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Ruy Hungria
Sextou com o Ruy
Ruy Hungria
É formado em Física e especialista em bolsa e opções na Empiricus
2020-12-30T12:15:20-03:00
Sextou com o Ruy

7 Lições de investimentos aprendidas em 2020

Eu garanto que as lições aprendidas em 2020, independente se você ganhou ou perdeu dinheiro no ano que passou, têm potencial para tornar você um investidor muito melhor

1 de janeiro de 2021
7:19 - atualizado às 12:15
Boa ideia
Imagem: Shutterstock

"A grande vantagem de ficar mais velho é que você acumula uma porção de experiências negativas e acaba virando gênio depois de tantos anos."

Antes que você ache que o ensinamento acima é meu, já adianto que não. 

A verdade é que ele nem poderia ser. Primeiro, porque estou longe de poder me considerar gênio.

Segundo, porque, apesar da lataria já um pouco maltratada, ainda estou nos meus 30 anos e não deu tempo de acumular tantas cagadas assim – sigo trabalhando nisso.

Na verdade, a frase acima foi dita por André Jakurski, um dos fundadores da JGP, no evento Investidor 3.0, realizado pela Empiricus. Ele, sim, um gênio e com algumas décadas de experiências acumuladas na bolsa para se gabar.

Nunca desperdice uma boa crise

Você pode não ter ainda as mesmas décadas de erros e experiências de Jakurski para te ajudar a tomar decisões superiores na hora de investir. 

Mas eu garanto que as lições aprendidas em 2020, independente se você ganhou ou perdeu dinheiro no ano que passou, têm potencial para tornar você um investidor muito melhor nos anos e décadas que virão pela frente.

Como disse Winston Churchill, "nunca desperdice uma boa crise".

Por isso, hoje eu decidi lembrar das lições mais valiosas aprendidas nos últimos doze meses e como podemos utilizá-las para nos tornar melhores investidores daqui em diante.

Lição #1: Nunca coloque mais dinheiro em renda variável do que suporta perder. 

Eu já falei isso centenas de vezes, mas a verdade é que enquanto a bolsa está renovando máximas a cada semana, todo mundo se esquece que ela pode cair.

No entanto, 2020 nos lembrou que as ações não só podem cair, como podem derreter 45% em menos de um mês. 

Ibovespa em 2020. Fonte: Google

Numa situação dessas, se você tiver mais dinheiro investido do que deve (ou do que aguenta), vai deixar a emoção tomar conta e vai acabar fazendo o mesmo que a maioria das pessoas: venderá suas ações no pior momento possível. 

Calma, porque piora: vai ficar traumatizado e só vai tomar coragem para voltar quando a bolsa já estiver lá no alto, perto do momento no qual os "Jakurskis" já estarão pensando seriamente em vender. Essa receita não tem a menor chance de dar certo.

Limitar seu investimento em renda variável ao quanto você está disposto a arriscar não faz bem apenas para a sua cabeça. No final, livra você de decisões precipitadas e resulta em melhores resultados para o seu bolso.

Lição #2: Investimento em ações é para o longo prazo

Essa deveria ter sido uma lição em 2020, mas depois da rápida recuperação, acabou virando uma "meia-lição". 

Mas não custa lembrar que, apesar de a bolsa ter se recuperado rapidamente depois do tombo, a trajetória poderia ter sido bem diferente.

Poderíamos ter demorado muito mais para conter a contaminação.

Poderíamos ter demorado muito mais para melhorar os protocolos de tratamento.

Poderíamos ter demorado muito mais para desenvolver vacinas eficientes.

E em qualquer um desses cenários (que eram, sim, possíveis), o resultado seria o mercado de ações ainda perto das mínimas. 

Nessa situação, seria crucial para qualquer investidor lembrar que, apesar da derrocada, boa parte do valor de uma empresa está nos lucros que ela vai proporcionar nos próximos cinco ou dez anos.

Com essa cabeça, fica muito mais fácil para qualquer um suportar ver os preços caindo por causa de um ano difícil e se manter firme para esperar a recuperação.

Lição #3: sempre tenha dinheiro em caixa

Quando a bolsa está renovando máximas, dia após dia, não existe nada mais tentador do que pegar todo o dinheiro que ainda resta no caixa, ou resgatar aquela grana investida em Tesouro Selic, para colocar tudo em ações e aumentar ainda mais os ganhos enquanto o mercado continuar subindo, não é?

Mais uma vez, muita gente esquece nesses momentos que o mercado pode voltar a cair – e muito. Se isso acontecer, é crucial ter dinheiro sobrando para aproveitar a temporada de caça às barganhas, que certamente vão aparecer. 

O movimento correto, como bem sabe Jakurski, é reduzir a alocação em ações à medida que as bolsas vão ficando muito caras. Infelizmente, os investidores comuns normalmente fazem o contrário.

Lição #4: um pouco de proteção na hora da euforia não faz mal à ninguém

Além de deixar um pouco mais de dinheiro em caixa, nunca devemos nos esquecer que momentos de euforia costumam implicar em seguros baratos.

E seguros baratos devem ser comprados, ponto final!

Quem tinha um pouco de dólares, moedas fortes e puts (opções de venda) no portfólio no início do ano, quando ninguém queria saber desses ativos e eles estavam negociando a preços de banana, acabou sofrendo bem menos do que quem estava totalmente alocado em ações. 

Isso é ruim, mas normalmente fica pior. Porque quem é pego desprevenido normalmente corre para comprar proteção depois que o desastre aconteceu. Vai pagar caro por uma proteção que a partir daquele momento será inútil. Receita perfeita para quem quer perder muito dinheiro no longo prazo. 

Seguro deve ser comprado em pequenas quantidades e quando ninguém espera que o desastre vai acontecer. 

Lição #5: diversificação geográfica

Sou brasileiro, não desisto nunca, e ainda mantenho a parcela majoritária dos meus investimentos em companhias nacionais. 

Mas 2020 nos mostrou que ter uma parte do portfólio alocada nas maiores economias globais é importante para diversificar os riscos locais. 

O real se mostrou extremamente volátil e chegamos a flertar seriamente com o abismo em termos fiscais no meio da pandemia. Neste momento, quem tinha uma parcela dos investimentos em ações globais sofreu bem menos. 

É verdade que, com 2020 encerrado, tudo parece ter dado certo. No entanto, o bom investidor não foca apenas no que aconteceu. Mas sim, no que poderia ter acontecido. E poderia ter sido bem ruim não ter nem um pouco do seu dinheiro investido em companhias com marcas fortes globais, rentáveis e de elevado crescimento.

Aliás, a série as Melhores Ações do Mundo está em promoção de fim de ano. Fica aqui o convite caso queira conferir.

Lição #6: taxas de juros importam, e muito

Se você acha que o Ibovespa retornou às máximas por causa do "coronavoucher" e da retomada em "V" da atividade, saiba que a taxa Selic talvez tenha sido ainda mais importante.

O fato de as taxas de juros estarem nas mínimas históricas – aqui e no resto do mundo – forçou os investidores a colocarem dinheiro em ações. Não existe mais a possibilidade de se ganhar 10% ao ano sem risco.

A recuperação da atividade econômica até aqui foi interessante, mas não há garantias de que continuará no ano que vem. O nível de desemprego continua elevado, e ninguém sabe o quanto a retirada do apoio emergencial vai afetar o consumo. 

O que sabemos é que, com a inflação ainda controlada, as chances são de que a Selic permaneça bem próxima dos patamares atuais. Pode não ser os 2% ao ano, como agora, mas um nível de 4% ou 5% ainda ajudaria a manter um apetite grande pelas ações das melhores companhias do país, e a bolsa em patamares apreciados. 

Lição #Howard Marks: o mercado tende a extrapolar o sentimento atual (para o bem, ou para o mal)

Guardei para o final a lição do sempre genial Howard Marks, que costuma dizer que o mercado se move em ciclos.

Apesar de acompanhar uma tendência secular de longo prazo que indica o preço justo do mercado (linha roxa), as bolsas costumam passar pouquíssimo tempo negociando nesses patamares "justos".

Na verdade, elas passam a maior parte do tempo alternando entre um estado exageradamente otimista, que logo se reverte e vai para outro exageradamente pessimista.

Isso acontece porque somos tentados a extrapolar o sentimento atual para o futuro. Se as coisas estão muito ruins agora, achamos que vão continuar ruins para sempre e vendemos as ações por preços medíocres, fazendo a bolsa cair ainda mais. 

Como você já percebeu, o mercado ficou exageradamente pessimista em março, mas a pandemia não marcou o fim da humanidade, nem das empresas, nem do mercado de capitais, e os preços voltaram a se recuperar.

Mas o que aconteceu em março agora é passado.

O importante é lembrar dessa lição quando, depois de alguns anos muito bons, os investidores começarem a achar que os lucros das empresas continuarão crescendo rápido e para sempre.

Nesse momento, o mercado estará no modo "exageradamente otimista" e será uma boa hora para diminuir a exposição em ações, aumentar a parcela de dinheiro em caixa e comprar um pouquinho de dólar e puts. 

A Carteira Empiricus será a primeira a alertar aos seus assinantes e realizar essas  mudanças quando o risco vs retorno estiver desfavorável às ações. Mas essa hora ainda não chegou. Por enquanto, 2021 nos parece mais um ano de recuperação.

Um grande abraço e um feliz 2021 para todos nós!

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