A Ambev (ABEV3) tem inconsistências contábeis a la Americanas? É melhor ir com calma antes de tirar conclusões
O fantasma de Lemann e das Americanas derruba as ações da Ambev (ABEV3) hoje. Mas há pouca semelhança entre os casos

Água no chope da Ambev (ABEV3) nesta quarta-feira (1): as ações da companhia caem mais de 5% e lideram com folga a ponta negativa do Ibovespa. Pode não parecer grande coisa, mas para uma gigante do tamanho da cervejeira, um tombo desses implica numa perda de mais de R$ 10 bilhões em valor de mercado numa única sessão.
A espiral negativa, no entanto, não começou logo na abertura do pregão. Os papéis ABEV3 passaram a mergulhar perto das 11h — não coincidentemente, minutos após uma matéria publicada no site da revista Veja levantar suspeitas sobre um possível rombo bilionário envolvendo a cervejeira.
E, é claro, o mercado está como gato escaldado quando o assunto é inconsistência contábil — ainda mais quando o raio pode cair duas vezes no mesmo lugar. Afinal, assim como a Americanas, a Ambev também tem o trio Jorge Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira, da 3G Capital, como pilares de sua sustentação.
A fumaça se espalhou rapidamente pelas mesas de operação e os papéis ABEV3 foram às mínimas dos últimos seis meses, sendo negociados abaixo da casa dos R$ 13, em meio às incertezas quanto aos eventuais impactos a serem sentidos no balanço da companhia.
Mas o que de fato é espuma e o que é copo cheio nessa história?

Ambev (ABEV3): impostos e imbróglios
Segundo a reportagem de Veja, a suspeita foi levantada pela Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil), uma entidade encabeçada por rivais da Ambev no setor: Grupo Petrópolis, Imperatriz Cervejaria, Krug Bier, e Lund são alguns de seus membros.
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A questão parte de um estudo feito pela AC Lacerda. Certas empresas de bebidas, como a Ambev e a Coca-Cola, estariam supostamente se aproveitando indevidamente de benefícios fiscais concedidos a companhias que atuam na Zona Franca de Manaus. Isso porque tais empresas são isentas do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI).
Mas Ambev, Coca-Cola e outras não estão nessa região, então qual a questão? Segundo a CervBrasil, ao comprarem componentes para a produção de refrigerantes que são feitos na Zona Franca, as empresas podem reconhecer créditos fiscais, com base na taxa nominal de IPI.
Sendo assim, o estudo da AC Lacerda concluiu que, após anos dessa prática, o rombo gerado por essas distorções à arrecadação fiscal pode ser da ordem de R$ 30 bilhões.
Inconsistências contábeis, empresas de Lemann, cifras bilionárias... o mercado tremeu.
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Bebida concentrada ou diluída?
Dito isso, um primeiro ponto a ser frisado é o de que essa cifra de R$ 30 bilhões não diria respeito apenas à Ambev, mas sim a todas as empresas de bebidas que se aproveitariam dessa situação. Seria preciso, portanto, entender melhor como esse possível rombo afetaria cada uma das companhias.
E o BTG Pactual fez justamente isso. Em relatório publicado no fim da manhã, os analistas Thiago Duarte e Henrique Brustolin destacam que os R$ 30 bilhões em questão se referem às estimativas feitas pela Receita Federal em relação às disputas entre a autoridade fiscal e as empresas de bebidas.
Esse imbróglio vem de longa data, e a CervBrasil sempre foi uma crítica vocal da questão. Durante o governo Michel Temer, tentou-se amenizar parte do problema. A taxa nominal de IPI envolvendo tais produtos caiu de 20% para 8%. Portanto, boa parte do benefício deixou de existir desde 2018.
"No caso da Ambev, o impacto deve ser ainda menor, dado que o tamanho do negócio de bebidas não-alcoólicas em relação a todo o negócio é de cerca de 7% do Ebitda consolidado estimado para 2022", escreve o BTG. "Então, qualquer discussão sobre eventuais mudanças na maneira como a Zona Franca funciona devem ser bem diluídas".
Ambev: balanço gaseificado
Ainda de acordo com o BTG, a Ambev (ABEV3) não está totalmente desprotegida de uma eventual perda nas discussões envolvendo a Zona Franca de Manaus. Os itens 8 e 17 do relatório 20-F da companhia no terceiro trimestre indicam uma provisão de R$ 5,6 bilhões para 'possíveis perdas' relacionadas aos créditos fiscais.
"Mas parece justo dizer que, se esses créditos deixarem de existir, as companhias provavelmente transmitiriam parte dos custos para os preços dos produtos." Sendo assim, por mais que o fantasma de um eventual rombo a la Americanas pareça distante, a questão pode sim trazer impactos à companhia.
O Seu Dinheiro entrou em contato com a CervBrasil e com a AC Lacerda, mas não obteve resposta. Nossa reportagem também procurou a Ambev, que nos enviou a seguinte nota:
"As acusações da Cervbrasil não têm qualquer embasamento. Calculamos todos os nossos créditos tributários estritamente com base na lei. Nossas demonstrações financeiras cumprem com todas as regras regulatórias e contábeis, as quais incluem a transparência do contencioso tributário. A Ambev está entre as 5 maiores pagadores de impostos no Brasil."
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