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Mercado assumiu postura de desconfiança diante das falhas de comunicação e daquilo que encaram como falta de transparência por parte da Americanas (AMER3)
Já faz duas semanas que o noticiário de economia se concentra em um único caso, bastante emblemático: o rombo de R$ 20 bilhões encontrado na Americanas (AMER3).
Mais do que mera curiosidade em cima de um escândalo dessa magnitude, o que o mercado tem feito é o exercício clássico de quando buscamos elaborar um assunto de difícil compreensão: falamos sobre ele à exaustão, repassamos todos os fatos, tentamos encontrar algo que ainda não foi visto.
Mas, por mais que exista esse esforço, é difícil dar conta de tudo e enxergar tudo o que aconteceu. Com a Americanas não é diferente e sobram perguntas diante de um caso que parece inacreditável se considerado o valor das dívidas e das inconsistências, a reputação de seus acionistas de referência e o tamanho da empresa.
Nos últimos dias conversei com fontes de mercado e advogados e trago a seguir algumas das muitas perguntas sobre o rombo contábil na varejista que até o momento seguem sem resposta.
Parece óbvio querer delimitar uma data para dizer a partir de quando a Americanas passou a trazer informações erradas no balanço. Mas o fato é que ninguém sabe desde quando os balanços divulgados estavam errados. Ou quantos deles precisarão ser republicados com as devidas correções. Ou qual foi o malabarismo exato praticado pela gestão anterior.
Vale dizer também que a ausência de um histórico nesse sentido inflou não apenas os números da Americanas, mas também a remuneração de seus acionistas e a distribuição de dividendos nos últimos anos. Indo um pouco mais além, não sabemos também se isso é passível de algum tipo de correção.
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Uma das principais razões que afastam os investidores no momento se resume justamente a não saber o tamanho real do problema e sua dimensão no tempo. Afinal, cinco anos de inconsistências contábeis são bem diferentes de cinco meses.
No pedido de recuperação judicial, a varejista informou dívidas de R$ 43 bilhões com 16 mil credores, mas em documento divulgado na quarta-feira (25) pela 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro, a declaração é de uma dívida de R$ 41,2 bilhões a 7.967 credores.
Ou seja: a Americanas sequer consegue encontrar o valor real da falha e acredita-se que ainda veremos ajustes.
“A cada dia que passa fica mais claro que eles fizeram uma divulgação alarmante sem nem ter certeza do tamanho do rombo. Quanto mais o tempo passa, mais eles precisam correr em busca de soluções e a reputação da empresa e dos executivos vão pelo ralo. É tudo muito amador para uma empresa gigante”, comenta um advogado que prefere não ter seu nome revelado.
Esse é um dos pontos mais polêmicos até aqui. Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, os acionistas de referência da Americanas, levaram quase duas semanas para se pronunciar sobre o rombo contábil na companhia.
Em uma nota divulgada na noite de domingo, eles negaram saber dos problemas na varejista. Mas isso não foi suficiente para convencer os credores.
Para os bancos que tentam ganhar na Justiça o direito de receber o dinheiro devido pela Americanas ou algum tipo de bloqueio dos valores da empresa, seria muito difícil que os acionistas de referência não soubessem de absolutamente nada.
Seja como for, Lemann e seus sócios se beneficiaram como acionistas do pagamento recorde de dividendos da companhia no ano passado. Foram R$ 333,2 milhões no total.
Parte desse mistério talvez seja resolvido graças à Justiça de São Paulo, que determinou busca e apreensão nos e-mails dos diretores da Americanas na quinta-feira (26). A medida inclui também conselheiros e funcionários da contabilidade.
A decisão da Justiça de São Paulo também pode ajudar a responder essa pergunta, já que até agora o caso todo tem um certo tom de “ninguém sabe, ninguém viu”, com mais silêncio do que o mercado gostaria.
Essa postura ajudou a elevar o nível de desconfiança.
O anúncio das inconsistências foi feito na noite do dia 11 de janeiro e durante muito tempo a única declaração oficial sobre o assunto foi a teleconferência liderada pelo ex-CEO Sérgio Rial na manhã seguinte. Uma reunião mediada pelo BTG Pactual — principal credor da Americanas e que acionou a companhia na Justiça — com participação limitada de apenas mil participantes no formato de reunião online.
Não houve pronunciamento abrangente e oficial capaz de acalmar toda a base de acionistas, parceiros, consumidores, funcionários, demais credores, nada. Na ocasião, o executivo limitou-se a dizer que acabara de descobrir tais falhas e que isso o obrigava a deixar o cargo recém-assumido.
Ninguém sabe quem foi o primeiro funcionário a encontrar esses erros, quais as chefias responsáveis ou como em nove dias no cargo a nova gestão já conseguiu identificar o problema.
O comentário que corre é que tantas falhas na comunicação e a demora para posicionamentos essenciais no meio desta crise só aumentam a desconfiança, com a sensação de que há mais intenção em esconder o problema do que trazer luz ao caso.
E também de que há uma tentativa de eximir os executivos de culpa, transferindo a responsabilidade para a PwC, auditoria que atende a Americanas, assim como seus credores. Ou seja: seria natural que todos soubessem dos problemas, menos os próprios dirigentes.
E nessa tentativa de fazer uma lista de quem sabe ou não da verdade por trás do buraco em que a Americanas se afundou, um outro ponto ainda não foi esclarecido: a venda de R$ 241,5 milhões em ações no segundo semestre do ano passado pelos diretores da companhia.
As operações foram concentradas entre agosto e outubro e o mercado, obviamente, não deixou de observar a janela de tempo bastante específica nem o valor tão alto. Falta explicar o motivo para essa venda tão urgente.
Caso seja comprovado que houve o uso de informações privilegiadas, a prática do chamado "insider trading" prevê multa de até três vezes o valor total do lucro com as transações.
Aliás, os executivos da Americanas receberam R$ 35,6 milhões em remuneração no ano passado, enquanto o conselho de administração da empresa embolsou R$ 1,5 milhão, de acordo com os últimos dados disponíveis.
A lista de credores da Americanas é gigantesca e os mais conhecidos deles são os grandes bancos, que buscam de diferentes maneiras conseguir alguma proteção judicial contra um calote.
Mas há também funcionários, fornecedores menores, consumidores e donos de marketplace — lojas, restaurantes e mercados que vendem produtos por meio da plataforma de e-commerce da varejista. Ainda não há como saber de qual maneira eles serão impactados, mas a movimentação em busca de salvação também já começou.
Até o final do ano passado, a Americanas contava com mais de 150 mil sellers — como são chamados os lojistas — e fornecedores, que juntos são responsáveis por 60% das vendas digitais da marca.
Na semana passada, esses vendedores dobraram os valores dos produtos à venda na plataforma para tentar impedir uma venda maior e ficar com recebíveis de cartões de crédito presos na companhia. Eles não vendem, mas diminuem o risco de nunca ver o dinheiro da venda.
Em comunicado, a Americanas garante que os profissionais da plataforma receberão os valores conforme previsto, mas na prática a desconfiança segue.
Essa é outra pergunta ainda impossível de responder até agora. Uma vez que não sabemos o tamanho total do rombo ou seu histórico, fica difícil projetar quanto dinheiro a empresa vai precisar para se reerguer. Até porque a recuperação judicial resolve apenas uma parte dos problemas financeiros, o que torna a questão bem mais complexa do que a tal dívida de R$ 43 bilhões
Hoje, qualquer número relacionado à companhia virou um grande mistério e parte dele necessita inclusive da apresentação do plano de recuperação judicial para qualquer solução.
"Só quando o plano for divulgado é que vamos conseguir ter ideia do que a Americanas vai colocar na mesa para fazer frente a todos esses problemas e essa dívida enorme. Até lá, fica difícil projetar qualquer coisa", afirma Ana Lívia Dias, advogada associada ao escritório Briganti Advogados, especialista em Direito Civil e Processo Civil.
Diante de um quebra cabeças que parece ser tão difícil de decifrar, há algumas dúvidas que se posicionam bem além da Americanas (AMER3) porque dizem respeito ao mercado como um todo.
Desde o início das revelações sobre a varejista não faltou quem levantasse um ponto importante: qual será a resposta dos órgãos reguladores como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM)? E isso vai além da punição aos eventuais envolvidos no escândalo.
Afinal, a Americanas apenas engrossa uma lista de outras empresas envolvidas em escândalos a despeito de sua presença em índices voltados à governança corporativa e, especialmente, no Novo Mercado da B3, que indica referência de boas práticas.
O rombo contábil da Americanas é o segundo envolvendo empresas do Novo Mercado em três anos. Em 2020, a empresa de resseguros IRB Brasil (IRBR3) revelou problemas no balanço, em um caso que passou batido pelos reguladores até ser revelado pela gestora carioca Squadra.
O que pode acontecer, daqui em diante, é a revisão de algumas regras e parâmetros para casos semelhantes, inclusive aqueles que permitem que companhias envolvidas em problemas assim acessem o mercado de capitais e estejam presentes índices específicos, que servem como um selo de qualidade.
De acordo com a empresa, a gestão de Reynaldo Passanezi Filho, que deixa o cargo, foi marcada por um ciclo de crescimento da companhia, avanços em eficiência operacional e investimentos em níveis recordes
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