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Melhora da bolsa beneficiou primeiro as blue chips; agora o movimento pode se espraiar para empresas de pequena capitalização que estejam muito baratas
No final da semana passada, a bolsa finalizou a sexta-feira entregando sua sétima alta consecutiva. A série de pregões positivos consolidou a tendência de alta para o Ibovespa, que se aproximou mais uma vez dos 120 mil pontos.
Mesmo com um pouco mais de dificuldade ontem, refletindo uma realização de lucros (árvores não crescem até o céu) e uma maior sensibilidade às commodities (novos sinais de lockdown na China prejudicam as perspectivas de crescimento, que por sua vez impactam negativamente os preços das matérias-primas), a Bolsa ainda está em patamares bastante satisfatórios, principalmente se comparada com o resto do mundo.
De fato, desde o início do ano, os ativos brasileiros, impulsionados em grande parte pela entrada de recursos estrangeiros, têm desempenhado muito bem se comparados a seus pares globais. Este movimento se deve, entre outras coisas, à atratividade de um posicionamento no Brasil neste momento.
Em outras palavras, as posições brasileiras se tornaram muito baratas ao longo do segundo semestre de 2021, diante dos riscos fiscais e políticas que se aprofundaram (ruídos institucionais e rompimento do Teto de Gastos). É muito fácil perdermos a noção de o quão baratos começamos o ano em meio a tantos ruídos.
As discussões foram ganhando contornos cada vez mais macroeconômicos, refletindo a alta dos juros, a disparada da inflação e as expectativas de crescimento arrefecido. O problema é que chega um momento em que os ativos se tornam tão baratos, que pouco importa o patamar de câmbio e juros (é uma força de expressão, dado que é claro que importam, mas apenas para destacar o quão baratos estavam os ativos).
Isso se deve ao fato de que nossa mente não é boa para pensar processos não lineares. A Bolsa fica barata por muito tempo e, depois de muita resiliência, ganha relevância novamente. Isto é, se a Bolsa for subir 40% no ano, ela não subirá gradualmente e linearmente mês a mês o mesmo percentual, mas, sim, por meio de movimentos erráticos e pouco previsíveis.
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Tal racionalização serve como uma luva para entendermos o ritmo de ganhos dos ativos brasileiros de janeiro para cá, nesta reta final do primeiro trimestre de 2021. O fato de termos antecipado o movimento de aperto monetário, o qual só se deu início mais recentemente nos mercados desenvolvidos, nos permite um posicionamento ímpar frente a nossos pares.
Foi a principal leitura que tivemos na semana passada, quando nossa autoridade monetária deu vários sinais sobre o atual patamar de juros, apesar do IPCA-15 ter encerrado a semana levemente acima do esperado pelo mercado (foi lido como notícia velha). Se o ciclo de aperto está no final, podemos ter mais previsibilidade.
O mercado financeiro adora calma e previsibilidade. Quanto mais transparentes forem os processos, melhor para os ativos. Neste sentido, saber que haverá apenas mais uma alta de 100 pontos-base na Selic, colocando-a em 12,75% ao ano, permite ao mercado trabalhar com modelos menos voláteis.
Note que a inflação, assim como foi em 2021, também será um problema em 2022. Abaixo, vemos o ritmo da inflação brasileira, que pode encerrar 2022 acima de 7%, além do limite máximo da meta. Ainda assim, com os juros no patamar atual e com desaceleração da atividade, devemos convergir para a meta até 2024.
Ou seja, o fim da alta dos juros, mesmo em um ambiente estagflacionário (sem crescimento econômico e com inflação), favorece os ativos brasileiros como um todo, inclusive a bolsa.
Lembre-se que o mercado financeiro traz a valor presente a esperança matemática de diferentes cenários. Quando você dá um sinal mais claro sobre um cenário específico, tal esperança pode ganhar bastante valor.
Guerra na Eurásia, inflação ao redor do mundo, aperto monetário nos países desenvolvidos, desaceleração do crescimento chinês e pouca atratividade dos ativos indianos, hoje já muito caros.
Neste contexto, o Brasil se destacou —- somos pacíficos e alinhados com o Ocidente (democracia), nossa inflação deve convergir para a meta até 2024, já sabemos quando vamos concluir o aperto monetário, o risco de nossa desaceleração já foi precificado e nossos ativos estão baratos.
Dessa forma, a bolsa brasileira é a candidata perfeita para receber fluxo estrangeiro.
Assim, mesmo com as eleições, o risco fiscal e a estagflação, ainda somos atraentes.
Em um ambiente em que as taxas de juros sobem, mas os países desenvolvidos ainda entregam juros reais negativos, um ambiente de juros real acima de 6% ao ano, como o brasileiro, é muito atraente — é o que chamamos de "carry trade" (dinheiro internacional que busca por esses diferenciais de juros).
A situação explica também a valorização do real em 2022. Commodities fortes e diferencial de juros competitivo, diante de riscos já bem precificados, favorecem a moeda brasileira, que estava muito descontada no final do ano passado.
Isto é, o fluxo estrangeiro nos últimos meses e o cenário de saída de growth/tech para value/commodities (rotação setorial) favoreceu o Brasil, assim como questões recentes em Rússia e China, que delimitam a oportunidade de investimento em emergentes.
Por isso, tenho defendido uma posição na Bolsa brasileira, mesmo para os mais conservadores (estes, com um percentual dedicado da carteira menor, claro). Mais arrojados podem flertar com algo como 30% da carteira, enquanto conservadores podem ficar com 10%, em posições mais estáveis.
Tudo isso, claro, feito sob o devido dimensionamento das posições, conforme seu perfil de risco, e a devida diversificação de carteira, com as respectivas proteções associadas.
Entre os nomes favoritos, ainda gosto de commodities e bancos — as matérias-primas devem continuar a desfrutar de bom momento em 2022, enquanto as instituições financeiras se beneficiam de juros mais altos; contudo, acredito que a segunda pernada possa vir das small e mid-caps (empresas de pequena e média capitalização de mercados) abandonadas em Bolsa por enquanto.
Meu entendimento é que o resto do ano possa ser muito parecido com a semana passada: muita volatilidade nos mercados desenvolvidos e alta para os ativos brasileiros. Em um primeiro momento, a alta por aqui se dá nas blue chips conhecidas e, em um segundo momento, espraia para demais nomes.
Neste sentido, além de commodities e bancos, acredito que possamos dar uma olhada nas empresas de pequena capitalização que estejam muito baratas em diferentes setores, mas em especial as cíclicas domésticas.
Vale destacar, porém, que os últimos dois anos são um ótimo lembrete para os investidores das virtudes da humildade e do reconhecimento que não conhecemos o suficiente. Nos resta analisar os possíveis cenários e seus impactos econômicos e financeiros mais prováveis.
Tal processo costuma transformar o nível de incerteza ainda mais claro.
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