Ultraleve: Gol (GOLL4) renegocia dívidas de curto prazo e tira um peso das asas; ações sobem
A Gol vai trocar títulos de dívida com vencimento até 2026 por outros mais longos, com prazo para 2028, numa operação com o Grupo Abra

Como pode um avião Boeing 737 — como uma das 145 aeronaves da frota da Gol (GOLL4) — ser mais leve que o ar e alçar voo, mesmo com suas dezenas de toneladas? Bem, é uma questão de física: o formato das asas, o fluxo de vento das turbinas, tudo junto põe o pássaro de metal no céu. Mas, é claro que evitar peso extra sempre ajuda.
E é exatamente isso que a companhia aérea está fazendo, ao anunciar um prolongamento de seu perfil de dívida; em outras palavras, está jogando para frente alguns de seus compromissos financeiros. E, sem algumas toneladas de endividamento no curto prazo, diminuem as dúvidas quanto à capacidade de a empresa manter seus aviões voando.
É uma operação complexa e que envolve o recém anunciado Grupo Abra, holding que vai concentrar as operações da Gol e da colombiana Avianca. Mas, para o mercado, pouco importa a estrutura — o que realmente interessa é o resultado. E, dado que dívida e liquidez são temas sensíveis para as aéreas, a notícia foi bem recebida.
Por volta de 12h30, as ações da Gol (GOLL4) operavam em alta de 2,10%, a R$ 7,78, aparecendo entre as maiores altas do Ibovespa nesta terça-feira (7); o índice, por outro lado, recua perto de 1% hoje — acompanhe aqui a cobertura completa de mercados.

Gol (GOLL4): tirando as malas do bagageiro
Antes de entrar em detalhes na operação entre a Gol (GOLL4) e o Grupo Abra, vale dar mais detalhes quanto à situação de endividamento da companhia aérea — e explicar a dinâmica particularmente perversa da dívida e dos custos relacionados ao setor.
Tudo começa na linha de receita, que, naturalmente, é denominada em reais: é uma empresa brasileira que vende passagens ao consumidor doméstico, afinal. Só que, enquanto o faturamento ocorre na moeda nacional, os custos costumam vir em divisas estrangeiras — e, quase sempre, mais fortes.
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Custos com o querosene de aviação (QAV), por exemplo, dependem da cotação do petróleo e do dólar; contratos para manutenção e arrendamento de aeronaves também são feitos na moeda americana. Assim, há um descasamento entre receita e despesa.
Não bastasse isso tudo, boa parte da dívida de uma companhia aérea também é denominada em dólares — aviões novos são etiquetados na moeda americana, e os financiamentos para viabilizar a troca da frota de tempos em tempos, também.
Portanto, as toneladas do Boeing vão ficando cada vez mais pesadas por causa dessa bagagem financeira: as dívidas são enormes, a receita é em reais — e se a equação não fecha, todos ficam no solo.
Veja algumas cifras da Gol ao fim do terceiro trimestre:
- Dívida de curto prazo: R$ 3,7 bilhões;
- Dívida de longo prazo: R$ 22,7 bilhões;
- Posição de liquidez total (caixa, aplicações e contas a receber): R$ 1,5 bilhão;
- Dívida líquida ajustada: R$ 24,9 bilhões;
- Porcentagem da dívida bruta em moeda estrangeira: 94,1%;
- Porcentagem da dívida no curto prazo: 13,9%.
A Gol não dá maiores detalhes quanto à janela de tempo considerada "curto prazo". Seja como for, sua posição de liquidez total não é capaz de cobrir todos os compromissos alocados nesse período — e esse sempre é um tema crítico nas teleconferências de resultados de uma companhia aérea, sobretudo desde o começo da pandemia.
A empresa terá condições de honrar seus compromissos financeiros? Há dinheiro para manter as operações funcionando normalmente? Como ampliar a geração de receita e reduzir custos? Como está a negociação com bancos e outros credores?
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Grupo Abra: embarque imediato
Eis que o Grupo Abra, um passageiro de última hora, entra na aeronave e logo encontra seu assento. A holding foi criada justamente para dar o apoio financeiro para Gol e Avianca, dois dos principais players regionais do setor aéreo — a chilena Latam, a panamenha Copa e a brasileira Azul são outras grandes da América Latina.
E o Grupo Abra fez uma proposta à Gol que combina endividamento mais longo com injeção de capital. Em resumo: os controladores vão comprar os títulos emitidos pela companhia no exterior com vencimento em 2024, 2025 e 2026. A holding entregará esses papéis à empresa, que, por sua vez, emitirá outra leva de títulos de dívida, agora para 2028. Parte desses novos ativos será conversível em ações.
Na prática, a Gol está trocando os títulos atuais por outros, cujo vencimento ocorrerá somente daqui cinco anos. E mais: a Abra já se comprometeu com a compra de cerca de US$ 400 milhões de outros títulos de dívida, também com vencimento em 2028 — ela, portanto, será uma das novas credoras.
E, convenhamos: é mais fácil negociar com o seu próprio controlador do que com um banco ou um credor externo qualquer. Os US$ 400 milhões, segundo a Gol, "serão disponíveis para finalidades corporativas em geral, para a
modernização da frota e para o gerenciamento de obrigações".
O documento completo explicando toda a transação entre Abra e Gol pode ser acessado aqui.
Gol em dezembro
Em paralelo, a companhia também reportou seus dados operacionais referentes ao mês de janeiro — um período sazonalmente forte, dadas as férias escolares e a demanda elevada por viagens a lazer.
Considerando o sistema total da Gol (GOLL4) — que soma as operações domésticas e internacionais — a demanda por voos cresceu 8,9% em relação a janeiro de 2022, enquanto a oferta aumentou 6,9%. Assim, a taxa de ocupação das aeronaves aumentou 2,1 pontos percentuais entre os períodos, chegando a 84,7%.
No sistema doméstico, a taxa de ocupação dos aviões foi de 85,6% em janeiro, alta de 3 pontos em um ano; no internacional, houve estabilidade em 77,5%.
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