O caso contra o dólar: o que pensam os fundos que apostam na queda da moeda
A aposta é que o dólar perca valor contra as moedas de países desenvolvidos, como o euro e o iene. O real brasileiro também deve ganhar força contra a moeda norte-americana, mas não agora

A crise do coronavírus deve contribuir para fechar um ciclo que já dura mais de uma década: o do dólar forte. Ganha força no mercado (sem trocadilho) a tese de que a moeda norte-americana tende a se desvalorizar perante às outras divisas após o longo período em alta.
Essa já era uma tendência esperada, mas foi reforçada com a crise do coronavírus, que levou a uma impressão desmedida de dinheiro pelo Fed — o Banco Central dos Estados Unidos — para conter os efeitos das medidas de isolamento social na economia.
O movimento inclusive já começou. O Dollar Index (DXY), índice que compara o dólar contra uma cesta de moedas de países desenvolvidos, como o euro, a libra e o iene japonês, acumula uma queda de mais de 3% em julho e atingiu as mínimas no ano.
A moeda norte-americana também perdeu espaço recentemente contra as divisas de países emergentes como o Brasil. Mas calma: não é hora de sair vendendo os dólares que você usa como proteção contra viradas bruscas no mercado.
Cemitério de gestor
Eu conversei com gestores de fundos multimercados brasileiros, mas com atuação global, que estão vendidos do dólar para entender por que apostar contra a moeda agora.
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A expectativa de que o dólar deve perder força não é nova. Historicamente, o comportamento da moeda norte-americana se dá em ciclos de alta e baixa.
O atual ciclo de valorização já é um dos mais longos e teve início durante a crise financeira de 2008. Mas o dólar só ganhou superpoderes mesmo a partir de 2014, em consequência da retirada dos estímulos monetários que o Fed — O Banco Central norte-americano — concedeu na crise.
Desde então, quem tentou apostar contra a divisa do país de Donald Trump só perdeu dinheiro.
“Estamos vendidos em dólar, mas humildemente reconhecemos que ir contra a moeda costuma ser cemitério de trader e gestor”, me disse Luiz Fabiano Gomes Godoi, sócio e diretor de investimentos da Kairós Capital.
Para evitar se juntar à sepultura dos gestores, Godoi afirmou que a posição contra o dólar é mais prudente e concentrada na compra de moedas de outros países desenvolvidos. “Evitamos moedas de emergentes pela questão da volatilidade.”
A crise do coronavírus e suas consequências devem decretar o fim do processo de alta do dólar, segundo Sérgio Zanini, sócio e gestor da Galápagos Capital. “Normalmente os ciclos da moeda culminam em uma crise.”
As novas medidas de estímulo adotadas pelo Fed para conter os efeitos da pandemia do coronavírus na economia — incluindo a injeção sem precedentes de recursos — devem contribuir para enfraquecer o dólar.
“Todos os países estão gastando dinheiro, mas o Fed gastou muito mais do que qualquer outro”, disse Zanini.
A postura mais protecionista adotada pelo governo de Donald Trump também deve ter um efeito negativo para a moeda, na visão do gestor. É por isso que, para ele, as eleições norte-americanas são o evento mais importante para o mercado agora — mais até do que o coronavírus.
Assim como a Kairós, a Galápagos concentra as apostas compradas em moedas como o euro, franco suíço e iene contra o dólar. Outro destaque na carteira de moedas da gestora é a coroa norueguesa.
A posição é baseada na atuação do BC do país nórdico, que vem vendendo dólares e comprando a própria moeda para financiar os programas de expansão fiscal.
[captacao]
Real e bitcoin
O sócio da Galápagos avalia, porém, que em uma segunda fase as moedas dos países emergentes também devem ganhar terreno contra o dólar. “Mas ainda não estamos nessa fase”, disse Zanini, que prefere ter posições em ações brasileiras do que no real, que neste ano leva uma verdadeira surra do dólar, com uma queda de quase 30% no ano.
Para o gestor, uma trajetória mais pessimista do dólar tende a favorecer também o ouro. Aliás, o metal precioso já acumula alta de 25% contra o dólar em 2020. E quem estiver ainda mais pessimista pode buscar refúgio inclusive em bitcoin.
Outro gestor com quem eu conversei me disse que, do ponto de vista de fundamentos, o real brasileiro está barato e vê o chamado câmbio de equilíbrio ao redor de R$ 4,80. Mas diante da altíssima volatilidade da moeda em meio à crise ele não aconselha assumir posições vendidas em dólar contra o real agora.
Eu também entendo que, do ponto de vista do seu portfólio pessoal, manter uma parcela de dólares continua importante neste momento. Não para ganhar dinheiro, mas como proteção, já que a moeda norte-americana é a primeira a reagir em momentos de piora nos mercados.
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