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Julia Wiltgen

Julia Wiltgen

Jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com pós-graduação em Finanças Corporativas e Investment Banking pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Trabalhou com produção de reportagem na TV Globo e foi editora de finanças pessoais de Exame.com, na Editora Abril. Hoje é editora-chefe do Seu Dinheiro.

Os tombos do ano

Títulos públicos longos e Ibovespa têm perdas de dois dígitos e são os piores investimentos de 2021; confira a lista completa dos lanterninhas

Alta dos juros prejudicou boa parte dos títulos públicos, ações e fundos imobiliários, que tiveram retornos negativos no ano

Julia Wiltgen
Julia Wiltgen
30 de dezembro de 2021
17:01 - atualizado às 9:09
queda da bolsa, tudo em vermelho
Mesmo com a recuperação de dezembro, ações e fundos imobiliários ainda terminaram 2021 no vermelho. Imagem: Shutterstock

O ibope dos ativos brasileiros esteve em baixa em 2021. Quase tudo que cheirava a “aposte no Brasil” desabou neste ano. Só se deu bem quem se abraçou à taxa de juros crescente, navegou a alta da inflação ou dolarizou seu patrimônio. Na média, é claro. E considerando apenas as principais classes de ativos.

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Entre os investimentos que costumamos acompanhar aqui no Seu Dinheiro, os títulos públicos prefixados e atrelados à inflação que ainda podem ser negociados no Tesouro Direto ficaram todos entre os piores investimentos do ano, isto é, tiveram retorno negativo.

Isso, é claro, quando consideramos a variação dos preços, não as remunerações na forma de juros (vou falar mais disso adiante). Pela marcação a mercado, esses papéis se desvalorizaram com a alta dos juros futuros vista ao longo do ano, consequência direta da escalada da inflação - que exigiu um aumento da Selic - e da elevação do risco fiscal do país.

Os piores desempenhos ficaram com os papéis mais longos, que também são mais voláteis e sofrem mais com a deterioração do risco-país.

As duas primeiras posições do ranking dos piores investimentos do ano, inclusive, ficaram com representantes desse grupo: o Tesouro IPCA+ com vencimento em 2045, que se desvalorizou 25,47%, e o Tesouro Prefixado com Juros Semestrais com vencimento em 2031, que teve queda de 13,15%.

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Em seguida, em terceiro lugar, veio ela, a bolsa brasileira, que não só teve dificuldade de surfar a reabertura da economia, como apanhou com a inflação, os sinais de desaceleração econômica vindos da China, as perspectivas de aperto monetário nos Estados Unidos, a ameaça persistente do coronavírus e, é claro, a alta da taxa básica de juros.

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O Ibovespa, principal índice do nosso mercado de ações, terminou o ano em queda de 11,93%, pior resultado desde 2015, aos 104.822 pontos.

A seguir, você confere a lista completa dos piores investimentos de 2021, isto é, aqueles que tiveram retorno negativo no acumulado do ano. Todos os investimentos da tabela têm fechamento em 30 de dezembro de 2021.

Os piores investimentos de 2021

InvestimentosRentabilidade em 2021
Tesouro IPCA+ 2045-25,47%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2031-13,15%
Ibovespa-11,93%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2055-11,54%
Tesouro IPCA+ 2035-10,63%
Tesouro Prefixado 2026-9,83%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2040-6,89%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2030-2,80%
IFIX-2,29%
Tesouro IPCA+ 2026-0,39%
Fontes: B3/Broadcast e Tesouro Direto

Uma retrospectiva do ano

O ano começou com a perspectiva de reabertura e reaquecimento da atividade econômica com o avanço da vacinação contra a covid-19, elevação temporária da inflação (tanto aqui como nos Estados Unidos) e alguma alta nos juros (mas nada cavalar).

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Basta olhar para as perspectivas do mercado para os principais indicadores econômicos no início do ano para ver que era para 2021 ter sido um ano bom, inclusive para os investimentos.

Segundo o último relatório Focus de 2020, publicado no dia 31 de dezembro, o mercado esperava que 2021 terminasse com avanço de 3,40% no Produto Interno Bruto (PIB); inflação de 3,32%, abaixo do centro da meta para este ano, que é de 3,75%; dólar a R$ 5; e Selic em 3,00%. Risos.

Em vez disso, a reabertura aconteceu, mas não foi a boia de salvação que se esperava. Muito embora a estimativa para o crescimento econômico brasileiro tenha subido bastante, com o PIB surpreendendo para cima, a recuperação e os bons resultados das empresas não bastaram para vermos uma redução brusca no desemprego, um aumento na renda da população ou uma disparada nos preços das ações.

Agora, o mercado espera um crescimento de 4,51% para o PIB em 2021. Mas, segundo o IBGE, o desemprego caiu de 14,2% para 12,1% apenas - o país ainda tem quase 13 milhões de desempregados -, e o rendimento médio despencou de R$ 2.686 para R$ 2.449.

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Além disso, vimos a inflação surpreender para cima, e agora o IPCA deve terminar o ano na casa dos 10%, corroendo o poder de compra da população em um cenário de desemprego ainda alto e renda nominal mais baixa.

Inflação e alta do dólar

A pressão inflacionária vem de várias frentes e foi tudo menos temporária, tanto no Brasil quanto no exterior, e acabou motivando um movimento global de alta nos juros que só favoreceu os investimentos conservadores, em detrimento dos ativos de risco.

De saída, vimos uma continuidade da inflação de oferta que começou a se desenhar durante a pandemia em 2020, com a desorganização das cadeias produtivas em razão de lockdowns e fechamentos de fronteiras - que, por sinal, continuaram ocorrendo pontualmente ao longo de 2021. Em paralelo, tivemos uma recuperação econômica global, com aumento da demanda.

Também houve a questão da alta liquidez global - dinheiro abundante e barato. A grande quantidade de estímulos monetários por parte dos bancos centrais para combater as consequências econômicas e sanitárias da pandemia começou a cobrar o seu preço na forma de inflação (sem trocadilho).

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Com a disparada dos preços nos Estados Unidos, o banco central americano foi obrigado a admitir o caráter mais permanente da inflação e a iniciar o processo de retirada dos estímulos monetários.

Inicialmente, com a redução das compras de ativos; em seguida, com a projeção de altas para os juros, para enxugar ao menos um pouco toda essa liquidez. A previsão é de três aumentos em 2022.

O aperto monetário nos EUA, que tende a ser seguido por outros países ricos, provoca um movimento conhecido como “voo para a qualidade”, ou “fly to quality”, em inglês.

Os recursos financeiros globais começam a migrar dos ativos mais arriscados - moedas e ações de países emergentes, ações de empresas pequenas (small caps) e de empresas de tecnologia que ainda estão em estágios iniciais do seu ciclo de vida - para ativos mais “premium” - moedas e títulos de dívida de países desenvolvidos (notadamente o dólar e os títulos do Tesouro americano), além de ações e títulos de dívida de empresas mais estabelecidas.

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Assim, vimos dólar se valorizando e real se depreciando, o que pesou sobre os preços dos produtos e matérias-primas que o Brasil importa. Esse movimento do câmbio também serviu de incentivo às exportações, contribuindo para a escassez - e a consequente alta de preços no mercado interno - dos produtos que costumam ser exportados.

Também pudemos ver as consequências do “voo para a qualidade” nos mercados de ações. Enquanto as ações brasileiras sofreram, os índices das bolsas americanas bateram recordes. No acumulado do ano, o Dow Jones avançou 20%, o S&P 500 teve alta de quase 30% e o Nasdaq teve ganho de 23%.

Inflação e alta dos juros

Mas nós também tivemos problemas internos que contribuíram para a inflação e a desvalorização da moeda, além da consequente alta dos juros que “ressuscitou” a renda fixa, mas prejudicou os investimentos que constam no ranking dos piores do ano.

Por aqui, o Banco Central também deu estímulos monetários para segurar a onda durante os piores momentos da pandemia, na forma de um corte agressivo de juros até a outrora inimaginável casa dos 2%.

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Diante do repique inflacionário, porém, a autoridade monetária precisou dar um cavalo de pau nos juros, elevando-os rapidamente ao atual patamar de 9,25% ao ano, muito acima do esperado inicialmente.

Em paralelo, a preocupação com o lado fiscal se traduziu no temor de rompimento do teto de gastos pelo governo, o que eventualmente acabou se concretizando, de certa forma.

Em meio a ruídos políticos e discussões em torno de orçamento, programa de transferência de renda e aumento de salários de servidores, as reformas e privatizações - vistas como tão necessárias pelo mercado - pouco andaram.

No fim das contas, o governo acabou conseguindo driblar o teto de gastos a fim de acomodar o Auxílio Brasil, o substituto do Bolsa Família, num valor mais elevado do que sua própria equipe econômica considerava razoável.

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Apesar de as contas públicas terem chegado no fim do ano melhores que o esperado, houve uma piora geral na percepção do risco fiscal do país por parte do mercado, com essa sensação de falta de previsibilidade quando se fala em acomodar aumentos de gastos, ainda mais quando parecem ter cunho eleitoral e caráter permanente (ou quase).

E, por falar em cunho eleitoral, também contribuiu para a piora do ambiente macroeconômico a antecipação da corrida eleitoral de 2022, com a volta do ex-presidente Lula ao jogo.

Eleições presidenciais no Brasil sempre foram fator de tensão para os mercados, dada a grande incerteza que geram - e os mercados odeiam incertezas. Começar essa discussão mais cedo em nada ajudou os investimentos.

Por fim, não podemos esquecer que a crise hídrica encareceu o preço da energia elétrica, o que também contribuiu para pressionar a inflação.

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Dias difíceis para a renda variável

Os ruídos políticos, as preocupações em torno do teto de gastos, a quase paralisação das reformas e privatizações e a “antecipação” da campanha eleitoral foram alguns dos fatores internos que pesaram negativamente sobre a bolsa brasileira em 2021.

Do exterior, além do aperto monetário nos Estados Unidos, a China também andou assustando, com a divulgação de indicadores econômicos já não tão robustos, que sugerem uma certa desaceleração, o que pesou sobre os preços de algumas commodities, principais produtos de exportação brasileiros.

Mas foi a alta dos juros que pegou de jeito os ativos que constam na lista dos piores do ano. A alta repentina e surpreendente da inflação e o aumento da percepção de risco fiscal provocaram uma disparada nos juros futuros - tanto os de curto como os de longo prazo.

Isso prejudicou muito os investimentos que tipicamente se desvalorizam em cenários de alta de juros. É o caso dos títulos do Tesouro prefixados e atrelados à inflação, que se valorizam quando a perspectiva é de queda nos juros, mas também das ações - notadamente aquelas mais sensíveis aos movimentos das taxas, como as de varejo, tecnologia e construção civil - e dos fundos imobiliários.

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Vale, no entanto, uma observação: quando os preços desses ativos caem, seus retornos esperados (juros, no caso dos títulos públicos, e dividendos, no caso das ações e dos FII) sobem.

Os títulos prefixados voltaram a oferecer retornos de dois dígitos, e os indexados à inflação voltaram a pagar mais de 5% acima do IPCA, rentabilidades que justamente atraíram os investidores pessoas físicas nos momentos de preços mais baixos desses ativos neste ano.

Isso porque, se levados até o vencimento, esses títulos invariavelmente têm retorno positivo, não importando todo o sobe e desce do meio do caminho, pois pagam exatamente a remuneração acordada na hora da compra.

Já no caso dos FII, o retorno com dividendos, isentos de IR para a pessoa física, já chegam a patamares superiores aos 7% ao ano, também com proteção contra a inflação.

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