Os senhores do universo: grandes tacadas e ferroadas no mercado internacional
Se o caro amigo leitor está pensando em investir fora do Brasil, dou a maior força. Mas tenha em mente que lá é a primeira divisão, seus oponentes são os melhores traders do mundo

Desde o ano de 1965, quando me mudei para os Estados Unidos para estudar Mercado de Capitais na New York University, acompanho atentamente os mercados internacionais, principalmente o americano.
Na época da NYU, eu fazia muitas operações simuladas, parte do currículo de meu curso.
Curiosamente, em simulações a gente ganha quase sempre. É como nesses sites de cassinos na internet, onde você pode jogar roleta, blackjack ou bacará gratuitamente.
Não é que a bolinha cai exatamente no número que você escolheu. Ou, no baralho, sua mão vem com Ás e figura, o que equivale a 21, pontuação máxima do jogo.
Basta depositar uma grana e jogar pra valer, que o pano verde se torna um terreno hostil, minado, agressivo, destruidor. Raspa todo seu dinheiro.
Terminado meu curso na NYU, e de volta ao Rio de Janeiro, mantive a conta nova-iorquina aberta. De vez em quando, fazia uma fezinha nos mercados de lá. Não me lembro se, nessa época, saí no lucro ou prejuízo.
Leia Também
Qualquer que tenha sido a hipótese, foi pouco dinheiro. Caso contrário, me recordaria.
A partir do final de 1977, entrei no mercado internacional para valer, a ponto de ignorar o andamento das Bolsas brasileiras.
Eu trabalhava como broker e trader. Isso me dava enorme vantagem. Pois ganhava corretagem nas operações dos meus clientes. Já iniciava o mês com no mínimo uns 10 mil dólares garantidos.
Entre porradas...
Durante todo o tempo em que especulei nos mercados internacionais, dei grandes porradas e levei não menores ferroadas.
Vou contar as principais, sem ordem cronológica e sim à medida em que elas me vêm à cabeça enquanto digito este texto.
Em termos de acerto, a maior foi sem dúvida a do bull market de soja, negociata na CboT, no segundo semestre de 1988.
O início se deu por puro acaso.
Por volta de maio ou junho daquele ano, convidado pelo presidente da Cia. Vale do Rio Doce, Wilson Nélio Brumer, fui a Londres estudar a possibilidade de conseguir um empréstimo de longo prazo para a empresa, baseado na produção futura de ouro. Essa operação é comum nos meios bancários internacionais. Chama-se gold loan.
Os estudos de prospecção mineral que levei comigo tinham sólidos fundamentos, mas o crédito foi recusado por todos os bancos que visitei.
Motivo: risco Brasil, que centralizara as operações de câmbio (eufemismo para moratória) no ano anterior.
Para minha sorte, eu comprara um bilhete aéreo Rio/Londres/Chicago/Rio. Então, da capital inglesa, parti para os Estados Unidos.
Conversando em Chicago com o meteorologista Jon Davis, da Shearson Lehman, empresa da qual eu era foreign broker, ele me falou a respeito do fenômeno La Nina, que esfria as águas do Pacífico, ao contrário do mais conhecido El Niño, que as aquece.
“Isso vai provocar uma seca aqui no Meio-Oeste. Poderemos ter um formidável bull market nos grãos”, Davis me revelou entusiasmado.
Em seguida, ele me mostrou uma série de gráficos e tabelas que fundamentavam seu raciocínio.
Senti firmeza. Ato contínuo, embarquei na canoa, não só para mim como também para dois dos meus melhores clientes, caras abonados de grana e assíduos especuladores.
Antes mesmo de voltar para o Brasil, comprei generosos lotes de soja Novembro.
Dito e feito.
Para mim, foram 100 lotes. Os outros dois levaram 500 cada um. O preço médio de tudo foi de aproximadamente US$ 8,78 por bushel.
Só que, na verdade, não custaram um centavo sequer.
Explico: a margem de garantia por contrato era menor do que o ajuste positivo do dia da compra. Isso porque acertei o fiofó da mosquita e o mercado já fechou no limite de alta.
Para encurtar a história, vendi os contratos 45 dias mais tarde, já com boa parte da lavoura americana de soja perdida, a US$ 10,99.
Não pensem que comprar a US$ 8,78 e vender a US$ 10,99 significa um lucro de 25%, o que já seria bem razoável.
Acontece que os mercados futuros são extremamente alavancados.
Quinhentos lotes de soja a US$ 8,78 representam um financeiro de quase 22 milhões de dólares. Os mesmos 500, a US$ 10,99, US$ 27.475.000,00.
Vinte e dois para vinte e sete e meio milhões, foi esse o lucro. Sem que ninguém tivesse que pôr um centavo sequer.
Já lá se vão 32 anos e a soja jamais voltou a experimentar um arranco como aquele.
Mas estou sempre de olho.
Se no bull market de 1988 dos grãos ganhei todo esse dinheiro (fora a bela gratificação que recebi dos dois clientes), a porrada que dei no café em 1994 foi a que mais me deu orgulho. Por causa de minha audácia e sangue-frio.
Naquele ano, as principais regiões cafeeiras do Sul de Minas foram atingidas por duas geadas fortíssimas. A primeira delas, nos dias 26 e 27 de junho, arruinou a safra anual.
A segunda geada foi tão catastrófica que destruiu os cafezais. Trocando em miúdos, liquidou a safra dos cinco anos seguintes, que é o tempo que leva um pé de café, após ter sido plantado, para começar a produzir.
Pois bem, eu não estava comprado na primeira geada. Muito menos na segunda, que aconteceu num fim de semana.
Só quando o mercado abriu na segunda-feira, fazendo um tremendo breakaway gap, vi que não havia vendedores expressivos. Suei para comprar 50 lotes para mim.
Exatamente como no caso da soja, não precisei pôr margem, tal o ajuste positivo que recebi no dia da compra.
Naquela época eu, que andava meio duro, ganhei 180 mil dólares. Isso me permitiria viajar para os Estados Unidos e Europa para fazer as pesquisas finais de Os mercadores da noite.
Julius Clarence, caros amigos leitores, é fruto de uma geada nos cafezais e de minha ousadia.
A história não para por aqui.
Naquele ano de 1994, à geada seguiu-se uma seca em outras regiões brasileiras produtoras de café.
Seria o caso do mercado subir ainda mais. Só que, por ocasião da estiagem, ficou andando de lado e depois começou a cair devagarinho.
Eu tinha um amigo, Edwin (Ted) Arnold (1935/2015) que costumava dizer:
“Mercado que reage mal a uma notícia boa é mercado de baixa”.
Nessa linha de raciocínio, mais do que lógica, quando o café não subiu, apesar da seca, pulei fora da posição.
Mais tarde, já como escritor, roteirista e colunista, andei dando outros beliscos. Mas nada que se comparasse, em audácia e destemor, ao da soja e do café.
...E ferroadas
“Quer dizer que você ganha sempre”, pode estar indagando, meio irritado, o leitor.
“Quem dera, meu amigo, quem dera.” Levei inúmeras tamancadas até aprender a fazer stops quando o mercado ia na direção contrária à das minhas estimativas.
Ferro mesmo tomei quando, no início da madrugada (horário do Oriente Médio) de quinta-feira, 2 de agosto de 1990, as tropas de Saddam Hussein invadiram o Kuwait.
Uma semana antes, o mercado de petróleo estava vaiado, negociado a 18 dólares o barril. Os países integrantes da OPEP haviam estabelecido um acordo de cotas.
Só que os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait e o próprio Iraque trapaceavam, produzindo além do que lhes fora estabelecido no tratado.
Como petróleo não tem carimbo, não havia como provar a artimanha.
Eis então que a cotação do petróleo WTI, negociado na Nymex, subiu dois dólares, de 18 para 20.
Foi então que caí na besteira de vender a descoberto. Por pura burrice. Pra ganhar um ou dois dólares.
Tive de fazer um stop a US$ 27,00. Ou seja, entrei para ganhar dois, no máximo, e perdi sete.
Outra bobagem foi comprar algumas commodities só porque estavam historicamente baratas. Tipo: açúcar a dois centavos, café e suco de laranja a um dólar, cacau abaixo de mil dólares a tonelada. Tudo isso em época de superprodução.
Ficava com essas posições um tempão, esperando uma notícia bullish (altista) acontecer. Enquanto isso, pagava o preço da rolagem da posição de um mês futuro para outro.
Nessas ocasiões, nunca perdia muito mas perdia sempre.
De trader, me transformara em torcedor:
“Quem sabe, tem uma seca na Costa do Marfim?”; “Quem sabe, quebra a safra de açúcar no Brasil?”; “Tomara que uma geada acabe com os laranjais da Flórida”.
Jogando na primeira divisão
Levando em conta os pros e os contras, os lances de audácia e os ataques de idiotice, consegui viver do mercado ao longo de quase toda a minha vida.
Mesmo quando me tornei escritor, vários dos meus livros, ficções e não-ficções, têm o mercado como pano de fundo.
Refiro-me a Rapina, Os mercadores da noite, Armadilha para Mkamba, Projeto Maratona, 1929, O terceiro templo e 30 lições de mercado.
Se o caro amigo leitor está pensando em investir fora do Brasil, dou a maior força.
Seu campo de possibilidades operacionais vai se multiplicar no mínimo por cem vezes.
Mas tenha em mente que lá é a primeira divisão.
Seus oponentes são os melhores traders do mundo. Os Senhores do Universo, como foram descritos por Tom Wolfe em A Fogueira das Vaidades.
Um forte abraço.
ALÉM DA BOLSA
Os fundos imobiliários cetipados vieram para ficar? Entenda por que eles estão em alta e o que você precisa saber antes de investir
25 de setembro de 2026 - 15:54SETOR DE AUTOPEÇAS
JP Morgan pisa no freio e rebaixa Frasle (FRAS3) para venda. Analistas preferem outras 3 ações que podem saltar até 69%
25 de setembro de 2026 - 13:18MAIS AQUISIÇÕES
TRXF11 enche o carrinho de novo e paga R$ 2,83 bilhões, mas FII cai na bolsa; veja o que entra no portfólio
24 de setembro de 2026 - 13:02O OUTRO LADO DA MOEDA
R$ 4,50 ou R$ 5,80? O gatilho que vai definir o preço do dólar depois das eleições
23 de setembro de 2026 - 18:33RADAR DE FIIS
Fundo imobiliário leva calote de inquilino em recuperação judicial; entenda o impacto no bolso dos cotistas
23 de setembro de 2026 - 13:01SD ENTREVISTA
Tubarões saem e varejo entra: sinal de alerta para os FIIs? LAREAL revela o que os institucionais estão vendo
23 de setembro de 2026 - 6:01AS MAIS SAUDÁVEIS
Dasa (DASA3) é compra para o UBS BB, mas banco revela outras 2 favoritas — uma delas para dividendos
22 de setembro de 2026 - 19:50EM DESACELERAÇÃO
FIIs de shoppings sob pressão: é hora de separar o joio do trigo — e o BTG Pactual já escolheu os ativos favoritos
21 de setembro de 2026 - 20:01EM ESPERA...
Nubank, BTG Pactual e Banco do Brasil: os gringos já escolheram onde investir, agora só falta o gatilho certo para apertar compra
21 de setembro de 2026 - 17:19DIRETO PELA B3
IA, Ibovespa e até farmacêuticas gringas: Itaú BBA diz como investir em 800 ações com retorno de 23% ao ano sem dor de cabeça
18 de setembro de 2026 - 19:20EM TOM DE CAUTELA
Lula turbina Bolsa Família em 15% e faz o Ibovespa perder 3 mil pontos. Por que o mercado torceu o nariz?
17 de setembro de 2026 - 13:00DEU RUIM
Ação da Marcopolo (POMO4) despenca 26% no ano e XP rebaixou para neutra; mas há 2 fatores que podem impulsionar a ação
17 de setembro de 2026 - 12:46ONDE APOSTAR NA BOLSA
Lula ou Flávio? Você não deve esperar as eleições para se posicionar nestas ações, segundo a Kinea
17 de setembro de 2026 - 9:01VISÃO DO GESTOR
Multimercados não morreram, mas o jogo mudou: XP Asset aposta em nova estratégia e até mudança nas taxas para voltar a dar retorno
17 de setembro de 2026 - 6:14FECHAMENTO DOS MERCADOS
Os 30 minutos que selaram o destino da bolsa em Nova York — e do Ibovespa — após a alta dos juros nos EUA
16 de setembro de 2026 - 17:15CONSOLIDAÇÃO DA CARTEIRA
Fundo imobiliário que rende IPCA+ 10%? Patria quer unir FIIs e criar gigante de crédito de R$ 4,5 bilhões
16 de setembro de 2026 - 13:01LATAM RETAIL SHOW 2026
FIIs são o ‘match perfeito’ para o setor de shopping centers, segundo gestores; saiba onde estão as melhores oportunidades
15 de setembro de 2026 - 21:19ESTRATÉGIA DOS ESTRANGEIROS
Os gringos estão de olho no Ibovespa, mas as eleições assustam; veja o que diz pesquisa com gestores que reúnem US$ 90 bi
15 de setembro de 2026 - 18:45RECOMENDAÇÃO DE COMPRA
Cyrela (CYRE3), Porto (PSSA3) e RD Saúde (RADL3): o que elas têm em comum e como podem saltar até 55%?
15 de setembro de 2026 - 16:40EM BUSCA DA ESTABILIDADE