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Deixei de operar petróleo e jamais comprarei novamente papéis da Petrobras ou qualquer outra ação sobre a qual o governo tenha influência
Se você estiver achando o título deste artigo meio clichê, informo que é subtítulo do livro O Petróleo: uma história de ganância, dinheiro e poder, de Daniel Yergin (Editora Scritta, 1993).
Trata-se da tradução de The Prize: the epic quest for oil... money and power (Simon & Shuster, New York, 1990).
Durante dezenas de milhões de anos, resíduos de organismos marinhos - e de matéria orgânica terrestre levada ao mar pelos rios - foram sendo depositados em bancos de areia nas bacias sedimentares dos continentes e em suas margens continentais.
À medida em que depósitos adicionais se acumulavam na parte de cima, a pressão nas camadas inferiores se elevava. Vindo de baixo, o calor emanado do centro da Terra cozinhou lentamente aquela massa orgânica prensada, dando origem ao petróleo.
Este, uma vez formado, fluía para a superfície, por ser menos denso do que a água salgada que impregnava as fendas de argila, a areia e as rochas porosas que constituem a crosta terrestre.
Nessa trajetória para cima, parte desses resíduos fósseis tornou-se presa de armadilhas formadas por argila impermeável e por camadas rochosas impenetráveis. Na escuridão dessas crateras, aquele líquido negro e viscoso permaneceu intocado ao longo dos tempos.
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Surgiram então os homens. Em seus primórdios, eles já se deparavam com petróleo ao perfurar a superfície da Terra - em inúmeros pontos do globo terrestre, o mar havia recuado - em busca de água. Milênios mais tarde, os chineses passaram a usá-lo como combustível nos campos de sal. Mais recentemente, no século XII, também na China, equipamentos de perfuração atingiram profundidades de até mil metros.
No início da segunda metade do século XIX, um aventureiro americano de nome Edwin L. Drake, que, indevidamente, se intitulava coronel, descobriu uma dessas cavidades contendo combustível fóssil junto a um regato da Pensilvânia.
Essa descoberta marcou o início da Era do Petróleo. Embora não mais do que um pequeno lapso na História da Civilização - as reservas hoje conhecidas deverão se esgotar em um ou dois séculos - esse lapso é o nosso tempo. Nele nasceram nossos avós. Nele morrerão nossos netos.
No início, o petróleo cru só era usado para produzir querosene de iluminação, que chegara para substituir o caríssimo óleo de baleia. O refugo do produto, nada menos que a gasolina, era lançado nos rios, aproveitando-se a escuridão da noite.
Já nos primeiros anos do século 20, houve uma transição interessante. Com a invenção das lâmpadas elétricas, o querosene perdera grande parte de sua utilidade. Só que, para compensar, surgira o motor a combustão.
Resumo da ópera: o querosene deixou de ser o grande mercado, sendo substituído pela gasolina.
Os Estados Unidos eram os grandes produtores. E a Standard Oil Company, cujo sócio majoritário era John D. Rockefeller, tornou-se dona do mercado, inclusive se expandindo mundo afora. Até que, enquadrada na lei antitruste, por decisão da Suprema Corte, foi obrigada a se dividir em 34 empresas independentes umas das outras.
Enquanto isso, novas jazidas foram surgindo ao redor do mundo: Sumatra, Pérsia, Rússia, Oriente Médio, México, Venezuela…
Embora elas se encontrassem em diversos países, os direitos de exploração pertenciam a grandes empresas multinacionais, todas ocidentais. Eram conhecidas como As sete irmãs, embora essa quantidade variasse de vez em quando, graças a fusões e splits.
Mesmo pagando royalties aos países onde ficavam as jazidas, as exploradoras ficavam com a maior fatia do negócio.
Eis como descrevo uma dessas situações na página 163 de meu livro Os mercadores da noite, edição da Inversa.
“A primeira concessão para exploração de petróleo na península Arábica fora assinada, em 1933, entre o rei Ibn Saud e a Standard Oil da Califórnia. Mais tarde, essa concessão fora cedida à Aramco. Depois da Segunda Guerra, o engenheiro Jean Paul Getty, proprietário da Aminoil, conseguiu outra concessão e encontrou as maiores jazidas da Terra, também na Arábia.
Desde 1950, os lucros líquidos vinham sendo divididos, meio a meio, entre o reino e as concessionárias. Poderia ser um bom negócio para os árabes, mas não era. Na apuração das despesas de exploração, as empresas prejudicavam os sauditas.”
Em 1960, foi fundada uma entidade, a Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), à qual as Sete Irmãs deram pouca importância.
Afinal de contas, elas definiam os preços. Tanto era assim que a commodity petróleo não era negociada em nenhuma bolsa de futuros.
Isso começou a mudar em 1973. Volto a Os mercadores da noite, página 208, para explicar o que aconteceu.
“Às 2h da tarde do sábado, 6 de outubro, dia do Yom Kippur, o barulho estridente de 200 jatos egípcios se fez ouvir sobre o canal de Suez e a península do Sinai.
Em cumprimento de suas missões, os pilotos atacaram as guarnições israelenses na margem oriental do canal. No mesmo momento, a artilharia egípcia abriu fogo sobre as posições inimigas. Em sincronia com seus aliados, aviões sírios atacaram Israel pelo norte, seu ataque reforçado por 500 peças de artilharia.
Iniciara-se a Guerra do Yom Kippur, a quarta entre árabes e israelenses, cujas consequências o Ocidente amargaria por sete longos anos.”
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Não fosse a interferência americana, enviando armas, blindados e munições, por uma ponte aérea montada às pressas, com escala nos Açores, Israel teria sido derrotado, embora já dispusesse de artefatos nucleares.
Por outro lado, quando os israelenses viraram o jogo, com suas tropas se aproximando do Cairo e de Damasco, foi a vez de a União Soviética dar um basta, ameaçando entrar no conflito.
Se a guerra terminou, digamos assim, em empate, a derrota coube ao Ocidente. O protagonismo se deu por parte da então desprestigiada Opep que, a partir de então, passou a fixar o preço do barril de petróleo.
Entre o início da guerra do Yom Kippur, em outubro, e o Natal de 1973, a cotação do barril de óleo cru subiu de 3 para 22 dólares, preço pago por uma trading company japonesa por uma remessa nigeriana.
Foi desse modo que se deu o primeiro choque do petróleo, tendo como consequência a inflação mundial.
Ainda se passaram dez anos até que, em 1983, contratos futuros de petróleo começaram a ser negociados na New York Mercantile Exchange – Nymex.
Como trader, sempre me envolvi com o mercado de petróleo, no início através de ações da Petrobras negociadas na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro.
A maior tacada que dei em minha vida (em termos percentuais) foi uma compra de ações ordinárias nominativas da empresa em 1969. Paguei 30 centavos de cruzeiro pelo papel.
De acordo com os estatutos da Petrobras, só brasileiros natos podiam possuir Petro ON (PETR3). E a pessoa que vendera para mim, através do pregão da bolsa, era estrangeira.
Embora eu não tivesse nada a ver com essa irregularidade, o imbróglio levou dois anos para ser destrinchado. E, quando isso aconteceu, o papel estava a 13 cruzeiros, graças ao tremendo bull market 1969/1971. Imediatamente liquidei meu lote.
Quando os contratos futuros de crude oil WTI (Western Texas Intermediate), começaram a ser negociados na Nymex, passei a operar com eles.
Foi justamente lá que levei um trompaço que quase me alijou da profissão de trader.
Havia um acordo de cotas entre os membros da Opep. Só que três países trapaceavam. Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Iraque vendiam em excesso, por baixo do pano, no mercado spot de Roterdã.
Certo dia, o mercado subiu de 18 para 20 dólares.
Ingenuamente, não enxergando lógica naquela alta, shorteei um lote grande.
Bastou que eu vendesse a descoberto para que surgisse a notícia de que o Iraque invadira o Kuwait, dando início ao que terminaria sendo a Primeira Guerra do Golfo.
Perdi uns dez dólares por barril. Não me recordo do valor total, mas lembro bem que era todo o capital que tinha. Aliás, não foi a primeira vez nem seria a última que perdi tudo num único trade.
Como trabalhava também como broker da corretora Shearson Lehman, com escritório em Chicago, tive de refazer minhas “reservas especulativas” operando para os meus clientes e recebendo corretagens.
A partir daí, ganhei em algumas paradas e perdi em outras. Nem pensei em desistir do petróleo.
Em abril de 1995, deixei o mercado para trabalhar em tempo integral num projeto que havia começado um ano antes: escrever Os mercadores da noite. Não estava tendo tempo de conciliar as duas coisas.
Saí com uma grana razoável que me permitiria viver durante 18 meses sem ganhar um centavo sequer. Esse dinheiro estava depositado em uma agência do Citibank, em San Juan de Puerto Rico, e aplicado em Treasury Bills do Tesouro americano. Rentabilidade: menos que a inflação nos EUA.
Passaram-se os anos. Eis que a Petrobras mergulhou na maior crise de sua história, provocada pelo episódio que acabou sendo conhecido como “Petrolão”. A coisa foi tão feia que nem balanço eles puderam publicar.
Nessa ocasião, a empresa lançara obrigações de 10 anos em Wall Street rendendo 6% ao ano (em dólares, bem entendido), com juros pagos semestralmente. Só que estavam sendo negociadas com tremendo deságio.
Muitos analistas estrangeiros achavam que a Petrobras poderia quebrar. Eu tinha absoluta certeza que isso não tinha a menor chance de acontecer. Não só por causa das enormes reservas submarinas, como também porque o governo Dilma Rousseff, se fosse preciso, entraria com o aporte necessário.
Quando o deságio bateu 20%, pus tudo que tinha no papel.
Dilma foi impichada, Temer pôs Pedro Parente na Petrobras e o deságio virou ágio.
Quem opera renda fixa, sabe o que isso representa num papel de dez anos. O PU (preço unitário) dá um salto gigantesco.
Hoje em dia, todo o meu dinheiro está no Brasil, mais de 90% dele aplicado em ações de empresas privadas.
Agora - e acredito que isso valerá para sempre - jamais comprarei papéis não só da Petrobras como de qualquer outra ação sobre a qual o governo tenha influência, seja como controlador, seja como fixador de tarifas.
Já que também não opero mais lá fora, petróleo, só na hora de encher o tanque do carro.
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