Existe vida na bolsa depois do topo, mas é preciso tomar cuidado com o “tudo ou nada”
O que os gestores vencedores têm de diferente das pessoas comuns é a capacidade de ajustar o portfólio de acordo com as condições de mercado e suas convicções

Nos últimos meses você deve ter lido algumas vezes que chegou o momento para investir em ações, ou que esta é a oportunidade perfeita para entrar no mercado acionário.
O problema é que os investidores nem esperaram a pandemia terminar e levaram a bolsa dos 60 mil pontos para mais de 120 mil pontos, em poucos meses. O Ibovespa não apenas dobrou de valor, como ainda renovou seu recorde histórico.
E agora, com a bolsa nas alturas, muita gente fica se perguntando o que fazer: será que ainda é hora para investir em ações ou será que a festa está perto de terminar?
Ninguém sabe
Antes de mais nada, é bom esclarecer que você nunca vai conseguir adivinhar se a bolsa vai marcar um topo na semana seguinte e cair seis meses sem parar. Muito menos se ela vai continuar subindo e triplicar de valor em relação aos patamares atuais.
A verdade é que ninguém consegue saber isso. Nem os grandes gestores de fundos multibilionários possuem esse poder.
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O que esses gestores vencedores no longo prazo têm de diferente das pessoas comuns é a capacidade de ajustar o portfólio de acordo com as condições de mercado e suas convicções, o que nos leva a um outro ponto importante.
Ações: tudo ou nada?
Às vezes eu tenho a impressão que as pessoas tratam a exposição às ações nos portfólios como tudo ou nada.
Ou tem muitas ações, ou não tem nada de ações.
Em um determinado momento, a bolsa está lá embaixo, as condições para investimentos não parecem tão boas e você deixa todo o dinheiro guardado na poupança.
De repente, a bolsa começa a subir e no mesmo dia que o analista de um banco de investimentos menciona que chegou o momento de comprar ações, você se desfaz de todos os investimentos conservadores e coloca tudo em ações, com o único medo de perder a alta dos mercados.
Mas não é assim que as coisas funcionam – ou, pelo menos, não é assim que elas deveriam funcionar. Se é dessa maneira que você está cuidando dos seus investimentos, você precisa mudar urgentemente.
Risco vs retorno
Enquanto a maioria dos investidores gostam de brincar de tudo ou nada – terminando a brincadeira geralmente com nada –, os grandes nomes do mercado vão ajustando as suas posições de acordo com o risco vs. retorno dos ativos.
Se a economia está em crise, mas as ações já estão muito depreciadas, os bons gestores começam a colocar um pouco mais de ações na carteira.
Não porque acordaram em uma determinada manhã com a premonição de que a bolsa iria subir no dia seguinte – mais uma vez, nem eu, nem você, nem ninguém consegue adivinhar isso.
Eles fazem isso porque as ações atingiram um nível de preço tão baixo que se tornaram bons investimentos. Apenas isso.
Mas eles não vão entrar com tudo de uma vez. Se o fundo está com 5% de exposição em ações, aumenta para 10%, depois para 15%, e assim por diante, à medida que a convicção aumenta.
Da mesma forma, quando o cenário é perfeito, as bolsas estão nas alturas e os preços das ações esticados, carregar muitas ações começa a se tornar arriscado, e os gestores começam a reduzir a quantidade de ações no portfólio.
Novamente: não porque eles acham que a bolsa vai cair no dia seguinte, mas porque o risco vs. retorno já não é mais tão convidativo.
Não é para vender tudo
Neste ponto eu volto àquela lição sobre o "tudo ou nada", lembra?
Não é porque a assimetria piora que esses gestores vendem todas as ações e colocam o dinheiro do fundo embaixo do colchão.
Eles apenas reduzem marginalmente a alocação em ações e colocam em ativos mais seguros (como Tesouro Direto, CDBs de bancos grandes, ouro, dólar).
Mas se eles estão pessimistas, porque não tiram todo o dinheiro de ações?
Porque eles não sabem de verdade se a bolsa vai cair. Mais uma vez: ninguém sabe!
O fato de ela ter dobrado em um ano não quer dizer que ela não pode subir 100%, 200% ou mais no ano seguinte. E se isso acontecer, vender todas as ações teria sido um erro gigantesco.
É por isso que a melhor estratégia é reduzir aos poucos à medida que o risco vs retorno piora. Não vender tudo, nem ficar 100% alocado.
Se o mercado continuar subindo, eles ainda conseguem ganhar dinheiro com as ações.
E se o mercado virar para baixo, eles sofrerão menos com a queda e ainda poderão utilizar parte do dinheiro recebido com a venda das ações no topo para comprar as mesmas ações depois a preços bem mais interessantes.
Ajustando o portfólio
Antes que você me pergunte, apesar do tom da coluna de hoje, eu continuo otimista com as ações.
Apesar dos valuations esticados, as empresas estão mostrando boa recuperação, os juros estão nas mínimas e, aos trancos e barrancos, o plano de vacinação começou a andar no Brasil.
No entanto, eu gostaria de lembrar que é justamente quando as bolsas estão nas máximas que os investidores comuns costumam ir para o tudo ou nada, comprando ações desesperadamente para aproveitar o "oba oba".
Se você está no grupo dos que investem conscientemente e mantêm um portfólio equilibrado, ótimo.
Mas se você é como a grande maioria e acabou de sacar o seu FGTS, todo o dinheiro da poupança, ou vendeu a casa para investir tudo o que tem em ações porque seu vizinho está ganhando rios de dinheiro com elas, lembre-se que essa é a melhor maneira de quebrar a cara no mercado financeiro.
Um portfólio com cerca de 50% a 60% de exposição em renda variável (ações e fundos imobiliários) e o restante dividido entre caixa, Tesouro, dólar e ouro nos parece uma alocação apropriada para este momento – aliás, é com base nela que a Carteira Empiricus está posicionada atualmente.
Mas é claro que isso pode mudar, à medida que os preços se alteram. Os assinantes da Carteira Empiricus recebem em primeira mão não apenas as mudanças de alocação sugeridas, como também quais ativos inserir no portfólio a cada flutuação de mercado.
Não à toa, o Felipe Miranda costuma dizer que essa é a série mais completa da casa.
Se quiser conferir, deixo aqui o convite. E lembre-se que a melhor maneira de construir riqueza no longo prazo é evitar fazer loucuras com o seu dinheiro no meio do caminho.
Um grande abraço e até a próxima!
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