Os segredos da bolsa: ações e fatores para ficar de olho, independente do coronavírus
O coronavírus continua dando as cartas para a bolsa, mas há outros fatores que podem mexer com o preço das ações — e que podem fazer você ganhar dinheiro, mesmo em meio à onda negativa

Vamos encarar a realidade: o coronavírus ainda permanecerá no radar dos mercados por um longo tempo. Pode ser que não tenhamos mais correções tão intensas quanto as dos últimos dias, mas o surto certamente continuará sendo acompanhado de perto, trazendo forte volatilidade às negociações. Mas isso não quer dizer que a rotina da bolsa se resume à doença.
Afinal, há muitos outros elementos que podem influenciar o mercado, dando impulso a algumas ações — ou tirando ainda mais força de determinados papéis. A política internacional, o noticiário de Brasília, a agenda econômica, a temporada de balanços... o leque é extenso.
Mas, veja bem: eu não estou dizendo para você ignorar o coronavírus. A doença ainda é o principal fator de influência para as bolsas globais no curto prazo, com o sentimento de maior aversão ao risco direcionando as negociações e inspirando cautela aos investidores.
E, ao que tudo indica, a segunda-feira (2) tende a ser mais um dia de cautela: os mercados da Ásia abriram em queda, enquanto os futuros dos índices acionários da Europa e dos EUA operavam no vermelho na noite de domingo (1), reagindo ao aumento nos casos da doença no mundo e à constatação de impactos à economia global.
A ideia, aqui, é mostrar que há outros fatores capazes de influenciar o preço dos ativos e que podem passar despercebidos, em meio ao caos gerado pela doença. E, caso você esteja atento, poderá tirar proveito da situação.
Comecemos pelo front doméstico, especificamente pelo lado da agenda econômica. Afinal, um importante dado será divulgado nos próximos dias — e que pode mexer com as ações de muitas empresas.
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Termômetro
Na próxima quarta-feira (4), será divulgado o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil no quarto trimestre de 2019 e, consequentemente, do ano fechado. Uma informação que, por mais que reflita uma situação passada, fornecerá pistas importantes a respeito do futuro.
Os mais recentes dados relativos à economia brasileira têm mostrado uma certa fraqueza da atividade doméstica. Números de inflação, taxa de desemprego, produção industrial e vendas no varejo, entre outros, indicam que a retomada ainda é lenta.
De acordo com o monitor do PIB da Fundação Getulio Vargas (FGV), a economia do país cresceu 1,2% em 2019. O levantamento, no entanto, indica estabilidade na passagem de novembro para dezembro — um sinal pouco animador a respeito das perspectivas para 2020.
Assim, tomando os resultados dessa pesquisa como referência, temos um cenário binário à frente: caso os dados oficiais do PIB fiquem abaixo das estimativas do monitor da FGV, o mercado tende a ficar mais desanimado quanto às perspectivas para a economia em 2020 — o que, consequentemente, irá reduzir a confiança quanto ao desempenho das ações das empresas na bolsa.
Mas, caso o PIB fique acima das projeções da pesquisa, é de se esperar uma mínima injeção de ânimo nos investidores, que podem receber um alento em meio à onda de notícias negativas vindas do exterior e do front local.
E quais ações podem reagir de maneira mais intensa ao noticiário do PIB? Naturalmente, os ativos de companhias mais expostas à economia local são os mais sensíveis — veja alguns exemplos abaixo:
- Varejo e consumo: Magazine Luiza ON (MGLU3), Via Varejo ON (VVAR3), Lojas Renner ON (LREN3), Lojas Americanas PN (LAME4), B2W ON (BTOW3),
- Construção e incorporação: MRV ON (MRVE3), Cyrela ON (CYRE3)
- Shoppings centers: Iguatemi ON (IGTA3), Multiplan ON (MULT3)
Afinal, uma economia aquecida é sinônimo de estímulo ao consumo — e esses setores e empresas citados acima são alguns dos que mais dependem dos ciclos econômicos domésticos.
Temporada de sucesso
Ainda no Brasil, fique atento à temporada de divulgação de resultados do quarto trimestre de 2019. Na semana passada, quase não tivemos balanços sendo divulgados por causa do Carnaval, mas, nos próximos dias, a safra de dados financeiros volta com tudo:
- Segunda-feira (2): MRV
- Terça-feira (3): BRF
- Quarta-feira (4): CSN
- Quinta-feira (5): B3, CCR, Cia Hering, Natura
- Sexta-feira (6): Hypera
Meu colega Kaype Abreu fez uma matéria com todos os detalhes a respeito dos balanços a serem divulgados nesta semana — basta clicar aqui para saber de tudo.
Por mais que o coronavírus esteja dando um viés negativo à bolsa, um balanço forte pode neutralizar esse efeito — e um conjunto de resultados fracos tende a potencializar as perdas.
Veja o caso da Ambev: a fabricante de bebidas reportou seus números trimestrais na última quinta-feira (27), em meio ao forte estresse gerado pelo surto da doença. Os números foram considerados decepcionantes pelo mercado e, como resultado, os papéis ON da companhia (ABEV3) desabaram 8,34% naquele dia — o segundo pior desempenho do Ibovespa.
Super-terça
Passando para o exterior, o cenário político dos EUA tende a dividir os holofotes com o coronavírus nesta semana, já que a terça-feira (3) será decisiva para a corrida presidencial no país.
14 estados americanos realizarão as prévias eleitorais neste dia — e é provável que os primeiros favoritos à vaga do partido Democrata para a disputa pela Casa Branca sejam conhecidos nos próximos dias.
Até o momento, o senador Bernie Sanders aparece na dianteira, tendo conquistado a maior parte dos delegados dos quatro estados que já fizeram suas prévias. Um de seus rivais na disputa, Pete Buttigieg — ex-prefeito de South Bend, Indiana — desistiu da corrida neste domingo.
E como as prévias do partido Democrata podem mexer com as ações na bolsa brasileira? Bem, tudo depende do desempenho de cada candidato. Bernie Sanders e a senadora Elizabeth Warren são vistos como mais radicais, e a eventual indicação de um dos dois é vista como um fator de risco por Wall Street.
Por outro lado, o ex-vice-presidente Joe Biden e o ex-prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, aparecem do lado mais conservador do partido Democrata — opções que, certamente, são mais bem-vistas pelo mercado financeiro.
Assim, a depender do resultado da 'super-terça', as bolsas americanas poderão ter um alento e reagir positivamente, ou entrar numa espiral ainda mais negativa — e a reação de Nova York tende a pautar a bolsa brasileira.
Economia em foco
Por fim, atenção para os números do mercado de trabalho dos EUA em fevereiro, a serem divulgados na sexta-feira (6). O 'payroll' é um dos dados mais importantes da economia americana, sendo observado de perto pelo Federal Reserve (Fed, o banco central do país).
Em linhas gerais, a economia dos EUA tem se mantido relativamente sólida, em contraste com a desaceleração vista na Ásia e na Europa. Assim, o 'payroll' representa mais um teste para o ritmo de atividade do país.
Caso o mercado de trabalho continue pujante, os investidores poderão se sentir mais à vontade para assumir riscos na bolsa, mesmo em meio à correção gerada pelo coronavírus; caso contrário, a cautela tende a prevalecer.
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