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Em tese, o ruído deveria ser ignorado pelo investidor, enquanto os sinais deveriam ser receber atenção — mas a teoria é diferente da prática
Dentre as máximas das cartilhas de finanças, figura a lição: o bom investidor deve saber diferenciar ruído de sinal.
Enquanto o sinal fornece informações preciosas sobre a tendência confiável para o médio e longo prazo, os ruídos produzem inúmeras distrações de curto prazo, indutoras de decisões ruins.
Logo, nada melhor do que jogar fora o ruído e ficar apenas com o sinal.

Porém, assim como tudo o que é pregado pelos caga-regras do mercado financeiro, é muito mais fácil falar do que fazer.
A primeira dificuldade deriva da enorme desproporção entre ruído e sinal, percebida intuitivamente pela volatilidade dos retornos em bolsa ou pelo mapeamento das notícias.
Dado o alargamento de seus desvios-padrão, o Ibovespa pode tranquilamente cair ou subir 1% (em módulo) em um pregão, sem que isso signifique nada.
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E, para cada cem notícias publicadas diariamente nas capas dos principais jornais de economia e finanças, talvez uma ou duas permaneçam relevantes daqui a 12 meses.
Já a segunda dificuldade tem menos a ver com quantidades e mais a ver com a qualidade do ruído.
Quando ouvimos o conselho politicamente correto de jogar fora o ruído e ficar com o sinal, imaginamos a casca no lixo, para se deleitar com a banana; ou o fone de ouvido que cancela os barulhos insuportáveis do trânsito paulistano, permitindo que você ouça a guitarra de Ritchie Blackmore em alta fidelidade.
Na prática, entretanto, a separação entre joio e trigo é bem mais complicada, pois o joio tem uma exímia habilidade de se disfarçar de trigo.
Via de regra, os assuntos que se provam ruído a posteriori são seríssimos enquanto lideram a pauta diária ou semanal. Não é nada óbvio descartá-los, fazer troça deles ou — ainda pior — negociar contra eles.
A demissão truculenta de Castello Branco culminará na derrocada de Petrobras; o embate entre Lula e Campos Neto destruirá o relacionamento entre a Fazenda e o Banco Central; a deflação vista no IPCA cheio não é tão boa assim quando mergulhamos nos detalhes de sua composição.
Não só o diabo está nos detalhes como os detalhes são o próprio diabo.
Nada fácil, entende?
O ruído estúpido, casca de banana, moto buzinando, nem chega a fazer preço. O ruído que importa é quase sempre fruto de debates legítimos, de altíssimo nível, mas que só levam a ruas sem saída.
Ironicamente, porém, esses debates "inúteis" nos levam a pensar, pensar, pensar, em múltiplas possibilidades, o tempo inteiro, indo para frente e para trás, para frente e para trás, lapidando a tendência que se forma.
Por isso, arrisco-me a dizer que não haveria sinal algum se não houvesse ruído.
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