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Em economia, tudo pode acontecer, mas o cenário brasileiro é bem diferente do que acontece no país vizinho
A crise que assola a Argentina é um problema que parece não ter solução. O país entrou em uma espiral caótica para a economia, com uma inflação que ultrapassa os 100% ao ano, pouquíssimas reservas em dólar após uma forte seca na lavoura e uma dívida de US$ 45 bilhões com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Com eleições marcadas para outubro deste ano, a pauta econômica é a bola quicando no centro do debate político.
Candidatos à direita e à esquerda buscam soluções e tentam dominar a narrativa, apontando culpados que vão desde o antigo governo Maurício Macri até a falta de competência de Alberto Fernández, atual presidente, que desistiu de concorrer à reeleição.
Mas a principal pergunta que fica é: o mesmo pode acontecer com o Brasil? Afinal, acabamos de sair de uma conturbada eleição, e o governo federal, liderado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, promete elevar os gastos — sem necessariamente apresentar contrapartidas orçamentárias.
A verdade é que, em economia, tudo pode acontecer. Entretanto, o cenário argentino se repetir no Brasil é muito difícil.
Aqui vão três indicadores econômicos comparando Brasil e Argentina para entender a crise no país vizinho — e por que nós não devemos nos preocupar tanto agora.
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Começando pelo principal, as reservas cambiais do Brasil e da Argentina são bastante discrepantes.
Dados recentes do Banco Central da Argentina (BCRA, na sigla em espanhol) mostram que as reservas internacionais dos hermanos somam US$ 34 bilhões de acordo com o número compilado até a última sexta-feira (05).
Já as reservas brasileiras são bem maiores. Os números mais recentes do Banco Central (BC) brasileiro indicam reservas de US$ 345 bilhões.
Essas reservas internacionais têm diversas finalidades, como honrar pagamentos internacionais e, em países de câmbio flutuante, evitar choques externos de oscilações contra a moeda local.
Assim, a falta de dólar e as oscilações frente a outras moedas nacionais criam um cenário de incerteza e instabilidade, como é o caso argentino.
Na Argentina, a falta de dólares tem sido um problema para as empresas brasileiras. Cerca de 200 companhias estão sem receber devido à escassez de reservas.
Desde 2002 o país adota o câmbio flutuante — mas a Argentina voltou a controlar e liberar a oscilação das cotações até 2019, quando recebeu um ultimato do FMI e passou a adotar de vez a flutuação do dólar. O câmbio flutuante funciona no Brasil desde 1999.
Mas nos nossos “hermanos” criou-se uma situação, no mínimo, peculiar. Isso porque a Argentina tem mais de 19 taxas oficiais para a moeda dos EUA.
Por exemplo, o “dólar oficial” usado como referência pelo BCRA, custa hoje 235 pesos argentinos. Já o dólar blue (paralelo) pode ser vendido por até 471 pesos, segundo as cotações desta quarta-feira (10); o dólar “turismo” está cotado em 474 pesos — e por aí vai.
No Brasil, a taxa oficial calculada diariamente pelo BC é chamada dólar PTAX e é a referência para o mercado brasileiro. Ele é calculado por uma média das negociações do dólar comercial, que oscila conforme a compra e venda.
O dólar PTAX fechou o pregão da última terça-feira em R$ 5,0001 para compra e R$ 5,0007 para venda.
Existe ainda o chamado dólar turismo, uma cotação especial para quem vai viajar, calculado pelas casas e corretoras de câmbio.
Apesar de ter algumas oscilações, essa cotação não está muito distante da taxa PTAX do BC — valendo aproximadamente R$ 5,030 para compra e R$ 5,171 para venda.
Como foi dito anteriormente, as reservas internacionais são utilizadas para transações entre países. A ausência de dólares dificulta a importação e exportação, o que acaba encarecendo os produtos.
Encurtando um grande resumo histórico, a economia argentina já foi oficialmente dolarizada. Na passagem de 1991 para 1992 entrou em vigor o chamado Plano Cavallo, que colocava paridade de 1 para 1 do austral (como era chamada a moeda argentina na época) com o dólar — algo próximo do que foi o Plano Real de 1994.
Entretanto, na passagem de 2001 para 2002, a intensa convulsão social obrigou a Argentina a abandonar a paridade com o dólar e decretar o chamado “corralito”, bloqueio das contas dos cidadãos. A moeda voltou a se chamar peso e o câmbio passou a ser livre novamente.
Mas a economia da Argentina nunca deixou de ser totalmente dolarizada. Assim como acontece no Brasil, o dólar tem uma influência no preço final dos produtos, o que acaba gerando uma inflação marginal em toda economia.
Em países com reservas, essa oscilação pode ser controlada. Já para o caso argentino, a soma de todos os fatores citados não poderia ser diferente: a expectativa dos analistas é de que, ao final de 2023, a inflação acumule 120% de alta.
Brasil e Argentina são países vizinhos, duas grandes economias da América Latina e se assemelham em muitas coisas — churrasco ou asado, ambos dominam a arte.
Apesar de próximos em muitos pontos, são distantes no quesito taxa de juros.
O Brasil tem o maior juro real — ou seja, a taxa de juros praticada descontada a inflação esperada do período — do planeta, com 6,94% ao ano. No segundo e terceiro lugares vêm México e Chile, com 6,05% e 4,92% respectivamente.
A Argentina ocupa a ponta oposta do gráfico: os juros por lá estão a 91% ao ano, mas a inflação elevada faz com que o juro real por lá seja negativo em quase 20%.
*Atualização: a matéria continha um erro de cálculo no bloco de reservas internacionais e onde dizia "milhões" nas reservas argentinas, o correto é "bilhões". A correção foi feita no dia 11/05.
O montante considera o período de janeiro até a primeira semana de março e é quase o dobro do observado em 2025, quando os gringos injetaram R$ 25,5 bilhões na B3
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