Os segredos de um bom especulador: como ganhar dinheiro sem ter medo do lucro
Se para cada hora que gastar “treidando” você dedicar outras três estudando poderá até ser um ótimo especulador. Mas tem de seguir algumas regrinhas básicas

Quase sempre dão à palavra “especulador” uma conotação negativa.
Se a safra de tomate, por exemplo, é fraca e produz menos do que a demanda usual, os preços sobem. Claro! Se na CEAGESP há mais compradores do que vendedores, valores mais altos restabelecem o equilíbrio.
No verso da medalha, não raro acontece o contrário: uma supersafra. Nessas ocasiões, como não vale a pena nem pagar o transporte, os produtores jogam os tomates fora, lançando-os nos rios ou simplesmente deixando apodrecer na própria horta.
Volta e meia, a televisão mostra alguma praia brasileira paradisíaca sendo “agredida” por malvados “especuladores imobiliários”. Pra alguém que já construiu sua casa ali há muitos anos, os “invasores” estão cometendo um atentado à natureza.
Ora, se o loteamento está regularizado pela prefeitura local, e não agride o meio ambiente (é preciso que haja um estudo de impacto ambiental), por que aquilo deveria ser rotulado como especulação imobiliária?
Mas é. Principalmente pelos que chegaram primeiro.
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Para aqueles que se deslumbram com a ponta sul da Flórida, entre Miami e Key West, por exemplo, é bom lembrar que aquelas maravilhas foram construídas pelo homem sobre uma região pantanosa.
Quando, em julho de 2007, um Airbus A320 da TAM, cumprindo o voo JJ3054, entre Porto Alegre e São Paulo, ao aterrissar em Congonhas saiu da pista em alta velocidade e chocou-se contra o terminal de cargas da própria empresa, deixando 199 mortos, falou-se em construir um novo aeroporto na capital.
Dilma Rousseff, então ministra-chefe da Casa Civil do presidente Lula, declarou à TV:
“Manteremos o local do novo aeroporto em sigilo, para evitar a especulação imobiliária.” Disse-o como se nenhum integrante do governo tivesse o desplante de se beneficiar do segredo.
O próprio dicionário Aurélio, define o vocábulo “especulador” como “Indivíduo que age de má-fé, procurando tirar proveito de uma situação, de determinada coisa.”
Já o The American Heritage Dictionary, mostrando bem como nos Estados Unidos a coisa é vista de modo totalmente distinto, esclarece o vocábulo da seguinte maneira: Speculator é alguém que especula. E dá dois exemplos: 1) especulador de commodities; 2) alguém que estima os desdobramentos futuros dos eventos.
Em fevereiro de 1999, quando escrevia a coluna Bulls & Bears para a Resenha BM&F, publiquei uma crônica chamada Corre! Pega! Prende o especulador!
Em três dos parágrafos afirmei:
“Os especuladores são os agentes que dão liquidez aos mercados. Se não tivessem a oportunidade de ganhar, não existiriam. E, se não existissem, os mercados não teriam liquidez. Pior, na ausência de especuladores assumidos, os outros segmentos teriam de, mesmo contra a vontade, submeter-se às incertezas do mercado. As incertezas sob as quais transitam com desenvoltura os especuladores.
Um produtor agrícola não poderia garantir o preço de sua safra e seria obrigado a apostar. Uma empresa endividada em moeda estrangeira não teria como fazer hedge. Teria de ir para o risco. Assim como o financiador de bens de consumo, que não poderia se proteger da volatilidade das taxas de juro.
Por isso, às vezes, quando ouço: ‘Corre! Pega” Prende o especulador!’, sinto um arrepio na espinha. Como se estivesse dentro de um caldeirão, com uma cebola na boca e sentindo os prolegômenos do calor das achas de lenha em chamas.”
Vida de especulador
Bem, já escrevi quase 600 palavras e nada disse sobre “Os segredos de um bom especulador”, que é o título e o tema deste artigo.
Então vamos lá.
Durante quase 40 anos de minha vida, fui especulador profissional. Peguei inclusive a época mais fácil, quando as Bolsas eram a viva-voz e eu, operador de pregão.
Nessa função privilegiada, simplesmente “enxergava” o mercado, independentemente de estudar fundamentos ou examinar gráficos. Via quando alguém começava a executar uma ordem pesada, percebia que aquele ativo ia subir e comprava um pouco para mim.
O mesmo acontecia nas vendas.
Alguns minutos depois, eu zerava a operação, com um pequeno lucro. Só que dezenas de pequenos lucros durante o mesmo pregão podem representar uma grana preta.
No auge do bull market de ações da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, no primeiro semestre de 1971, eu ganhava uns oito mil dólares por dia, só nesse compra e vende e no vende e recompra.
Não é à toa que éramos chamados de scalpers.
Às vezes, recebo mensagens de leitores dizendo que são home day traders. Fizeram um cursinho de três dias e partiram para a operação de mini contratos de Ibovespa e de dólar.
Noventa e cinco por cento desses caras (esta minha estatística é puro chute) perdem dinheiro. Sem que o saibam, naquelas ofertas de compra e venda que veem no laptop, no tablet ou no celular, estão o Bradesco, o Itaú, o BTG e os grandes gestores.
Os segredos
É ruim ganhar desses caras. Mas não impossível.
Se para cada hora que gastar “treidando” você dedicar outras três estudando fundamentos, gráficos, analisando balanços, ponderando o noticiário, e tiver enorme aptidão para a coisa, poderá até ser um ótimo especulador. Quem sabe um novo George Soros ou Alfredo Grumser.
Mas tem de seguir algumas regrinhas básicas.
A primeira delas é fazer stops. Sempre que iniciar um novo trade, tem de partir da premissa de que possa estar errado. Se o mercado correu para o lado oposto àquele que você queria, pule fora.
Um dos traders entrevistados por Jack D. Schwager nos livros Market Wizards e The New Market Wizards (verdadeiras bíblias do mercado financeiro) revela que saiu perdendo em aproximadamente oitenta por cento dos traders nos quais entrou. Acontece, e é ele que diz, que perdeu pouco nos que perdeu e ganhou muito nos que ganhou.
Uma ótima estratégia especulativa é jamais dormir no prejuízo. Fechou o dia no lucro, se grude na posição feito um marisco no rochedo. Fechou no prejuízo, pule fora MOC (market on close – no fechamento do mercado).
Imaginem algum cara que comprou Magazine Luiza a R$ 0,53 em fevereiro de 2017. Hoje ele está com o papel cotado a R$ 26,00. Isso representa um lucro de quase 5.000% em exatamente quatro anos.
“Mas pera aí, Ivan.” um leitor poderia me contestar. “Ninguém aguentaria as oscilações do mercado nesse tempo todo. Houve a inflação e o impeachment da Dilma, a pandemia do coronavírus, a MGLU3 levou diversos tombaços. Quer dizer que o especulador ficou firme?”
Eu sei que é difícil conceber um sangue-frio como esse, principalmente na queda causada pela Covid-19. Mas se o cara estudou o desempenho da Magalu ao longo desses quatro anos, é possível que tenha mantido a posição. Afinal de contas, gastou apenas R$ 0,53 por ação.
Nesse caso específico, o da MGLU3, ele deixou de ser especulador para se tornar acionista. E talvez fique com as ações para sempre. O que não o impede de continuar especulando em outros papéis.
Das especulações que fiz ao longo de minha vida profissional, a mais bem-sucedida financeiramente foi uma compra de Petrobras ON a Cr$ 0,30 e vendida dois anos mais tarde a Cr$ 13,00.
Meu mérito não foi entrar na posição. E sim segurar o papel até a Bolsa começar a vacilar.
Só que não foi o meu trade mais arrojado. Este aconteceu em 1994, quando o mercado de café em Nova York abriu com enorme gap de alta numa segunda-feira, após uma geada devastadora ocorrida durante o fim de semana no Sul de Minas Gerais.
O fechamento da libra-peso de café na sexta-feira 8 de julho de 1994 (portanto antes da geada) foi a US$ 1,873. Na segunda, com a confirmação da destruição dos cafezais, o mercado abriu com oferta de venda só a US$ 2,255, um breakaway gap de US$ 0,382.
Pois bem, nesse novo nível não havia compradores. Mas, surpreendentemente, poucos quiseram vender. Foi quando percebi que o mercado subiria mais. Comprei 10 contratos para setembro, o que não é tão pouca coisa, na CSCE (Coffee, Sugar & Cocoa Exchange).
Não tive nem um segundo de sofrimento.
Vendi a posição dois dias mais tarde a US$ 2,74, o que me deu um lucro de pouco mais de 180 mil dólares.
Desse trade de café em Nova York, tirei uma lição que nunca mais esquecerei. Se um mercado abre com breakaway gap de alta, e quase não há vendedores, é praticamente impossível que não suba mais.
Naquela época eu já escrevia, às noites e nos fins de semana, meu primeiro livro, Os mercadores da noite.
Foram os 180 mil do café que me deram lastro para largar o mercado e me tornar escritor fulltime, com direito a fazer pesquisas na Europa e nos Estados Unidos para concluir a saga de Julius Clarence.
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Não tenha medo do lucro
Antes de terminar, gostaria de dar um conselho aos amigos leitores desta coluna mensal, conselho esse que pode parecer não ter muito sentido. Não tenham medo de ganhar. Isso. Não tenham medo de ganhar.
A maioria dos especuladores tem medo de lucro. Ou, melhor explicando, medo de devolver o lucro que estão tendo.
Sempre que isso acontecer com você, lembre-se da Magalu e de outros ativos semelhantes. Tipo Microsoft, Apple, Tesla, etc., etc.
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