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Pensando nos balanços do quarto trimestre desde já, o mercado vai acompanhar de perto histórias específicas, como da Petrobras (PETR4)
Com o fim de mais uma temporada de balanços, a sensação é a de que os piores efeitos econômicos da pandemia começaram a ficar para trás. Isso não quer dizer que o horizonte seja o de um cenário perfeito, mas já é possível respirar com mais tranquilidade — e com a certeza de que grande parte das companhias de capital aberto do Brasil conseguiram passar pela tempestade.
Apesar de algumas surpresas pontuais, chamou a atenção o quanto as receitas das empresas aumentaram, assim como os custos — uma equação que afetou o lucro operacional. Os juros altos e a inflação foram os grandes vilões.
Ainda que tenha sido visto um alívio nas pressões se considerados os períodos anteriores e, especialmente, o terceiro trimestre de 2021, também fica um recado: enquanto essa dupla citada acima não acalmar, não haverá descanso.
"Desta vez, vimos o top line compensando a pressão de custos, diferente do que víamos nos trimestres anteriores. Antes também havia maior pressão de margens e agora elas estão, em grande parte, pelo menos estáveis", avalia Gabriela Joubert, analista-chefe do Inter Research.
Segundo relatório do Bank of America (BofA), o lucro por ação do Ibovespa no terceiro trimestre deste ano foi mais pressionado, mas os resultados ficaram acima das expectativas da equipe.
Para os analistas do BofA, os destaques positivos do período foram as empresas voltadas para consumo de alta renda, atacarejo, distribuição de energia e petróleo.
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Entre os destaques negativos, o relatório aponta os setores de açúcar e etanol, geração de energia, aluguel de carros e as mineradoras.
No episódio mais recente do podcast Radar da Semana, do BTG Pactual, a equipe do banco compartilha uma visão semelhante.
Para os analistas, essa temporada de resultados reforça um movimento marcado não pela análise geral de teses setoriais, mas sim pelo chamado "stock picking" — quando um investidor busca ações específicas com preço baixo, na intenção de vender conforme a valorização.
Além dos setores citados acima, quem também está na lista dos que brilharam nesta temporada, segundo os especialistas consultados pelo Seu Dinheiro, são os shoppings — principalmente de alta renda —, o setor de papel e celulose e as petroleiras como um todo. Além, é claro, da queridinha da bolsa: a Weg (WEGE3).
Em relatório desta semana, o Morgan Stanley rebaixou a recomendação dos ativos brasileiros de "overweight" (acima da média do mercado) para neutro, considerando toda a carteira da América Latina.
Ainda que o banco esteja mais pessimista em relação ao Brasil por causa dos riscos fiscais, os analistas incluíram seis papéis brasileiros em sua carteira de ações para a região, considerando os resultados mais recentes.
A lista inclui Itaú (ITUB4), Porto (PSSA3), Weg (WEGE3), Assaí (ASAI3), Vale (VALE3) e Americanas (AMER3). Com exceção da varejista e da mineradora — que contam histórias mais específicas — de maneira geral, as demais trouxeram balanços positivos.
Quando falamos das empresas que decepcionaram nesta temporada de balanços, não tem como começar a conversa sem falar dos bancos, inclusive pelo peso que o setor possui dentro do Ibovespa.
Mais do que decepções pesadas, como aconteceu com o Bradesco (BBDC4) e, em menor escala, com o Santander (SANB11), a discrepância entre os resultados chamou a atenção.
Por consequência, é o setor que mais preocupa os analistas quando olhamos para o futuro. A leitura é de que a inadimplência é o fator mais alarmante e, conforme uma queda dos juros parece cada vez mais distante com os atuais riscos fiscais, algo difícil de ser revertido no curto prazo.
Chama a atenção também o fato de que os atrasos em pagamentos de empréstimos aumentaram de maneira generalizada em todo o setor.
"Não vejo como os próximos balanços do Bradesco podem vir bons. Uma melhora mesmo só vem em 2023, porque a inadimplência também vai demorar para melhorar", diz José Luiz Torres, sócio e analista de ações da Apex Capital.
Em relatório recente, o JP Morgan aponta que o derretimento das ações do Bradesco após a divulgação do balanço pode até representar uma oportunidade de entrada no papel. A perspectiva de retorno é alta, escrevem os analistas, mas também implica maior volatilidade no curto prazo.
Quem também frustrou nos balanços foram as varejistas. Ainda que resultados mais fracos para o setor estivessem calculados, os números vieram até piores do que o previsto.
Os dados confirmam a tese de que a situação macroeconômica ainda bastante difícil afetou o bolso do consumidor. E, considerando a dependência das grandes varejistas das vendas de produtos de maior valor agregado — como televisores, geladeiras ou celulares — as empresas do setor ainda têm um longo caminho para reverter os prejuízos apresentados.
De maneira geral, o período foi marcado pela alta dos juros e inflação, que além de atingir o bolso do consumidor em cheio e também o acesso ao crédito, ainda afeta a dinâmica operacional das companhias. De olho no lucro, a saída foi sacrificar margens.
A leitura é de que, apesar dos prejuízos registrados pelas três grandes companhias do varejo nacional, o Magazine Luiza (MGLU3) se saiu bem melhor do que suas concorrentes Via (VIIA3) e Americanas (AMER3).
A lista das decepções também inclui a Vale (VALE3), que teve queda no lucro líquido, no Ebitda e, especialmente, nos volumes.
A expectativa para os balanços do quarto trimestre deste ano é a de que não veremos grandes surpresas em um espaço de tempo tão curto, mas sim certas particularidades que podem mexer com os papéis.
E a própria Vale é um exemplo disso: ainda que venha fazendo um trabalho bem executado, a demanda mais fraca na China e o impasse sobre a política do Covid zero — que ora dizem que chegará ao fim, ora dizem que seguirá firme — não trazem boas perspectivas para a mineradora.
Outra gigante da bolsa brasileira que também segue no radar do mercado é a Petrobras (PETR4). Com a volta de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à presidência, investidores acreditam que a era dos dividendos milionários ficou para trás, uma vez que o próprio presidente já declarou ser contra esse tipo de política.
Mais do que isso, analistas alertam para o risco de interferência política dentro da estatal e se preocupam por não saber como a empresa será dirigida nos próximos quatro anos.
Em relatório divulgado na terça-feira (22), o banco UBS recomendou a venda das ações da petroleira e reduziu seu preço-alvo de R$ 47 para R$ 22 — potencial de desvalorização de 6,46% se considerado o fechamento anterior.
As principais razões para isso estão na pouca visibilidade sobre o futuro da companhia, a possibilidade de uma mudança na política de preços e incertezas sobre a futura política de investimentos.
Para José Luiz Torres, sócio e analista de ações da Apex Capital, não são os resultados operacionais da Petrobras que trazem preocupação.
"O mercado não vai olhar tanto para o balanço da Petrobras, é uma empresa que está saudável. Vamos olhar de perto mesmo as movimentações políticas que serão dadas nessas próximas semanas", afirma.
O Inter Research também rebaixou a recomendação da petroleira para neutro.
Para as demais empresas, os investidores devem acompanhar de perto as despesas financeiras, o impacto dos juros altos que deixam as dívidas mais caras e o quanto do caixa será preciso queimar para lidar com isso.
Leonardo Rufino, sócio e gestor da Mantaro Capital, atenta também para as sazonalidades típicas do fim de ano, que devem movimentar mais o varejo e penalizar a indústria. Mas afirma que está de olho mesmo nas discussões políticas daqui pra frente.
"A passagem da eleição não trouxe a calmaria esperada para o mercado e agora discutimos mais o risco fiscal. Acaba que ficamos com discussões mais importantes do que somente os resultados das empresas", diz o gestor, de olho nas sinalizações de juros altos por mais tempo.
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