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2020-08-03T07:22:16-03:00
Vinícius Pinheiro
Vinícius Pinheiro
Formado em jornalismo, com MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela FIA. Trabalhou por 18 anos nas principais redações do país, como Agência Estado/Broadcast, Gazeta Mercantil e Valor Econômico. É coautor do ensaio “Plínio Marcos, a crônica dos que não têm voz" (Boitempo) e escreveu os romances “O Roteirista” (Rocco), “Abandonado” (Geração) e "Os Jogadores" (Planeta).
Entrevista exclusiva

Após defender balanço do efeito coronavírus, presidente do Bradesco mira retorno de volta aos 20%

Bancos já provaram que são capazes de se adaptar e aproveitar as oportunidades, disse o presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Jr., em entrevista ao Seu Dinheiro

3 de agosto de 2020
6:01 - atualizado às 7:22
Octavio de Lazari, presidente do Bradesco
Octavio de Lazari, presidente do Bradesco - Imagem: Divulgação/Bradesco

A crise provocada pela pandemia do coronavírus levou o Bradesco a constituir provisões bilionárias para proteger o balanço do esperado aumento da inadimplência.

Defender o balanço neste momento único que atravessa a economia brasileira e mundial foi absolutamente necessário, me disse o presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Junior, em uma entrevista na sexta-feira.

As medidas, contudo, tiveram um efeito colateral: derrubaram o lucro e a rentabilidade sobre o patrimônio do banco para a casa dos 12%. Está longe de ser uma tragédia, mas o próprio Lazari entende que é um patamar abaixo do nível ideal. E qual o retorno que o Bradesco mira no pós-crise?

“Se a gente puder falar de níveis adequados e satisfatórios de retorno sobre o patrimônio, é óbvio que estamos falando de 20% a 22%”, afirmou.

A crise do coronavírus está longe de ser o único problema para os bancos tradicionais como o Bradesco. Nos últimos anos, eles vêm sendo desafiados pela competição das fintechs, como são conhecidas as novas empresas de tecnologia financeira.

Empresas como a XP Investimentos, Stone e PagSeguro ganharam tamanho relevante e conseguiram tirar parte dos clientes (e do dinheiro) dos bancões em serviços como investimentos e cartões.

A desconfiança dos investidores com os grandes bancos se reflete nas cotações na B3. No caso do Bradesco, que conta com quase 500 mil acionistas na bolsa, a queda é de 31% em 2020. Trata-se de um desempenho pior que o do Ibovespa — o principal índice da B3 — que cai 11% no ano.

Mas Lazari afirma que o aumento da concorrência em áreas como investimentos não preocupa e que os bancos já provaram que são capazes de se adaptar e aproveitar as oportunidades ao longo do tempo.

“Com a crise o que a gente percebeu foi um “flight to quality” [voo para a qualidade]. O Bradesco recebeu neste ano mais de R$ 83 bilhões em dinheiro novo.”

Ele defende, porém, que todos se submetam às mesmas regras, incluindo as grandes empresas de tecnologia como o Facebook, que anunciou a entrada do WhatsApp no mercado de pagamentos no Brasil.

Sobre o processo de retomada da economia, o presidente do Bradesco disse que prefere uma volta mais gradual, no formato de "V da Nike", do que uma recuperação mais acelerada e que possa acarretar em pressões inflacionárias.

Lazari defendeu ainda a agenda de princípios ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês) que ganhou força na crise e disse que a adoção desses compromissos vai além do discurso.

“O Bradesco tem 77 anos de mercado e quase 100 mil funcionários. Nós não podemos simplesmente fazer a coisa de fachada. Ou a gente faz de forma séria ou não faz” — Octavio de Lazari Jr, Bradesco

Assim como 94% dos funcionários da Cidade de Deus — onde fica a sede do Bradesco — e dos escritórios administrativos, Lazari adotou o esquema de home office nos últimos meses. Um plano para a volta dos funcionários deve ser traçado neste mês, mas ainda dependerá do avanço dos números da pandemia.

Foi inclusive do escritório de casa que o presidente do Bradesco concedeu esta entrevista ao Seu Dinheiro por videoconferência. Leia a seguir os principais trechos:

O lucro do Bradesco caiu 40% no segundo trimestre e a rentabilidade ficou em 11,9%, um patamar que o senhor classificou como do nível ideal para o banco. Qual será esse nível ideal no pós-crise na sua visão e como o banco pretende chegar lá?

A queda do retorno é um fenômeno que está acontecendo na indústria bancária no mundo inteiro. Nossos concorrentes aqui no Brasil também estão nessa situação. Se a gente olhar o que aconteceu com os bancos americanos na leva de leva de divulgação de resultados todo mundo está na mesma toada, com retornos de 4% a 7%, bem menores do que no Brasil. Mas esse é um momento único, diferente, que nenhum de nós esperava viver.

Então é absolutamente necessário que os bancos façam suas provisões, defendam seus balanços e estabeleçam musculatura suficiente para atravessar esse momento de pandemia porque não sabemos ainda qual a extensão e a dimensão do desafio que estamos enfrentando. Foi inteligente fazer essa proteção, porque certamente teremos uma inadimplência maior do que a gente vive em períodos de normalidade.

E o que esperar para a retomada?

Se a gente puder falar de níveis adequados e satisfatórios de retorno sobre o patrimônio é óbvio que estamos falando de 20% a 22%. Mas em um primeiro momento deve ficar em torno 17% 18% porque a velocidade de retomada da economia ainda é desconhecida.

É possível voltar aos retornos do pré-crise diante do aumento da concorrência no setor bancário?

A concorrência que a gente vem vivendo não é um fato novo, já vem acontecendo há bastante tempo. O setor de adquirência é um exemplo claro, com novas empresas surgindo e abrindo o capital fora do país, e mesmo assim vinha conservando retornos acima de 20% sobre o patrimônio. Mas essa é uma trajetória, não é uma fotografia, é um filme que a gente vai ter que viver.

Os bancos brasileiros em especial conseguiram ao longo do tempo uma capacidade de resiliência, de se adaptar e aproveitar as oportunidades que surgiram mantendo a rentabilidade em torno de 20%. Então acho que é um número factível, mas é lógico que ele deve descer para patamares um pouco menores em função até da taxa de juros, que a gente espera que continue menor.

As ações dos bancos caíram bastante na crise e, ao contrário de empresas de outros setores, ainda não se recuperaram…

Sempre há um ponto de interrogação, mas ao longo do tempo a gente vem mostrando a nossa capacidade de resiliência e operar nesse mercado de forma rentável. Agora, estamos vivendo uma situação peculiar, essencialmente porque um dos setores mais afetados da economia são os bancos.

Nós vamos cumprir o compromisso dos investidores e clientes que colocaram dinheiro do banco, mas não necessariamente vamos trazer todo o dinheiro que nós emprestamos, a inadimplência deve ser maior. Por isso os bancos acabam sendo mais penalizados no preço das suas ações, é um movimento natural e normal até que todos os investidores possam avaliar qual o grau de dificuldades que bancos os vão enfrentar.

O Bradesco já constituiu bilhões em provisões para se proteger dos efeitos do coronavírus. Existe o risco de essas despesas aumentarem ainda mais nos próximos balanços?

Foram R$ 8,9 bilhões em provisões complementares para o cenário adverso. Como isso foi analisado? Nós não conseguimos medir ainda com precisão qual vai ser a extensão e a dimensão da crise que a gente está vivendo. Então, olhando os cenários e a experiência pregressa, pegamos todos os problemas que a gente teve nas crises de 2008 e 2015-2016 e agravamos esses dois cenários por conta da pandemia. A gente entende que as provisões estão adequadas para aquilo que a gente consegue enxergar hoje.

Como avalia o processo de retomada da economia após a quarentena? Teremos uma recuperação em V?

O nosso economista-chefe revisou a previsão de queda do PIB de 5,9% para 4,5% neste ano. É um número ruim ainda, mas os sinais parecem ser positivos. A inflação está sob controle, as empresas estão voltando a operar e a economia começa a se aquecer. Aquela catástrofe que a gente viu, por exemplo, das compras com cartão de crédito que chegaram a cair quase 40%, hoje estão se recuperando e essa queda agora está em 8%. Eu particularmente prefiro que a recuperação seja na forma de um “V da Nike”, que a recuperação não seja muito rápida.

Por quê essa preferência por uma recuperação mais lenta?

O que me preocupa não é a recuperação, mas os efeitos dessa recuperação de forma muito rápida. Quais são eles? Começar a ter uma demanda e não ter capacidade de atender, o que pode gerar inflação. Isso é tudo o que a gente não quer agora para não ter o risco de ter que aumentar a taxa de juros, o que nesse momento não é sadio para a economia brasileira.

“Então eu prefiro uma recuperação mais gradual para que a gente consiga equilibrar oferta e demanda e não haja nenhum respingo de possibilidade de o BC adotar instrumentos de política monetária para conter um eventual aumento da inflação.”

Os grandes bancos, incluindo o Bradesco, vêm sofrendo um ataque das plataformas de investimento liderado pela XP. Mais recentemente o Itaú e a XP entraram em uma polêmica sobre o modelo de agentes autônomos. Como o Bradesco pretende se diferenciar nesse mercado?

O vácuo nesse mercado acabou sendo explorado com a redução da taxa de juros. Algumas empresas entraram e se deram bem com um modelo de consultoria diferente via agentes autônomos de investimento. Agora com a crise o que a gente percebeu foi um “flight to quality” [voo para a qualidade]. O Bradesco recebeu neste ano mais de R$ 83 bilhões em dinheiro novo que vieram de clientes de vários lugares e de clientes que já estavam conosco e trouxeram suas economias que estavam em outros lugares. Então não faz sentido para nós ter agente autônomo.

Qual a estratégia para a Ágora?

A Ágora está muito bem posicionada, cresceu muito neste ano, estamos chegando a 500 mil clientes com um volume de investimentos que cresceu bastante, então a gente vai continuar. O cliente pode acessar as agências ou canais digitais para fazer seus investimentos. Se quiser diversificar ainda mais e fazer inclusive aplicações em papéis de outras instituições pode acessar a Ágora. Então estamos com um pé nas duas canoas e vamos continuar trilhando esse mercado, porque faz sentido do ponto de vista de relacionamento de longo prazo com o cliente.

Como avalia a entrada das big techs no setor financeiro e a iniciativa do WhatsApp de atuar na área de pagamentos no Brasil?

Há dois anos, quando todo mundo estava falando das fintechs, eu disse que não tinha preocupação e que eu via as fintechs mais como parceiros do que concorrentes. O que sempre me preocupou são as big techs. O volume de pessoas que acessam essas plataformas é muito grande, e essa preocupação não é do Octavio, é uma preocupação do mundo.

Eu não tenho nenhuma preocupação que elas entrem nesse mercado, desde que respeitem integralmente as normas e as leis que são determinadas pelo governo brasileiro, porque senão você cria uma assimetria e perde o controle. E perde o controle sobre tudo: privacidade, fraude, vazamento de dados…

Então não é um problema de concorrência?

Problema de concorrência zero. Desde que todo mundo esteja embarcado nas mesmas regras para que não haja assimetria. Vou citar um exemplo sobre o open banking. A legislação diz que o fornecedor de dados tem responsabilidade conjunta com quem está recebendo informação. Se eu passo uma informação para um terceiro e esse terceiro deixa esse dado ser vazado sou corresponsável por esse problema. A regra tem que ser rígida para todo mundo, porque o risco de vazamento de informações é muito sério e pode levar a fraudes perigosas.

O Bradesco tem alguma aquisição em vista? Houve notícias sobre o interesse no C6 Bank…

O C6 é um banco que está indo bem, parece que tem uma plataforma interessante, mas não é o caso [de aquisição]. Nós temos hoje um braço de private equity e já fizemos investimentos em mais de 15 fintechs e empresas. Nós vamos continuar fazendo isso porque é um negócio interessante, e muitas das coisas que a gente aprendeu nessas fintechs nós trouxemos para dentro do banco.

Uma questão que ganhou bastante relevância na crise foi a da sustentabilidade e do ESG (sigla em inglês para ambiente, social e governança). Essas iniciativas são pra valer?

Esse assunto tem relevância grande para nós. Eu já fui nos últimos cinco anos ao fórum de Davos e a cada ano tenho visto mais e mais líderes falando sobre ESG. Mas vejo muita gente falando e pouco se fazendo. Agora com essa pandemia, parece que o planeta deu um grito: “chega, vocês estão abusando de mim”. Você está trabalhando há quantos meses de casa?

Há mais de quatro meses…

Então veja o seu nível de consumo hoje e o quanto você consumia antes da pandemia, de coisas supérfluas e que não são essenciais para você ser feliz. Pode parecer um pouco de poesia, mas não é. As pessoas começam a ter consciência disso.

Quais as iniciativas do banco nessa área?

Junto a Cebds [Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável] a gente anunciou o documento com vários CEOs do Brasil pedindo para o governo ações mais imediatas. Tem coisas que o governo precisa estar junto porque nós não temos poder de polícia, não determinamos leis. Então a gente precisa do governo do nosso lado, e esse um dos motivos pelos quais a gente foi a Brasília em uma reunião com o vice-presidente Hamilton Mourão e entregamos para ele o Plano Amazônia com 10 itens. Bradesco, Itaú e Santander, com iniciativas que a gente vai fazer, mas nós precisamos do governo do nosso lado para que a gente possa implementar. Esse é um compromisso.

Mas o que o Bradesco faz do ponto de vista prático internamente? O banco atende clientes de todos os setores, então vai começar a negar crédito?

Vai sim, já funciona assim. Nós temos um comitê de sustentabilidade formado por pessoas dessa área e regido pelo presidente do conselho do banco, [Luiz Carlos] Trabuco e eu. Empresas que tenham qualquer problema de agressão ao meio ambiente, trabalho escravo e são classificadas como risco alto, várias delas nós recusamos operação de crédito e até a abertura de conta. Já está acontecendo. E a gente vai aumentar esse trabalho. Hoje 100% da energia consumida pelo Bradesco vem de fontes renováveis. Imagine o tamanho do gasto que o Bradesco tem de energia só para funcionar as agências.

Já houve operações no Bradesco em que a empresa era boa do ponto de vista de crédito, não tinha risco de calote, mas o banco negou a operação por não cumprir o critério ESG?

Se não passar no critério ESG não adianta nem ir para o resto. O Bradesco tem 77 anos de mercado e 100 mil funcionários. Nós não podemos simplesmente fazer a coisa de fachada. Ou a gente faz de forma séria ou não faz. Não pode ser um discurso da porta da fora, tem que fazer parte da cultura e do DNA da empresa.

Comentários
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