, por US$ 2,52 bilhões — pouco mais de R$ 10 bilhões. Uma operação que, a princípio, agradou o mercado e faz as ações NTCO3 subirem quase 5% nesta manhã, aparecendo acima dos R$ 14,20. Mas... e agora?

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É claro que ainda é cedo para falar em impactos materiais para a Natura, até porque o pagamento só será realizado quando a transação for concluída (e, no melhor dos cenários, isso deve acontecer só no terceiro trimestre deste ano). Mas a companhia não hesitou em vir a público para falar sobre os seus planos para o futuro.

"O foco, no momento, está na fusão das operações entre a Natura e a Avon na América Latina", disse Fábio Barbosa, CEO da Natura, em teleconferência com analistas e investidores — algumas sinergias já foram capturadas na região, com testes sendo realizados em países como Peru e Colômbia, mas o processo tende a ser acelerado a partir de agora.

A ideia é bastante direta: enxugar a estrutura operacional na região e reduzir os custos e despesas, de modo a melhorar as margens no continente. E, em linhas gerais, a teleconferência pós-venda da Aesop serviu para reforçar a ideia de mudança de planos por parte da Natura.

Sai a dominação global e a expansão desenfreada por novas geografias, entra a busca por eficiência nos mercados em que a gigante brasileira dos cosméticos já está inserida com alguma de suas marcas — Natura, Avon Internacional e The Body Shop. E a companhia fez questão de deixar uma mensagem bem clara aos participantes da teleconferência:

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Não, não vamos mais vender nenhum ativo. A ideia é seguir a estratégia e fazer investimentos que entendemos ser necessários, com disciplina financeira

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Guilherme Castellan, CFO e diretor de relações com investidores da Natura
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Natura (NTCO3) sem Aesop: dinheiro no bolso

Os R$ 10 bilhões que serão capturados a partir da venda da Aesop servirão para a Natura (NTCO3) dar um belo glow up em diversas frentes do negócio: além de simplificar as operações, a transação também terá um papel crucial na melhora do perfil de endividamento da companhia.

Ao fim de 2022, por exemplo, a Natura tinha R$ 13,4 bilhões de dívida bruta e pouco menos de R$ 6 bilhões em posição de caixa e equivalentes, o que representa um endividamento líquido de R$ 7,4 bilhões. O dinheiro a ser levantado com a Aesop, assim, trará um belo alívio nesse front.

A dinâmica da dívida da Natura era um dos pontos que vinha trazendo preocupação ao mercado nos últimos meses: as dificuldades operacionais vistas ao longo de 2022 derrubaram o Ebitda da companhia e, com isso, as métricas de alavancagem da empresa dispararam para níveis desconfortáveis.

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Gráficos de linha mostrando a evolução da alavancagem da Natura (NTCO3) desde o quarto trimestre de 2021, segundo diversos critérios. Veja como todas as linhas passam por uma elevação significativa na virada do terceiro para o quarto trimestre de 2022. Fonte: Natura

"Um dos focos será a redução da dívida bruta após o fim da transação", disse Castellan, destacando ainda que uma das prioridades da Natura é o custo da dívida e a melhora do fluxo de caixa em relação aos períodos anteriores. "Prazo de vencimento e custo de dívida, do ponto de vista de fluxo, serão os pontos principais da estratégia".

O perfil da dívida em si não é particularmente problemático: dos R$ 13,4 bilhões de endividamento bruto da Natura ao fim de 2022, apenas R$ 331 milhões tinham vencimento no curto prazo — cerca de 2,5% do saldo total (a companhia, no entanto, não deixa claro o que é considerado como 'curto prazo').

Mas uma análise do resultado financeiro da empresa deixa claro que o endividamento faz um peso relevante sobre a estrutura de capital. Apenas no quarto trimestre, as despesas financeiras chegaram a R$ 1,7 bilhão; no acumulado de 2022, a linha totalizou R$ 7,3 bilhões.

Ou seja: reduzir o custo da dívida, seja pelo pagamento antecipado ou pela substituição por outras ferramentas mais baratas, é um jeito de amenizar o baque vindo do resultado financeiro — e, quem sabe, gerar uma dinâmica menos pressionada para a última linha do balanço.

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Natura, Avon e The Body Shop: a estratégia

Bom, se a gigante dos cosméticos não pretende mais se desfazer de ativos, então o que esperar de Natura, Avon e The Body Shop, as três marcas que permanecerão em seu portfólio?

Um dos pontos principais da companhia no curto prazo, como ressaltado no início do texto, é a integração entre a Natura e a Avon na América Latina, de modo a capturar benefícios de sinergia cada vez maiores e aumentar a lucratividade na região — os trabalhos de fusão devem começar no Brasil entre setembro e outubro.

A questão é que a Avon tem uma atuação global (apenas as atividades nos EUA, que foram cindidas do restante do grupo, não pertencem à Natura). E, no que diz respeito aos demais mercados da marca, os planos são mais modestos.

"Há uma dezena de países em que a empresa está indo bem, com crescimento bom", disse Castellan, sem citar nominalmente quais seriam esses mercados. "Queremos nos consolidar neles, expandir a Avon ou a The Body Shop [para novas áreas] não está no nosso mapa de médio prazo ainda".

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O foco, em linhas gerais, se dará em países com perfil emergente — os executivos deram a entender que, em determinados mercados em que as condições de crescimento estão mais duras, pode haver até algum tipo de reestruturação da estratégia, incluindo a eventual saída de geografias menos rentáveis.

Quanto à The Body Shop, a Natura já encerrou o braço 'at home' da marca nos EUA; o foco continua sendo a estabilização da linha de frente do negócio principal e a expansão das margens, de modo a apoiar a geração de caixa do grupo como um todo.

"Temos três marcas que estão passando por momentos diferentes, e trabalharemos de jeitos diferentes no curto e médio prazos", disse o CFO. "Ainda tem muita coisa a ser feita na América Latina, mas continuaremos a investir em outros países também, para dar apoio à Avon e a The Body Shop".

O que o mercado achou?

A venda da Aesop era amplamente aguardada, mas os termos acertados junto à L'Oréal agradaram os analistas de grandes bancos. E, nesse front, destaque para o JP Morgan: o banco americano, que já tinha recomendação de compra para as ações NTCO3, também passou a ver com bons olhos os títulos de dívida da companhia.

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Em relatório, o JP Morgan lembra que a Aesop foi comprada por pouco mais de US$ 100 milhões em 2012 e, assim, o ganho de capital após a venda será da ordem de US$ 2,4 bilhões — descontados impostos, os recursos líquidos a entrarem no caixa podem chegar a US$ 2 bilhões.

"Destacamos que a venda não resolve os problemas estruturais da Natura, e ainda há riscos de execução relacionados à reestruturação do negócio", destacam os analistas do banco. "No entanto, a operação traz um necessário alívio à posição financeira da companhia, ao mesmo tempo que dá à Natura mais tempo para resolver seus problemas".

Linha semelhante é adotada pelo Goldman Sachs: a venda da Aesop é considerada positiva pela instituição, uma vez que aliviará a pressão sobre a estrutura de capital da Natura e permitirá que a empresa invista na reestruturação da Avon e da The Body Shop.

O Goldman, no entanto, também ressalta que as operações restantes do portfólio da Natura seguem enfraquecidas e podem representar riscos de baixa para as projeções financeiras; o banco ainda diz que os US$ 2,5 bilhões a serem pagos pela L'Oréal ficaram em linha com as expectativas do mercado.

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O BTG Pactual fala em destravamento de valor; o Santander, em início de uma nova fase positiva para a Natura; a XP avalia que, com a venda da Aesop, as ações NTCO3 estão muito baratas para serem ignoradas; o Itaú BBA afirma que vai revisitar seu modelo para refletir os impactos positivos do anúncio, apesar dos riscos à tese de investimento.

O tom "cautelosamente otimista" é resumido por um gestor de uma asset em São Paulo que pede para não ser identificado: para ele, a venda da Aesop é um bom começo, aliviando o balanço e reduzindo a complexidade da empresa. "Mas ainda tem muito chão pela frente, muito ativo ruim e mal gerido espalhado pelo mundo..."

Veja abaixo um resumo das recomendações e preços-alvo de alguns dos principais bancos e casas de análise que acompanham a empresa:

NTCO3 em 3/4: R$ 13,57RecomendaçãoPreço-alvo (R$)Potencial de alta/baixa
JP MorganCompra24,00+76,9%
Goldman SachsNeutro14,00+3,2%
BTG PactualNeutro18,00+32,6%
SantanderNeutro12,20-10,1%
XPCompra22,00+62,1%
Itaú BBACompra18,00+32,6%
UBS BBNeutro17,00+25,3%
Bradesco BBICompra16,00+17,9%

As ações da Natura (NTCO3) acumulam ganhos de quase 30% desde o começo de 2023; em um ano, no entanto, os papéis ainda amargam perdas da ordem de 50%.

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