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Em sua carta mensal de março, gestora que vem se saindo bem diante da crise diz que seu modelo já via os mercados valorizados demais, o que a levou a proteger suas posições, embora muito mais cedo do que deveria
Durante o "sangrento" mês de março, quando os principais índices de ações brasileiros despencaram 30% e o dólar disparou mais de 15%, alguns fundos de ações e multimercados conseguiram "sobreviver" até que dignamente.
É claro que muito provavelmente eles não previram que o avanço do coronavírus pelo mundo se daria da forma como se deu, nem tinham condições de mensurar o estrago que causaria na economia mundial. O que os salvou foram as proteções para os dias difíceis que, nas previsões dos seus gestores, viriam mais cedo ou mais tarde.
Foi o que aconteceu com os fundos da gestora americana com escritório no Rio de Janeiro NCH Capital. Com uso de análise fundamentalista em conjunto com algoritmos - também chamados de robôs - a casa já vinha se preparando desde meados do ano passado para uma queda nos mercados, reforçando as proteções dos seus fundos.
Não que seus modelos estivessem prevendo o novo coronavírus, nada disso. Eles apenas apontavam que os mercados deviam estar sobrevalorizados, e que uma correção viria. E, na opinião do gestor James Gulbrandsen, a pandemia de coronavírus foi a forma que esses mercados encontraram para corrigir para baixo.
"Um mercado supervalorizado procura desculpas para corrigir e, nesse caso, era a ameaça plausível de uma pandemia global."
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADECONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE- James Gulbrandsen, na carta mensal de março da NCH Capital.
O NCH Maracanã FIA, fundo de ações que é o carro-chefe da casa, perdeu 6% em março. Pouco, se comparado às perdas dos principais índices. No ano, o fundo ainda subia 0,17% no fim do mês passado.
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Já o fundo de ações que pode operar comprado e vendido, o NCH Maracanã Long Short Select FIA, subiu 4,64% no mês, e teve alta de 13,34% no ano. O multimercado NCH Maracanã Long Short FIM teve ganho de 4,06% no mês e 12,54% no ano.
A história que levou os fundos da NCH a sobreviverem a tempos tão turbulentos foi contada na sua carta mensal do mês de março, publicada ontem (1º).
Nela, Gulbrandsen conta que os algoritmos da casa vinham apontando, desde que saíram os resultados das empresas do segundo semestre de 2019, que um grande declínio nos mercados ocorreria.
"Vimos sinais de alerta distantes ('distant early warning') no início de
maio, o que nos colocou em uma postura mais defensiva.
Os dados, especialmente nos Estados Unidos, foram comparáveis apenas com os momentos de crise de 2001 e 2008", diz o gestor na carta.
O software da NCH, diz a carta, tem o objetivo de identificar os ciclos fundamentais dos países, setores e empresas. "Acreditamos que, se pudermos determinar os ciclos, nossas chances de evitar crises sérias e identificar momentos virtuosos no mercado são razoavelmente altas", diz Gulbrandsen.
Com o alerta do robô, os fundos long & short foram colocados em exposição neutra (nem comprados, nem vendidos, no geral), e o fundo de ações foi protegido por meio de opções.
Durante o segundo semestre de 2019, no entanto, o mercado continuou a subir, e os fundos da NCH não se saíram muito bem, chegando a obter performances inferiores às dos seus índices de referência. "Mas os números do terceiro trimestre nos EUA foram desastrosos e isso aumentou nossa confiança de que um resultado semelhante a 2008 estava se aproximando", diz o texto.
Gulbrandsen admite, porém, o erro de timing - conforme ele mesmo diz na carta, chegar "cedo", no mercado de ações, é o mesmo que estar errado.
"Minhas manhãs e noites são agora consumidas ao voltar à história para entender como podemos melhorar a sincronização de sinais negativos fundamentais e sinais de mercado.
Porque estávamos totalmente corretos na percepção do ciclo, mas totalmente errados na leitura de mercados no terceiro e quarto trimestres de 2019. Isso é um fracasso da minha parte, em particular, e algo que estou empenhado em melhorar", diz.
Gulbrandsen conta, na carta, que por volta de 20 de janeiro já estava "extremamente preocupado" com o avanço do coronavírus na China. "Este não era um vírus comum, pois seu crescimento de casos estava a caminho de eclipsar o número total de casos de SARS em questão de dias. E estava se espalhando para outros países", diz na carta.
O gestor diz que ficou "incrédulo" que a comunidade global de investimentos estivesse ignorando algo que parecia tão óbvio quanto uma grande crise global de saúde em evolução.
Assim, ainda em janeiro, os fundos da NCH aumentaram a exposição em opções de venda (uma proteção contra as quedas das ações). "Um tiro de advertência foi disparado no final de janeiro, quando vimos os primeiros sinais de desorganização, particularmente em small caps, e adotamos mais medidas de segurança nos fundos", explica.
Olhando para frente, a carta da NCH lembra que a crise ainda não acabou e que é bem diferente das anteriores. Em 2008, era uma questão de os bancos centrais injetarem liquidez nos mercados; em 2001, durante a bolha das empresas de internet, era uma questão de os preços das ações caírem para se ajustarem aos fundamentos.
Mas agora, a resolução passa pelo fechamento quase total das economias por algumas semanas e injeção de liquidez para programas sociais, o que "reduzirá significativamente o valor de bolsas no curto prazo".
Para Gulbrandsen, apesar de os preços das ações já terem corrigido bastante para incorporar esse cenário, "a probabilidade de perdas mais relevantes é significativa". O gestor sugere que os índices americanos ainda teriam espaço para cair mais.
Muitas vezes estamos errados e podemos estar nesse caso. Mas estamos em um território completamente desconhecido, e as estimativas de crescimento parecem otimistas demais. O PIB brasileiro pode cair até 40% no segundo trimestre de 2020.
- James Gulbrandsen na carta de março da NCH Capital.
O gestor termina a análise manifestando preocupação com a postura do governo brasileiro de duvidar da gravidade da doença, e defendendo que o objetivo principal agora deveria ser evitar prolongar os danos econômicos.
"O governo deve cumprir seu papel de segurador de último recurso e inundar a economia com estímulos fiscais e monetários, particularmente aos pobres. Ajudaria se, primeiramente, reconhecesse a gravidade da situação!", diz.
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