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Bia Azevedo

Bia Azevedo

Jornalista pela Universidade de São Paulo (USP). Em 2025, esteve entre os 50 jornalistas mais admirados da imprensa de Economia, Negócios e Finanças do Brasil. Já trabalhou como coordenadora e editora de conteúdo das redes sociais do Seu Dinheiro e Money Times. Além disso, é pós-graduada em Comunicação digital e Business intelligence pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

DE OLHO NAS REDES

O Alexandre de Moraes não foi preso, mas você foi: descubra como escapar da ‘prisão’ que Lula e Bolsonaro criaram nas redes sociais

Enquanto uns choram ajoelhados nas ruas por uma notícia falsa e outros entram para o vale-tudo, o Seu Dinheiro te convida para respirar um ar fresco

Bia Azevedo
Bia Azevedo
6 de novembro de 2022
7:00 - atualizado às 12:32
Alexandre de Moraes, Lula e Bolsonaro
Imagem: Montagem Beatriz Azevedo

“O Brasil é nosso”, grita uma mulher ajoelhada no chão batendo com força contra o próprio peito. Ao lado dela, uma série de pessoas comemoram — com altos berros — a prisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. 

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Em outro vídeo, ouvem-se fogos de artifício após um dos manifestantes receber um alerta que também informava a prisão do ministro. Mas há um pequeno detalhe: Moraes nunca teve a prisão decretada. A multidão estava vibrando a partir de uma informação falsa. 

Você deve ter visto isso em alguma de suas redes sociais nesta semana e, provavelmente, se fez a mesma pergunta que eu: como as pessoas conseguem criar uma realidade alternativa e acreditar com tanto afinco nela? Delírio coletivo? 

Cabe lembrar que não entro no mérito político dos manifestantes. O exemplo foi usado por ser um extremo do quero discutir aqui: as redomas de aço criadas pelas redes sociais.

Há quem as chame de bolhas, mas o termo me parece frágil demais para explicar o que vem acontecendo nos últimos anos.

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Seu unfollow não ajudou Lula, nem atrapalhou Bolsonaro

No último domingo, o Brasil acompanhou uma das eleições mais acirradas da história da nossa democracia. Quando as urnas fecharam e a apuração começou, era impossível determinar quem seria o novo presidente do país, mas uma coisa já estava certa desde o começo: metade da população ficaria possessa com o resultado. 

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O final vocês já sabem. O que eu vou revelar neste texto é uma coisa que a equipe de redes sociais já esperava, mas não nas proporções vistas no domingo: perdemos centenas de seguidores simplesmente por anunciar que Lula havia vencido a disputa presidencial.  Veja abaixo e continue lendo para entender o que aconteceu.

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Uma publicação compartilhada por Seu Dinheiro (@seudinheiro)

No sábado anterior à decisão também perdemos um bocado. O motivo? Duas publicações separadas que mostravam o que esperar de um próximo governo Lula e de uma eventual reeleição de Jair Bolsonaro. Veja a seguir e continue lendo logo adiante: 

 

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Como esperado, as publicações irritaram os dois lados que disputaram o pleito naquele final de semana e alguns deles acharam que a solução para isso seria deixar de nos seguir nas redes sociais, como se o unfollow na página do Instagram do Seu Dinheiro fosse ajudar algum dos candidatos.

Assim, duas perguntas precisam ser respondidas: 

I) Por que o ser humano tem tanta vontade de moldar a realidade? 

II) Como as redes sociais maximizaram esse fenômeno?

Sobre o primeiro questionamento, já escrevi um texto para o Seu Dinheiro que tenta responder. Clique aqui para lê-lo.

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Bolsonaro é ‘macaco velho’, mas Janones deu um super ‘empurrão’ em Lula

Sobra o último questionamento. Para respondê-lo, vou começar explorando o sistema bolsonarista de comunicação. Mas fique calmo, não precisa se alarmar e correr para responder este e-mail me chamando de petralha.

Logo em seguida falo sobre o “Janonismo”, termo usado para fazer referência à estratégia de comunicação do deputado federal André Janones. Trata-se de um esquema de redes sociais bem mais agressivo do que a esquerda vinha usando, afinal, os políticos desse espectro ainda estavam presos ao modo tradicional de fazer política.

Enquanto isso, a equipe de Bolsonaro — aqui dou um destaque especial para Carlos Bolsonaro — já estava deitando e rolando nas redes sociais, o que ajudou a garantir a vitória em 2018. Lembrando que o candidato só tinha oito segundos de televisão, enquanto Geraldo Alckmin teve cinco minutos e mesmo assim não ultrapassou os 5% de votos no primeiro turno.

O que Janones faz foi nivelar o jogo — mas esse nivelamento pode ter sido para baixo.

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Fonte: “confia, pô”

Nos vídeos que citei logo no começo deste texto, a fonte da informação falsa é a mesma: WhatsApp. Uma rede social extremamente popular que já ultrapassa os 2 bilhões de usuários no mundo inteiro, de acordo com dados da própria plataforma.

No Brasil, ela acumula mais de 120 milhões de contas ativas e atinge 92% dos brasileiros que dizem usar as redes sociais, segundo dados da pesquisa nacional Datafolha.

O único país que nos ultrapassa no número de usuários é a Índia (que é 7 vezes maior do que nós). Somos a terra do WhatsApp!

Estamos falando de uma rede social que consome poucos dados de internet móvel, dispara mensagens de graça (diferente do serviço de SMS) e ainda é o único app que todas as operadoras de telefonia deixam funcionando quando os dados móveis do celular terminam. Ou seja, um aplicativo que tem tudo para se disseminar entre a população mais pobre.

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Além disso, trata-se de uma mídia que os pesquisadores consideram como opaca. Ou seja, graças à criptografia, não existe controle social do que é dito ali e trata-se de um campo fértil para desinformação.

E a equipe de Bolsonaro soube muito bem como capturar esse movimento e criou uma verdadeira rede de apoio que é destrinchada por uma série de pesquisadores. Letícia Cesarino, professora de antropologia na Universidade Federal de Santa Catarina, é uma delas.

Ela explica que a estratégia predominante de grupos no Whatsapp é o uso de uma constante ameaça para a mobilização de afetos.

Os sentimentos mais explorados são o medo, ressentimento ou ódio. Entre eles, não há uma utopia a ser realizada, apenas um inimigo a ser combatido — que é o culpado pelos sofrimentos e frustrações daquele grupo.

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E isso não vem de hoje. Antes mesmo da candidatura, Bolsonaro e sua equipe já se empenhavam na estratégia — muito inspirada em Donald Trump, nos Estados Unidos.

De acordo com Cesarino e com o professor da USP e colunista do Uol, Rodrigo Ratier — que acompanha os grupos bolsonaristas desde 2018 — existem quatro linhas discursivas predominantes em todos eles. Pelo menos uma delas está presente em quase 80% das mensagens enviadas:

  • A fronteira entre inimigo e amigo: eles conseguem definir muito bem quem é quem e, assim que uma figura antes favorável ‘muda de lado’, imediatamente as narrativas dos grupos mudam.
  • A equivalência entre o líder e o povo: a figura do presidente é colocada como uma igual ao povo e, às vezes, se confunde com ela. Existem até casos em que as mensagens sugerem que o povo pode ‘ser’ Jair Bolsonaro enquanto ele não puder comparecer, como no episódio da facada.
  • Mobilização permanente por meio de ameaça e crise: há sempre um perigo a ser combatido. “Começa com a definição de inimigos - cada vez mais numerosos e com a descrição em tons alarmistas — "cuidado!”, “eles estão de volta”.
  • Deslegitimação das instituições para produção de um canal exclusivo: cria-se um ambiente em que ninguém é confiável ou mesmo diz a verdade. Exceto, é claro, os membros do grupo. O curioso, no entanto, é que não são ambientes de debate. Ratier aponta que é uma minúscula minoria que realmente manda as mensagens por lá.

“É uma verdadeira guerra  espiritual onde, glosando Benjamin, nem os mortos estarão a salvo se o inimigo vencer”, explica Cesarino.

O que é possível notar também, de acordo com os pesquisadores, é que a descontextualização também é predominante. Meias verdades são inseridas para validar o restante da narrativa. Aqui, o jornalismo tem pouca, ou nenhuma credibilidade. 

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Há também a estratégia das demais redes sociais. Nelas, o bolsonarismo também é muito forte, até porque ele segue a lógica do que mais engaja em todas as mídias sociais: a geração de polêmicas. O moderado não tem espaço, o discurso radical é quem ganha os likes, compartilhamentos e comentários. Falo mais sobre isso neste texto.

A esquerda cansou de apanhar e Lula está entrando no vale-tudo?

No dia 3 de outubro, quando o segundo turno entre Lula e Bolsonaro foi confirmado pelas urnas, o deputado federal André Janones foi para o vale-tudo na campanha digital contra Jair Bolsonaro. 

Logo nos primeiros dias da corrida pelo segundo turno, vídeos que ligavam Bolsonaro ao canibalismo e à maçonaria inundaram as redes sociais. Cesarino aponta que a estratégia não pretende “furar bolhas”, mas manter o “inimigo” ocupado. 

“Muitos seguidores de Janones passaram a mimetizar e defender o deputado nessa estratégia, inclusive quando ela resvalou em práticas que foram coibidas pelo TSE”, explica. 

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O argumento dos apoiadores dessa prática é que a esquerda está cansada de apanhar e precisa nivelar o campo de batalha.

Como trata-se de uma estratégia muito recente, ainda não existem estudos apontando os caminhos e a profundidade do chamado Janonismo, mas os pesquisadores já enxergam os perigos de equivalência com o método bolsonarista.

As redomas de aço

A verdade é que Alexandre de Moraes não está preso, mas é bem provável que você e eu também estejamos.  Não no sentido literal da palavra, mas nas redomas de aço formadas pelas mídias sociais. 

As estratégias usadas pelos dois candidatos nas redes sociais criam uma espécie de realidade paralela onde todos concordam e quem ousar esboçar uma crítica é apedrejado. 

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Seja qual for a sua posição política, é bem possível que tudo o que você consome esteja ligado às suas crenças, qualquer coisa que sai minimamente do script, leva a unfollow ou xingamentos nos comentários. 

Entendo que as bolhas são confortáveis e longe de mim pedir para que você saia completamente da sua. Até porque eu também não pretendo deixar a minha. Mas aqui cabe analisar a possibilidade de tomar um ar de vez em quando. 

Abrir a portinha da redoma, olhar o que está acontecendo lá fora e voltar para o conforto do seu mundo. Isso garante que você não vai passar a vergonha de chorar por uma falsa prisão ou de se abraçar ao parabrisa de um caminhão e recusar-se a deixá-lo (mesmo que esteja em movimento, te levando para longe). 

Aqui no Seu Dinheiro, o nosso objetivo não é furar sua bolha e sim trazer os fatos. Ou seja, se as urnas tivessem mostrado Jair Bolsonaro como campeão no domingo, nós teríamos uma outra versão do vídeo publicado assim que o resultado saísse. 

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Então, para tomar um ar de vez quando, nossas redes sociais podem ser uma alternativa. Por isso, eu te convido para nos seguir em todas as plataformas: Instagram, TikTok, Linkedin e YouTube. Também faço o convite para você participar do nosso grupo no Telegram. 

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