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Ruy Hungria
Sextou com o Ruy
Ruy Hungria
É formado em Física e especialista em bolsa e opções na Empiricus
2020-03-19T18:26:33-03:00
Sextou com o Ruy

Momentos drásticos nos mercados exigem medidas drásticas. Será mesmo?

Em meio à crise dos mercados, todos pensam no que devem fazer. É bom reparar em como os goleiros se comportam na hora do pênalti nessas horas

20 de março de 2020
5:50 - atualizado às 18:26
Pênalti
Imagem: Shutterstock

Eu confesso que há um bom tempo não faço mais questão de assistir jogos de futebol. Esse desinteresse não é porque o meu Corinthians está numa draga danada, não.

Eu não sei explicar muito bem, mas os jogos me pareciam muito mais interessantes nos anos 90, quando os mullets eram moda, e, ao contrário de hoje, os times tinham mais craques do que pernas de pau.

Só que o desinteresse fica de lado se alguma partida vai para as disputas de pênaltis. Quando isso acontece é emoção na certa! Vou logo pegar uma cerveja gelada para curtir a aflição alheia.

Mas algo que eu nunca consegui entender muito bem é o seguinte: mesmo que várias cobranças sejam batidas no centro do gol, raramente os goleiros ficam parados. Você já reparou nisso?

De tanto ver isso se repetir, eu comecei a me perguntar por que os goleiros sempre pulam para um dos lados.

A primeira conclusão – e também a mais óbvia – é que eles fazem isso porque acham que o atacante nunca escolhe chutar no meio do gol.

Mas isso não faz muito sentido para mim, porque esse é o lugar mais fácil de acertar. Se você nunca bateu um pênalti, saiba que se o atacante não está muito confiante para arriscar um chute no cantinho, fecha o olho e dá-lhe uma paulada no meio do gol.

Uma conclusão menos óbvia, mas que faz algum sentido, é que os goleiros pulam simplesmente porque pareceriam tolos demais se ficassem parados no meio do gol.

Imagina se ele resolve esperar no centro e o atacante chuta no canto; vai parecer que ele não queria sujar o uniforme, o que certamente renderá muitas críticas dos torcedores.

Você não será tolo demais se não fizer nada

Foram incontáveis os investidores que viram nos primeiros dias de derrocada do Ibovespa a necessidade de agir rapidamente.

Alguns aproveitaram para encher a mão de ações e melhorar o preço médio. O problema é que o mercado continuou despencando.

No outro extremo, estavam aqueles dispostos a zerar toda a sua posição em ações e voltar a colocar toda a sua grana na poupança.

Será mesmo que o momento pede por uma atitude drástica dessa magnitude: tudo ou nada?

Essa necessidade de agir é conhecida como activity bias (traduzindo, seria algo como "viés de atitude") no campo das finanças comportamentais.

Diante de situações extremas, mesmo tendo a alternativa de não fazer nada, somos tentados agir: se vemos fumaça na cozinha, logo corremos para verificar se há fogo; se um louco atravessa a estrada na frente do seu carro, você instantaneamente pisa no freio.

Como você pode perceber, esse viés de atitude ajuda a nos livrar de alguns perigos cotidianos, mas costuma ser um fardo na nossa vida quando o assunto é investimentos.

Quando as nossas ações passam por situações extremas (sobem ou caem demais), nos sentimos tentados a tomar atitudes extremas com relação a elas, mesmo quando não há nenhum indício claro de que fazer alguma coisa seja a melhor solução.

Há um estudo da Fidelity que deixa bem claro como agir sob pressão é um péssimo negócio quando envolve ações. Em uma pesquisa interna para descobrir quais eram os usuários de sua corretora que obtiveram a maior rentabilidade entre 2003 e 2013, a Fidelity descobriu que os maiores retornos foram obtidos justamente pelas contas de investidores mortos ou inativos.

Seria apenas uma enorme coincidência o fato de que os que menos mexeram no portfólio terminaram com os maiores lucros?

É óbvio que o impacto do vírus na economia e na saúde será grande e continuará pesando no preço dos ativos por mais algum tempo. Mas isso não quer dizer que vender tudo seja a melhor solução, especialmente depois de a Bolsa ter caído mais 40% e várias ações de empresas de extrema qualidade voltarem a negociar a patamares de dois ou três anos atrás, quando seus lucros eram apenas uma fração do que são hoje.

Pode demorar um pouco, mas a epidemia será controlada, o lucro das empresas vai voltar a crescer, e as maiores e mais bem preparadas sairão ainda mais fortes.

Por outro lado, isso também não significa que agora seja a hora de investir pesado em renda variável, dado que o fluxo de notícias deve continuar bem negativo por algum tempo.

Com tantos prós e contras na mão e diante de um cenário extremamente volátil e incerto, você não será nem um pouco tolo se simplesmente escolher não fazer nada com as suas ações.

Pequenos ajustes

Se mudanças radicais tendem mais a atrapalhar do que ajudar no meio do furacão, esses momentos podem nos ajudar a entender se os nossos portfólios estão minimamente balanceados ou se precisam de alguns ajustes.

Por exemplo, logo no início do turbilhão, a Carteira Empiricus sugeriu aos seus assinantes aumentar a exposição ao dólar, que já sobe 15% desde então e vem se mostrando como uma boa proteção nos momentos difíceis.

Portanto, se você não tem nem 10% de dólar para ajudar a atravessar os próximos meses que ainda prometem fortes emoções, essa é a hora de um pequeno ajuste.

Um outro ajuste importante: tenha caixa (Tesouro LFT ou fundo DI) neste momento. Vendas indiscriminadas de ações como as que estamos vivenciando são péssimas para a rentabilidade no curto prazo, mas abrem oportunidades que só costumam aparecer a cada dez ou vinte anos.

Por isso, ter pelo menos 25% - 30% do portfólio em caixa para aproveitá-las quando elas surgirem será uma ótima idéia. Enquanto elas não chegam, lembre-se dos mortos-ricos da Fidelity.

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