Por que a ameaça de conflito entre Rússia e Ucrânia derruba as bolsas mundo afora?
Escalada de tensões entre os dois países levou EUA e Reino Unido a retirarem funcionários de embaixadas na Ucrânia; veja como uma eventual invasão russa ao país pode afetar os mercados

Os mercados internacionais derreteram nesta segunda-feira (24), depois que o governo dos Estados Unidos recomendou, ontem, que todos os cidadãos americanos na Ucrânia saiam do país imediatamente, citando o aumento da presença russa na fronteira entre os dois países.
Os EUA também ordenaram que funcionários da sua embaixada em Kiev, a capital ucraniana, deixem o país com suas famílias, devido à deterioração das condições de segurança. O Reino Unido seguiu a iniciativa americana e também começou a retirada do seu corpo diplomático da Ucrânia, o que foi anunciado nesta segunda-feira.
As iniciativas indicam a escalada das tensões entre Ucrânia e Rússia, que vem transferindo tropas e armamentos para a fronteira entre os dois países. Já são mais de 100 mil soldados russos na região.
Embora Moscou negue que tenha a intenção de invadir o vizinho, tanto os Estados Unidos como o Reino Unido já ameaçaram a Rússia com sanções em caso de conflito.
A União Europeia anunciou 1,2 bilhão de euros em ajuda financeira aos ucranianos. Já a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) anunciou hoje que está deslocando mais navios e jatos de combate para o Leste Europeu.
A Ucrânia tinha pretensões de entrar para a Otan e, como membro, uma invasão a seu território exigiria uma reação imediata da organização. Moscou se opõe ao ingresso da Ucrânia na aliança.
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[captacao]
Tombo nos mercados
O aumento das tensões na região leva a uma queda generalizada dos mercados hoje, com o crescimento da cautela em um cenário que já era de aversão a risco.
O índice pan-europeu Stoxx 600, que reúne as principais empresas do continente, fechou em baixa de 3,81%, depois de ter chegado a cair mais de 4% mais cedo.
Em Wall Street, o Dow Jones e o S&P 500 chegaram a cair mais de 3%, e o Nasdaq tombou mais de 4% no pior momento do dia. Mas após passarem o dia inteiro em baixa, os três índices viraram para alta no fim do pregão. O Dow Jones fechou com ganho de 0,30%, o S&P 500 subiu 0,29%, e o Nasdaq avançou 0,63%.
Na semana passada, as bolsas americanas e europeias já haviam registrado fortes quedas, na expectativa pela primeira reunião do Federal Reserve do ano, a ser realizada nesta quarta-feira (26).
O mercado espera que, na ocasião, o Fed indique o início da alta de juros nos EUA já na reunião de março e sinalize os próximos passos da retirada de estímulos monetários, mas teme que haja alguma surpresa, no sentido de um aperto monetário mais forte.
O clima negativo lá fora contaminou a bolsa brasileira, e o Ibovespa não conseguiu se recuperar com a virada em Nova York, fechando em baixa de 0,92%, a 107.937 pontos, depois de ter fechado acima dos 108 mil pontos na semana passada, na contramão das bolsas dos países desenvolvidos.
Mas poderia ter sido pior. Na mínima, o principal índice da B3 tombou mais de 2% e chegou a perder até mesmo os 107 mil pontos.
O índice de volatilidade VIX, apelidado de "índice do medo", registrou alta de mais de 20% pela manhã, alcançando seu maior patamar em um ano.
Os investidores fugiram dos ativos de risco e buscaram abrigo nos ativos considerados mais seguros, como o dólar, o ouro e os Treasuries, os títulos do Tesouro americano.
Com isso, o dólar à vista avançou 0,88% ante o real, a R$ 5,5032, depois de ter chegado a subir mais de 1% e ultrapassar os R$ 5,52. Os juros dos Treasuries recuaram, uma vez que a demanda pelos títulos impulsionou seus preços para cima, derrubando também os juros futuros por aqui.
Por que o mercado teme um conflito entre Ucrânia e Rússia
O maior temor dos investidores e dos governos em relação às tensões na fronteira entre os dois países é que seja desencadeada uma guerra. E ainda há muita incerteza quanto à reação dos países que fazem parte da Otan ao conflito.
A região tem grande importância para a economia europeia. Cerca de 35% do gás natural da Europa vem da Rússia, sendo que boa parte dele passa por gasodutos localizados em território ucraniano. A Rússia também é importante exportadora de petróleo, inclusive para a Europa.
Saiba mais sobre a crise energética pela qual a Europa passa, bem como as possíveis consequências do conflito entre Rússia e Ucrânia para o fornecimento de gás natural para o continente.
A região do Mar Negro também é crucial para a exportação de trigo e grãos. Quatro grandes exportadores - Ucrânia, Rússia, Cazaquistão e Romênia - comercializam esses produtos a partir de portos no Mar Negro, que podem ter suas operações interrompidas em caso de ações militares ou sanções.
A própria Ucrânia é a terceira maior exportadora de milho do planeta e quarta maior exportadora de trigo, sendo que a Rússia é a primeira.
Além da possibilidade de interrupções no fornecimento desses produtos ao restante do planeta em caso de conflito armado, sanções dos países europeus à Rússia podem resultar em retaliações. Por outro lado, se a Europa "pegar leve" com a postura russa, estará abrindo um precedente perigoso no continente.
Estamos falando, portanto, de risco de alta adicional nos preços das commodities, elevando preços de alimentos, combustíveis e energia elétrica e pesando sobre a inflação, que já está pressionada ao redor do mundo, incluindo os países desenvolvidos.
Isso num momento em que os bancos centrais já planejam aumentos nas taxas de juros para conter a inflação atual, e com atividade econômica não exatamente superaquecida nos países ricos.
Por exemplo, os Índices de Gerentes de Compras compostos (PMIs, na sigla em inglês) divulgados hoje mostram desaceleração da atividade nos Estados Unidos, no Reino Unido e na zona do euro.
Nos EUA, o indicador caiu de 57 em dezembro para 50,8 em janeiro, ainda indicando expansão da atividade (índice maior que 50), mas em desaceleração em relação ao mês anterior.
No Reino Unido e na zona do euro, os PMIs compostos caíram a 53,4 e 52,4 em janeiro, respectivamente, menores níveis em 11 meses.
Ou seja, uma pressão inflacionária maior - não relacionada à atividade econômica, mas a um conflito geopolítico - que possa levar a um aperto monetário ainda mais forte tende a machucar ainda mais os ativos de risco.
Mesmo assim, o petróleo hoje recuou mais de 2%, em razão da aversão a risco generalizada, que derruba todos os mercados, com exceção dos ativos considerados "seguros".
*Com informações da Reuters e da CNBC.
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