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2020-03-12T16:22:21-03:00
Felipe Saturnino
Felipe Saturnino
Entrevista exclusiva

O que comprar na bolsa na maré baixa? BlackRock, maior gestora do mundo, está de olho em bancos e mineradoras

Gestora com US$ 7 trilhões sob supervisão está “confortável” com a situação atual das companhias brasileiras, mesmo no contexto de crise econômica

12 de março de 2020
16:22
Bancos - Itaú - Santander - Bradesco - Banco do Brasil
Imagem: Montagem Andrei Morais / Estadão Conteúdo / Shutterstock

Quem está disposto a encarar a turbulência no mercado e está em busca de ações baratas, deve colocar que papéis na carteira? Para Edward Kuczma, responsável pelo portfólio de renda variável da América Latina da BlackRock, as ações de bancos e produtoras de minério de ferro do Brasil são uma boa pedida neste momento.

A BlackRock é uma gestora com mais de US$ 7,4 trilhões em ativos sob gestão, sendo US$ 1,4 bilhão na América Latina.

"Bancos são uma área em que concentramos nossa atenção em um ambiente de risk-off."

Segundo Kuczma, esses papéis do setor financeiro da bolsa brasileira podem ser opções de qualidade, tendo em vista sua alta liquidez, o risco de queda limitado em relação ao lucro e rendimentos de dividendos atrativos.

O baixo desempenho do setor nos últimos 12 meses é justificado pelo aumento do risco de concorrência e o menor crescimento de ganhos em uma base relativa, afirmou.

No caso das mineradoras, Kuczma cita, por exemplo, a chance de sustentação dos preços do minério de ferro em razão de possíveis estímulos à economia chinesa. Realizados para impedir uma contração econômica na potência asiática, eles ajudariam a valorizar os papéis de empresas brasileiras do setor.

Edward Kuczma, gestor da BlackRock
Gestor da BlackRock, Edward Kuczma também vê o setor de utilities como atrativo em razão de potenciais privatizações

Segundo o gestor, assumindo o preço médio do minério de ferro a US$ 75 a tonelada, abaixo da média de preço deste ano, de US$ 90 a tonelada, a geração do fluxo de caixa livre dessas empresas seria "atraente", o que poderia sustentar um alto rendimento de dividendos para as mineradoras.

"Além disso, há um valuation atraente representando um desconto de 50% em relação às médias históricas e um desconto de 60% em relação aos pares australianos", diz Kuczma.

Potenciais catalisadores na forma de melhorias adicionais em iniciativas ambientais, de sustentabilidade e governança também são outro fatores que aumentariam a confiança e a segurança dos investidores nessas empresas, na visão do gestor.

Outro setor que a gestora acha atrativo é o de utilities, que inclui empresas do ramo de energia e saneamento básico, em razão da perspectiva de privatização de ativos que o compõem.

A visão do gestor é também de que as novas ofertas de ações que estavam no radar não deverão ocorrer diante do cenário de alta volatilidade dos mercados.

"Dadas as quedas recentes no Brasil, há muitas companhias para as quais eu realocaria antes de participar agressivamente em IPOs."

Os dois papéis para ter na carteira

Mas, dada a acentuada queda nos índices acionários e a incerteza sobre o quanto a fraqueza do petróleo e o coronavírus continuarão a influenciar esses preços, qual é exatamente a dica do gestor da BlackRock?

Em tempos de elevada volatilidade e estresse, o importante é focar no longo prazo, diz Kuczma. Isso significa, para ele, aderir à uma disciplinada análise de fundamentos, de alto a baixo no mercado, e aproveitar as chances que aparecem conforme o movimento das ações.

Kuczma argumenta que a estratégia ideal de um investidor precisa necessariamente ter papéis de dois tipos: defensivos e responsivos.

  • "Os defensivos são focados em companhias que se beneficiam de juro baixo ao terem uma receita estável, são pagadoras confiáveis de dividendos altos e vendem bens essenciais com demanda inelástica", diz Kuczma.
  • "Os responsivos incluem nomes com crescimento ou qualidade que tiveram desempenho abaixo da média dos pares recentemente e, como resultado, começaram a apresentar valuations animadores."

O horizonte da BlackRock

A BlackRock projeta um cenário de longo prazo para o mercado acionário brasileiro baseado em três pilares:

  1. recuperação econômica gradual,
  2. juros baixos,
  3. e reformas estruturais.

No curto prazo, no entanto, os sinais de arrefecimento da atividade no primeiro trimestre do ano e a desaceleração global levaram a BlackRock a cortar a expectativas para crescimento do PIB brasileiro de 2% para 1,5%.

A crise recente que se alastrou pelos mercados financeiros, aliando coronavírus e petróleo, também não tira o sono da BlackRock quando se trata da solvência de empresas brasileiras.

A gestora se diz "confortável" com a situação operacional atual das companhias. "Estão menos alavancadas do que em crises passadas, com menor exposição a dívida em dólar", afirmou Kuczma.

Enquanto isso, a estabilização no número casos de coronavírus globalmente deverá acalmar os mercados acionário e cambial, disse.

Uma das alternativas para mitigar os efeitos da epidemia do vírus da economia é a manutenção dos juros baixos pelo Banco Central. Atualmente a taxa básica de juros, a Selic, está na mínima histórica, em 4,25% ao ano.

"Continuamos otimistas sobre o progresso da agenda de reformas", diz o gestor. Ele espera avanço nas reformas administrativa e tributária, embora as tensões crescentes entre o Executivo e o Legislativo levantem temores sobre a probabilidade de desfecho positivo no curto prazo.

Se a agenda de reformas voltar ao centro do palco, diz ele, os mercados locais, em média, poderão ter desempenho superior ao de pares emergentes, de acordo com Kuczma.

De outro lado, se uma crise econômica se arrastar por mais tempo, o humor no Congresso pode se voltar em direção a maiores gastos, o que aumentaria as restrições fiscais atuais do governo.

Na quarta-feira, o Legislativo aprovou um limite de renda maior para a concessão do Benefício de Prestação Continuada a idosos e pessoas com deficiências cuja renda familiar per capita seja inferior a R$ 522,50 — equivalente a meio salário mínimo. A medida tem impacto de R$ 20 bilhões por ano.

Bye, bye, Brasil

Nos últimos tempos, o peso do investidor estrangeiro no mercado financeiro brasileiro se reduziu.

Segundo Kuczma, um real mais fraco pode não importar tanto para investidores domésticos, mas para investidores estrangeiros o efeito é grande, já que o que importa para eles são os retornos dos investimentos medidos em dólar.

"Enquanto os estímulos monetários forem usados para promover o crescimento da economia, o real ficará sob pressão", diz o responsável pelo portfólio latino-americano de renda variável da BlackRock.

No pico recente do mercado acionário brasileiro, valor de mercado das empresas insustentavelmente altos em certos setores permitiram um menor risco-retorno e os estrangeiros se aproveitaram para vender os papéis que detinham, disse Kuczma.

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