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O Fed se antecipou e promoveu um corte extraordinário na taxa de juros do país, de modo a blindar a economia dos efeitos do coronavírus. O movimento, contudo, gerou incerteza e colocou pressão sobre o Copom, que agora está numa encruzilhada para decidir o futuro da Selic
Cortar ou não cortar a Selic, eis a questão: o Copom tem um dilema shakespeariano adiante. Assim como Hamlet, a autoridade monetária brasileira terá que refletir profundamente sobre seus próximos passos, tendo em vista os acontecimentos que lhe foram revelados — e o tempo para a tomada de uma decisão é curto.
Não, nenhum membro do Copom foi visitado pelo fantasma do rei da Dinamarca. A visão foi muito mais intimidadora: uma movimentação surpresa do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) na manhã de terça-feira (3), promovendo um corte extraordinário de 0,5 ponto na taxa de juros do país.
Eu, pelo menos, fiquei com os cabelos em pé. Todos os dias, eu monitoro inúmeras telas e gráficos com o desempenho em tempo real dos principais mercados do mundo. E, praticamente ao mesmo tempo — pouco antes das 12h de ontem —, todos os índices deram um salto.
E não é para menos: a última vez que o Fed mexeu na taxa de juros dos EUA fora da reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, algo como o Copom de lá) foi no longínquo 2008 — ano da última grande crise financeira global.
Diante de uma situação tão insólita, a equipe do Seu Dinheiro se mobilizou para conversar com economistas e outras fontes do mercado financeiro, tentando entender as causas e consequências da movimentação do Fed. E o tema que domina a atenção é a postura que o BC adotará de agora em diante.
Na última reunião, o Copom sinalizou que o ciclo de reduções na Selic terminou nos atuais 4,25% ao ano. Mas, tendo em vista os riscos do surto de coronavírus, a economia doméstica ainda vacilante e a ação surpresa do Fed, o que era dado como certo agora já é duvidoso.
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Para os especialistas, mais cortes na Selic não seriam uma boa saída, considerando os níveis já bastante estimulativos da taxa básica de juros. Mas o mercado já se empolga com a possibilidade de mais uma redução, colocando o BC numa posição desconfortável: e agora, o que fazer?
Afinal, há mais coisas entre a política monetária e os ciclos econômicos do que pode imaginar nossa vã filosofia...
Indo aos números: o Fed não esperou pela próxima reunião do Fomc, marcada para o dia 18, e reduziu a taxa de juros do país em 0,5 ponto, para a faixa de 1% a 1,25% ao ano. A ideia é dar um estímulo extra à economia americana, antecipando-se aos eventuais impactos do coronavírus.
Num primeiro momento, o mercado reagiu euforicamente à medida: o Ibovespa e as bolsas dos EUA dispararam, em meio à percepção de que a autoridade monetária americana faria de tudo para blindar a economia do país dos efeitos da doença.
Só que essa injeção de ânimo durou pouco. Logo, uma segunda leitura começou a ganhar força nas mesas de operação: a de que uma ação tão drástica indicava que a situação do coronavírus é muito mais grave do que o imaginado.
"Criou mais desconfiança que confiança", me disse Solange Srour, economista-chefe da ARX Investimentos, destacando que a postura do presidente do Fed, Jerome Powell, em coletiva de imprensa após o corte extraordinário, contribuiu para aumentar o desconforto — ele citou, de maneira genérica, que os riscos à economia aumentaram.
Precipitado ou não, fato é que o movimento da autoridade americana aumenta a pressão sobre os demais bancos centrais do mundo, uma vez que abre espaço para um novo ciclo global de alívio monetário. Uma situação que coloca o Copom numa encruzilhada.
Para Srour, há agora uma nítida pressão para que o BC corte novamente a Selic — possivelmente, já na reunião do dia 18. No entanto, por mais que o panorama esteja dado, ela acredita que tal medida não seria benéfica.
"Afrouxar ainda mais [os juros] vai trazer consequências não-estimulativas, como a depreciação maior do câmbio", diz a economista-chefe da ARX Investimentos. "Não vejo como um movimento correto, mas o mercado já está precificando".
E, de fato, as curvas de juros de curto prazo mostram que os investidores estão apostando em mais reduções na Selic. Os DIs com vencimento em janeiro de 2021 recuaram de 3,96% na segunda-feira para 3,85% ontem, um novo piso histórico para esses contratos.
Posição semelhante é assumida por José Márcio Camargo, economista da Genial Investimentos e professor da PUC-Rio. Em entrevista à Julia Wiltgen, ele se mostrou preocupado quanto aos desdobramentos da ação tempestuosa do Fed.
"Cortar juros não resolve. Não é um problema de demanda, e sim de oferta", disse ele, mostrando-se cético quanto à eficácia da medida surpresa do BC americano. "Não vai resolver, não vai melhorar a situação e ainda cria uma incerteza no futuro".
Quanto às implicações para o Copom, Camargo também defende a manutenção dos juros no Brasil, uma vez que, no momento, o diferencial nas taxas em relação aos EUA voltou a subir — o que tende a trazer algum alívio ao mercado de câmbio e afastar o dólar das máximas.
Para ele, o BC tem sido explícito em relação à incerteza quanto à potência da política monetária e, nesse cenário, continuar reduzindo a Selic poderia não surtir efeitos práticos — ou pior: poderia gerar um surto inflacionário que forçará uma alta nos juros no futuro.
"Toda surpresa que não tenha fundamentos razoáveis acaba aumentando a incerteza"
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADECONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADEJosé Márcio Camargo, economista da Genial Investimentos e professor da PUC-Rio
Quem também mostrou-se surpreso com a postura do Fed foi Luciano Rostagno, estrategista-chefe do banco Mizuho. Embora parte do mercado já ventilasse a hipótese de um corte de juros nos EUA, o timing foi inesperado, já que a reunião oficial ocorrerá em apenas duas semanas.
Em conversa com o Felipe Saturnino, ele disse também enxergar a manutenção da Selic nos atuais 4,25% ao ano como opção mais apropriada, embora reconheça que aumentam as chances de mais um corte nos juros.
Afinal, por mais que o coronavírus represente um risco relevante no horizonte, há também a possibilidade de uma recuperação rápida das economias — e, assim como seus colegas, Rostagno também vê no real já bastante desvalorizado um entrave a mais cortes nos juros por aqui.
"Embora o cenário de inflação permaneça benigno, mesmo com o dólar a R$ 4,50, não há desancoragem de expectativas de inflação, mas começo a ver que a fraqueza relativa do real pode afetar a confiança dos investidores no país".

Pouco após o fechamento dos mercados nesta terça-feira, o Banco Central resolveu se manifestar. O posicionamento da autoridade monetária brasileira não foi tão dramático quanto o do Fed — mas foi, no mínimo, misterioso.
"À luz dos eventos recentes, o impacto sobre a economia brasileira proveniente da desaceleração global tende a dominar uma eventual deterioração nos preços de ativos financeiros", diz o BC, em nota, ressaltando que continuará avaliando o cenário nas próximas duas semanas.
Bem, a reunião do Copom ocorrerá daqui duas semanas — assim, esse vago cronograma não quer dizer muita coisa.
O Vinícius Pinheiro conversou com Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV. Ao contrário dos outros especialistas, ele não se mostrou tão surpreso com a medida do Fed.
Ainda que a decisão traga ruídos imediatos no mercado, ele considera que no médio prazo o estímulo é positivo e pode ajudar a retomar a confiança dos investidores na economia.
Aqui no Brasil, Padovani também está no time dos que acreditam na manutenção da Selic em 4,25% na reunião de março, mesmo com a pressão por novos cortes.
Para o economista, um caminho viável é a sinalização, por parte do Copom, de que há espaço para uma nova redução de 0,25 ponto na Selic mais à frente — e, eventualmente, de um movimento que derrube a taxa básica de juros para abaixo dos 4% ainda neste ano.
Silvio Campos Neto, economista e sócio da Tendências, disse em entrevista à Bruna Furlani que a próxima reunião do Copom, em 18 de março, está em aberto, já que não há como descartar a chance de o BC acompanhar o movimento externo — e a nota oficial da autoridade monetária não contribuiu para tirar a dúvida.
Na visão dele, o BC deve olhar mais para os novos dados da economia local, como o PIB, que sai nesta semana, para avaliar o nível de aquecimento da atividade doméstica e os efeitos econômicos de um novo corte de juros no curto prazo.
Resumindo: o BC está entre a cruz e a espada, dividido entre a vontade do mercado e a real necessidade de um novo corte de juros. "Ser ou não ser", a dúvida cruel de Hamlet, fala sobre a necessidade de agir e se posicionar diante dos acontecimentos — cabe ao Copom assumir o protagonismo da história.
Ou, parafraseando Carlos Drummond de Andrade, outro gigante da literatura mundial:
"E agora, Copom?"
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