Cenário turbulento afeta até mesmo os IPOs da saúde, um dos setores preferidos dos investidores
Empresas com ofertas ambiciosas tiveram de reduzir suas estimativas de preços ou adiar datas para seguir com as operações

A piora da pandemia de covid-19 no Brasil e o ritmo lento de vacinação não passou ao largo das ofertas de ações das empresas de saúde. O setor era, até pouco tempo atrás, apontado como "queridinho" do mercado financeiro e grande aposta para a atual temporada de ofertas iniciais de ações (IPOs, da sigla em inglês).
Contudo, o cenário mudou: em poucos dias, companhias que tinham lançado ofertas bastante ambiciosas tiveram de reduzir estimativas de preços ou postergar suas operações, refletindo a maior percepção ao risco em relação ao País.
O setor de saúde, tradicionalmente, acaba tendo um "prêmio" de preço em relação a outros segmentos - até pelo histórico de bons resultados. A abertura de capital da Rede D'Or, em dezembro, movimentou R$ 11 bilhões - uma das maiores da história da Bolsa brasileira e com demanda muito acima da oferta.
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Embora a situação não seja como para negócios de outras áreas - um total de 18 empresas simplesmente desistiu de ir à Bolsa neste momento, incluindo marcas como Wine, Kalunga e Tok & Stok -, os ventos não são mais tão favoráveis para as empresas de saúde.
Para conseguir emplacar sua operação, na semana passada, a rede de laboratórios clínicos Diagnósticos da América (Dasa) teve de aceitar um desconto em relação ao preço desejado.
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Adiamentos e descontos dão o tom
E ela não foi a única a ceder à nova realidade da Bolsa. A fabricante de medicamentos Blau reduziu o total de ações a serem vendidas no IPO e adiou o fechamento da operação em uma semana, indicando a potenciais investidores que poderia reduzir o preço anteriormente definido como mínimo em 10%, apurou o Estadão.
Nem mesmo as redes de hospitais estão imunes a contratempos. A Mater Dei, de Belo Horizonte, considera diminuir em até 15% o valor inicialmente proposto na oferta, após pressão de investidores por descontos.
Procuradas, as duas empresas, que definem o valor de suas ofertas amanhã, não comentaram o tema, por estarem em período de silêncio.
Ainda assim, permanece longa a fila de nomes do setor, que lidera em total de pedidos de IPOs à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A Kora Saúde, com sete hospitais no Espírito Santo, dois no Tocantins e um no Mato Grosso, prevê uma arrecadação de R$ 1,7 bilhão em sua estreia na B3.
A lista ainda inclui o Care Caledônia, de Campinas, e seu projeto de levantar R$ 1,1 bilhão, a distribuidora de medicamentos e materiais CM Hospitalar, que mira em R$ 2 bilhões, a farmacêutica Athena e o laboratório Teuto. Para as próximas semanas haverá também a oferta subsequente da Hapvida, que ocorre na esteira da fusão com a NotreDame Intermédica.
"Essa questão de cancelamentos e adiamentos de IPO é normal. Costuma acontecer, mesmo no setor de saúde, que vive um cenário de crescimento. Vimos um aumento de ofertas de empresas de saúde e isso acabou dividindo as atenções dos investidores", diz o gerente de pesquisa da corretora Ativa Investimentos, Pedro Serra.
Momento inspira cautela
A exigência de descontos tem mais relação com o humor do mercado do que com o setor. "O que está acontecendo é cíclico: os investidores estão reprecificando riscos. As incertezas, os ruídos políticos, a crise sanitária e o recente aumento dos juros mudam o cálculo de quanto vale uma nova ação no mercado", explica o presidente da corretora BCG Liquidez, Ermínio Lucci.
Para Heloise Sanchez, da equipe de análise da Terra Investimentos, as desistências refletem as incertezas político-econômicas do País, que passa por redução do auxílio emergencial, maiores restrições de lockdown, Orçamento ainda não aprovado, aumento de inflação, alta da Selic, dólar desvalorizado, entre outros fatores.
“Tudo isso faz com que as empresas fiquem mais receosas, aguardando maiores desdobramentos para tomada de decisões. Com isso, um IPO que parecia bastante viável há seis meses acaba gerando dúvidas da viabilidade em meio a um cenário tão incerto”, conclui ela.
*Com informações do Estadão Conteúdo
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