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Recém eleito diretor-presidente da Marfrig, Miguel Gularte falou com o Seu Dinheiro sobre os desafios impostos pelo surto de coronavírus, o panorama para as exportações da companhia e as estratégias a serem adotadas daqui para frente
Em questão de semanas, o mundo virou de ponta-cabeça por causa do surto de coronavírus: países inteiros em quarentena, economias paralisadas e multidões em isolamento compulsório. É um panorama inédito e incrivelmente complexo para as pessoas, governos e empresas — e que coloca alguns setores de atividade sob os holofotes.
Hospitais e serviços de saúde, obviamente, estão na linha de frente do combate à pandemia. Há, também, o front da indústria alimentícia — por mais que a economia esteja num ritmo letárgico e grande parte da população permaneça fechada em casa, a necessidade por comida continua existindo. Trata-se de um segmento cuja demanda é bem mais resistente que a de outros ramos não-essenciais, como vestuário ou eletrônicos.
Nesse contexto, eu procurei a Marfrig para entender melhor qual a estratégia da companhia nesse momento tão crítico. Afinal, como se não bastasse a mudança radical de cenário, a empresa ainda passou por mudanças profundas no lado administrativo na semana passada.
Miguel Gularte, ex-CEO das operações do frigorífico na América do Sul, foi nomeado diretor-presidente da Marfrig na última segunda-feira (16). Mesmo em meio ao turbilhão que atinge o mundo e às mudanças no dia a dia da empresa, ele concedeu uma entrevista exclusiva ao Seu Dinheiro — e foi categórico:
"Nós temos muito clara a nossa missão, que é produzir alimentos", disse Gularte, ao ser perguntado sobre o status das operações da Marfrig em meio ao surto de coronavírus. "Assim como você não espera que uma farmácia esteja fechada ou que um hospital feche as portas, você não espera que uma fábrica de alimentos descontinue suas atividades".
Entre todas as plantas da companhia, apenas a de Tucumã (PA) será suspensa, e não por causa do coronavírus. Trata-se de uma decisão estratégica e que já era planejada desde o ano passado, considerando o volume pequeno e a baixa eficiência das instalações.
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De resto, a Marfrig segue com força total, atendendo inclusive a demanda crescente no exterior. Gularte destaca que as exportações da empresa continuam firmes, com o mercado da China dando mostras de recuperação após o forte impacto causado pelo coronavírus no começo do ano.
"Estamos preparados para qualquer cenário" — Miguel Gularte, diretor-presidente da Marfrig
Dentro do mercado brasileiro, a Marfrig possui duas frentes de atuação: há o chamado food service — ou seja, a cadeia da alimentação fora do lar — e as vendas diretas ao varejo, em mercados e lojas. E o surto de coronavírus impacta cada um desses braços de maneira diferente.
Na última quinta-feira (19), dia em que Gularte me atendeu, ele afirmou que a Marfrig já observava uma queda na demanda do food service: dada a situação de confinamento das pessoas em casa, havia uma diminuição no consumo presencial em restaurantes e lanchonetes.
E essa situação tende a se agravar daqui para frente: com a quarentena decretada em São Paulo e o fechamento de todo tipo de comércio não-essencial, as vendas presenciais do food service na região ficarão praticamente zeradas nos próximos dias — e muitos outros estados e cidades já adotaram medidas semelhantes.
No entanto, Gularte faz questão de ressaltar que, por mais que o fechamento de restaurantes e bares seja ruim, eles têm pouco peso na geração de receita da Marfrig: apenas 5% da comercialização da empresa está associada ao food service. E, em alguma escala, o executivo acredita que o aumento no delivery ajudará a compensar esse efeito.
Por outro lado, o setor varejista tem crescido em meio ao maior consumo domiciliar, de acordo com o executivo. Mas essa situação não diminui a cautela da Marfrig neste momento:
"Só estamos comprando o que já está vendido. Ou seja: a gente vende para comprar, e não compra para vender", disse Gularte, a respeito da gestão da produção em meio à crise do coronavírus.
Quanto aos cuidados sanitários em meio ao surto de coronavírus, o executivo afirma que todas as medidas estão sendo tomadas para mitigar os riscos, com planos de contingência já traçados.
Nos escritórios e polos de tecnologia de informação, o home office já vem sendo adotado; nas fábricas e plantas, todos os procedimentos recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) estão sendo colocados em prática, com procedimentos extras recomendados pelo médico sanitarista que assessora a empresa.
"Não vamos expor alguém ao risco. Não vamos fazer nada que não esteja exatamente dentro da margem de segurança que deve ser adotada nesse momento", disse Gularte, destacando que, ao menos neste momento, a Marfrig ainda não vê anormalidades em suas operações por causa do coronavírus.
A Marfrig possui operações na América do Norte, com unidades de abate e processamento nos Estados Unidos, e na América do Sul, com plantas espalhadas pelo Brasil, Argentina e Uruguai.
Ao todo, a receita líquida da companhia chegou a R$ 14,2 bilhões no quarto trimestre de 2019, uma alta de 36,1% na base anual — os Estados Unidos responderam por 61% dessa cifra; em sequência, apareceram China e Hong Kong (14%) e Brasil (10%).

Tais números mostram a importância dos mercados internacionais para a Marfrig — e, segundo Gularte, as exportações estão indo bem, inclusive para a China, que sofreu com o surto da doença já nos primeiros meses de 2020 e já começa a se estabilizar. E o dólar mais alto é um impulso adicional para a empresa.
"Quando a China colapsou por causa do coronavírus, nos voltamos para outros mercados alternativos", disse o executivo, citando um envio maior de produtos ao Oriente Médio, de modo a impedir que a crise no país asiático impactasse as operações da companhia com muita intensidade .
A partir de fevereiro, no entanto, começaram a surgir os primeiros sinais de reaquecimento na demanda da China, com uma recuperação gradual dos preços para a exportação ao país — um movimento que já foi capturado pela Marfrig, que fez "negócios a preços interessantes" na última semana, de acordo com Gularte.
Ao todo, a Marfrig possui 13 plantas aprovadas na América do Sul para vender à China, sendo sete no Brasil, quatro no Uruguai e duas na Argentina — é o frigorífico com o maior número de unidades autorizadas para comercializar diretamente aos chineses, o que dá uma vantagem competitiva no front das exportações.
O reaquecimento da demanda pela China já é perceptível para a empresa: o executivo diz que, em fevereiro, a participação da empresa nas exportações ao país asiático cresceu de 19% para 30%.
"Estamos muito bem preparados para essa etapa nova, de retomada da China" — Miguel Gularte, diretor-presidente da Marfrig
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Do ponto de vista financeiro, a Marfrig encerrou 2019 com uma dívida líquida de US$ 3,3 bilhões, representando um aumento de 28% em relação ao nível visto em setembro.
Apesar disso, a alavancagem da companhia — isto é, a relação entre o endividamento líquido e o Ebitda ajustado nos últimos 12 meses — segue em níveis relativamente comportados, em 2,74 vezes.
Em termos de liquidez, a Marfrig contava com uma posição de caixa e aplicações de US$ 2,08 bilhões ao fim do ano passado — uma cifra muito superior aos compromissos com vencimento ainda neste ano, de US$ 1,14 bilhão, e que dá tranquilidade para a empresa enfrentar eventuais turbulências neste ano, de acordo com Gularte.

Vale lembrar, ainda, que a Marfrig concluiu uma oferta subsequente de ações em dezembro, movimentando R$ 3 bilhões — desse montante, cerca de R$ 900 milhões foi para o caixa da empresa.
Mesmo com a situação financeira sob controle, Gularte ressalta que a Marfrig está atenta aos desdobramentos da crise do coronavírus, buscando se posicionar da maneira mais eficiente.
Boa parte da produção está voltada para a exportação, de modo a aproveitar as melhores condições de demanda e o dólar forte, mas sem descuidar do mercado doméstico num momento tão crítico. "É um momento difícil? É. Mas eu diria que estamos muito bem preparados em todos os aspectos".
Quanto à reorganização administrativa, Gularte explica que, no passado, a Marfrig estabeleceu uma holding para facilitar a compra e venda de outras empresas. No entanto, uma vez finalizada essa etapa — a empresa não tem novas aquisições no horizonte —, não fazia mais sentido manter essa estrutura.
Ter uma holding, afinal, implicava numa menor eficiência nos custos e processos — ao todo, as despesas associadas a esse arranjo estavam em torno de R$ 63 milhões anuais, de acordo com o executivo.
"Tirando a divisão dos Estados Unidos, nós temos uma organização semelhante à da Minerva, mas tínhamos uma estrutura, com a holding, mais pesada que a deles", diz Gularte. "É um mercado em que a competitividade de custos sempre é muito exigida".
Na bolsa, as ações ON da Marfrig (MRFG3) não conseguiram escapar da forte aversão ao risco que atingiu os mercados globais por causa do surto de coronavírus: desde o começo de 2020, os papéis acumulam baixa de 28,61%.
São perdas relevantes, mas que não apagam os ganhos contabilizados ao longo do ano passado, quando as ações da companhia dispararam mais de 82%. E, apesar da baixa vista em 2020, os ativos da Marfrig ainda vão bem melhor que o Ibovespa — o principal índice da bolsa brasileira despenca 42% neste ano.
Boa parte desse desempenho 'resiliente' se deve às perspectivas para o setor de proteína animal, conforme destaca o BTG Pactual. Em relatório, os analistas Thiago Duarte e Henrique Brustolin ponderam que, em meio às incertezas globais, o segmento é um dos poucos que consegue fornecer alguma previsibilidade, dada a sustentabilidade da demanda.
"Não só o setor se beneficia do real mais fraco, com pelo menos 50% das receitas vindo do exterior, mas também a maior parte das empresas fez um bom trabalho na redução da alavancagem e melhora de liquidez nos últimos trimestres", escrevem os analistas.
Atualmente, o BTG possui recomendação neutra para as ações da Marfrig, com preço-alvo de R$ 11,00 — um potencial de alta de 54% em relação à cotação de fechamento da última sexta-feira (20), de R$ 7,11.

Quanto às expectativas para o primeiro trimestre de 2020, Gularte não passou nenhum tipo de projeção oficial, limitando-se a dizer que, historicamente, as indústrias frigoríficas brasileiras costumam ter um início de ano mais fraco, recuperando-se nos meses seguintes.
Mas, apesar do surto global de coronavírus, ele mostra confiança no desempenho da Marfrig:
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