Do you speak english? O Inter, sim — e quer abrir 1 milhão de contas globais ainda em 2022
Depois de listar suas ações em Nova York, o banco digital está disposto a fincar a sua bandeira na vida cotidiana dos americanos e, quem sabe, em breve desembarcar na Europa

O Inter (INTR) mal desfez as malas após a sua atribulada migração para o Nasdaq, há pouco mais de um mês, e já se prepara para fincar a bandeira laranja não apenas em Wall Street, mas em todo o território americano — e, quem sabe no futuro, desembarcar também na Europa.
Apesar de os papéis da companhia estarem apanhando nos últimos meses antes de desembarcarem em Nova York — o Inter também segue negociado na B3, mas agora na forma de recibos de ações (BDRs), com o código (INBR31) —, o plano do banco digital é ambicioso e os números do "american dream” deixam isso bem claro.
O Inter & Co — novo nome do banco digital — espera que, até o fim do ano, cerca de um milhão de clientes já usufruam de uma conta corrente global — com cartão de débito internacional e possibilidade de fazer transferências para diversos países, tudo dentro do próprio aplicativo que já existe hoje.
E, se você tiver o perfil adequado para dar um passo além na sua vida financeira, poderá também investir diretamente na bolsa americana a partir da conta global.
Aliás, essa possibilidade de comprar ações e outros ativos internacionais, sem a necessidade de investir em um fundo global ou comprar recibo de ações (BDRs), parece ser a grande aposta recente do mercado.
Só nas últimas semanas, empresas como o Itaú, Bradesco, XP, BTG Pactual e, claro, o Inter, fizeram movimentações estratégicas para aproximar o investidor brasileiro de Wall Street.
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Ainda em Nova York, Felipe Bottino, diretor da Inter Invest — o braço de investimentos do banco digital —, conversou com o Seu Dinheiro sobre os desafios da internacionalização, o porquê de a concorrência não assustar e o que o futuro reserva para o mercado de capitais.
Spoiler: é melhor você começar a desenferrujar o inglês…

Os planos do Inter (INTR)
“A gente busca não só dar uma solução completa global para o brasileiro. Tem também o americano, o imigrante… A primeira base é os Estados Unidos, que é o coração do mercado e onde o fluxo está, mas em um segundo momento olhamos para a Europa”, afirma o executivo.
Segundo Bottino, é a partir desses dois grandes centros — EUA e Europa — que o Inter conseguirá se expandir e entrar em qualquer outro país com maior facilidade. “Estamos aqui para o grande desafio mesmo.”
Para bater a meta de um milhão de contas globais até o fim de 2022, o primeiro passo do banco é tentar converter parte dos mais de 20 milhões de clientes brasileiros que hoje já se encontram na base do Inter.
Bottino, no entanto, acredita que em algum momento essa curva vai se inverter. “Nos EUA, não queremos ser só uma plataforma de investimentos. Queremos ser uma plataforma completa, assim como já acontece no Brasil, tendo a parte de shopping, seguros e transferências também”.
O Inter conta atualmente com 100 mil contas voltadas para investimento no exterior. Esse número poderia ser ainda maior, mas outros 200 mil pedidos foram barrados porque o banco não está disposto a escalar o seu número de clientes a qualquer custo, segundo Bottino.
Todos podem se registrar para terem uma conta internacional, mas apenas aqueles avaliados com um perfil sustentável e responsável de investimentos são aprovados.
Little steps: os primeiros passos em terras americanas
Para conseguir ofertar um cardápio completo de serviços e produtos ao público, o Inter buscou investir em fintechs americanas e firmou uma parceria com a Apex, corretora responsável pela regularização burocrática dos investidores brasileiros.
O diretor da Inter Invest afirma que está satisfeito com o que foi desenvolvido até agora, mas que muitas evoluções ainda devem surgir dessa união — não só em termos de produtos, mas também de serviços.
Em linhas gerais, o grande objetivo é replicar o formato adotado no Brasil — de supermercado bancário, que dá autonomia ao investidor —, lá nos States.
Inter(nacionalização)
Apesar de o primeiro passo ter sido dado com clientes brasileiros, Bottino antecipa que o Inter prepara uma campanha institucional mais voltada às novas audiências almejadas.
Recentemente, o banco foi um dos patrocinadores da Florida Cup, um torneio amistoso que ocorre na pré-temporada dos clubes de futebol europeus e reuniu estrelas de times como Chelsea e Arsenal. “Vamos começar cada vez mais com essas ações de marketing global.
A aventura internacional da plataforma, no entanto, não encerra o processo de evolução no Brasil. O modelo digital aprimorado dos últimos anos começa a passar por mudanças significativas, e a Inter Invest entrou em um momento de transição.
“A gente vê que essa camada do “do it yourself” tem um limite de investimentos e começamos a migrar para o modelo focando naquele investidor que não tem nenhum tipo de ajuda ou auxílio”.
O banco digital segue apostando no modelo 100% digital, sem a intermediação de assessores de investimentos. Mas vai ampliar as ferramentas de educação a apoio dentro da plataforma.
New mission: unlocked
Ao longo de nossa conversa, Bottino deu uma cutucada na concorrência, ao destacar ofato de o Inter ter sido um dos primeiros bancos de varejo a anunciar e implementar uma estratégia internacional para investidores brasileiros.
Antes, a opção só estava disponível em algumas corretoras voltadas totalmente para o mercado americano, como a Avenue, recentemente adquirida pelo Itaú. Ou por meio de fundos de índices (ETFs) que replicam índices americanos e recibos de ações (BDRs) — um tipo de investimento que tende a desaparecer, segundo Bottino.
Apesar da lista de bancos e corretoras concorrentes no cenário internacional, o diretor da Inter Invest não está preocupado. Isso porque, em sua visão, a opção de investimentos no mercado americano será “trivial”, e o Inter possui uma estratégia diferenciada.
A primeira diferença citada é o caminho percorrido. Enquanto alguns concorrentes começam a explorar novos mercados por meio da América Latina, o Inter decidiu desembarcar diretamente em Nova York — uma mudança no plano estratégico divulgado anos antes pela empresa.
A conta completamente integrada é o trunfo, mas outro diferencial mencionado pelo diretor é a demanda reprimida dos investidores brasileiros que já estão na plataforma do banco aqui no país.
“Acho que o grande ponto é que nenhum grande player nasce tão consolidado, com cartão, conta global, então você vê uma fragmentação muito grande de estratégias, e a gente já nasce com tudo isso”, diz Bottino.
Ah, e um outro recado importante: para o Inter, as corretoras americanas não são os verdadeiros concorrentes — é na estratégia global que o banco enxerga sua galinha dos ovos de ouro.
“Enquanto eles estão lançando corretora, [nós] já buscamos a experiência integrada”.
A whole new world
Apesar de a conta internacional abrir um mundo com milhares de novas possibilidades, dados compilados pela Inter Invest mostram que o brasileiro ainda tende a ser mais conservador em suas escolhas na gringa.
60% das operações no exterior são no mercado de ações, enquanto 30% dos recursos são investidos em ETFs. Já ADRs e REIT (uma classe de investimento imobiliário em dólar) ficam com 5% cada.
A primeira parada tende a ser nas empresas tradicionais e nas famosas Big Techs — como Meta (FB), Microsoft (MSFT), Amazon (AMZN) e Tesla (TSLA).
Mas a grande favorita tem identidade verde, amarela e laranja: apesar da forte queda recente do banco digital em Wall Street, o papel estrangeiro mais negociado pela Inter Invest de janeiro a julho de 2022 foi a própria ação do Inter (INTR). Confira a tabela completa abaixo:
| TICKER | ATIVO | DETALHAMENTO |
| INTR | Ação | Inter |
| VT | ETF | Mercado global de ações |
| AAPL | Ação | Apple |
| FB | Ação | Meta (Facebook) |
| TSLA | Ação | Tesla |
| VOO | ETF | S&P 500 |
| AMZN | Ação | Amazon |
| IVV | ETF | S&P 500 |
| MSFT | Ação | Microsoft |
| DIS | Ação | Disney |
| GOOGL | Ação | |
| QQQ | ETF | Nasdaq-100 Index |
| VNQ | ETF | REITs |
| BABA | ADR | Alibaba |
| KO | Ação | Coca C |
| NFLX | Ação | Netflix |
| O | REIT | Propriedades comerciais |
| GOOG | Ação | |
| TMV | ETF | Tesouro americano |
| BRK.B | Ação | Berkshire |
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The book is on the table
Mudar hábitos de consumo e investimento não são tarefas que podem ser feitas com um simples passe de mágica. Muitas vezes esse é um processo que pode levar anos para ser construído.
Bottino e a Inter Invest parecem ter isso em mente e estão dispostos a construir a relação do brasileiro com o mercado internacional tijolo por tijolo. Por isso, além de uma plataforma completa, a companhia também aposta na educação financeira para a virada de chave.
Segundo o executivo, o comportamento atual da indústria de varejo ainda mostra uma correlação muito grande com a cotação do dólar — um aumento do fluxo de saques de fundos internacionais quando a moeda se desvaloriza e vice-versa, levando a um verdadeiro efeito manada. E esse não é o futuro que o Inter quer ver.
“Nossa missão é mostrar para o cliente que, independente do perfil, você precisa ter um percentual de investimentos globais, independente da parte tática. Acreditamos muito na diversificação, entendemos os desejos e objetivos do cliente. No nosso modelo mais conservador, temos pelo menos 5% de investimento global em dólar”.
A educação financeira dos novos investidores também passa por abandonar a ideia de que as únicas possibilidades de alocação são em fundos de proteção cambial e de menor volatilidade. O chefe da Inter Invest aposta que, com um trabalho educacional bem feito, o percentual de contas globais tende a ser maior.
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