A cautela pesou: Ibovespa acompanha o exterior e cai mais de 1%; dólar sobe pelo terceiro dia
Dados fracos da economia americana, queda do petróleo, incerteza no cenário político local: tudo conspirou para o Ibovespa fechar em queda e o dólar à vista subir a R$ 5,24

No início da tarde, o Ibovespa deu um sinal de que poderia ir contra tudo e todos nesta quarta-feira (15): apesar do tom negativo visto nas bolsas globais e das preocupações no cenário doméstico, o índice chegou a colocar um pé no campo positivo — na máxima, subiu 0,15%, aos 80.034,78 pontos.
No entanto, a maré se mostrou forte demais: o Ibovespa não conseguiu se sustentar contra a corrente e, em pouco tempo, voltou ao vermelho — de onde não mais saiu. Ao fim do dia, marcava 78.831,46 pontos, em baixa de 1,36%.
Nos Estados Unidos, o Dow Jones (-1,86%), o S&P 500 (-2,20%) e o Nasdaq (-1,44%) também recuaram, fazendo coro a uma sessão majoritariamente negativa nas bolsas globais: as principais praças da Europa e da Ásia já tinham encerrado o dia com baixas firmes.
- Eu gravei um vídeo para explicar melhor a dinâmica dos mercados nesta quarta-feira. Veja abaixo:
O mercado de câmbio também seguiu a mesma toada: o dólar à vista passou o dia sob pressão, fechando em alta de 0,99%, a R$ 5,2416 — foi o terceiro dia consecutivo de ganhos da moeda americana, que já acumula valorização de 3,36% nesta semana.
E de fato, não faltaram motivos para os investidores assumirem uma postura mais defensiva na sessão de hoje. Tanto no exterior quanto no Brasil, o noticiário esteve carregado de fatores preocupantes e que inspiravam cautela às negociações.
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Todos esses pontos de estresse possuem alguma relação com o surto de coronavírus. Seja no front econômico ou político, a pandemia continua gerando instabilidade e aumentando a aversão ao risco por parte dos agentes financeiros.
Queda brusca
Em primeiro plano, apareceu a forte queda de 8,7% nas vendas no varejo nos Estados Unidos em março, o maior recuo mensal da série histórica do Departamento do Comércio do país.
Trata-se de mais um indicador que evidencia o forte impacto que o surto de coronavírus está causando à economia americana. Mais cedo, o índice de atividade industrial Empire State despencou a -78,2 em abril, um desempenho muito pior que o projetado pelos analistas.
A fraqueza demonstrada pela economia dos EUA faz jus à visão pessimista do FMI para a atividade global em meio à pandemia. A instituição prevê uma baixa de 3% no PIB mundial em 2020 — em janeiro, a estimativa era de crescimento de 3,3% neste ano.
[captacao]
Petróleo sofre
O viés mais defensivo também foi visto no mercado de petróleo: o Brent recuou 6,45%, a US$ 27,69, enquanto o WTI caiu 1,19%, a US$ 19,87 — é a primeira vez desde 2002 que esse contrato fecha abaixo dos US$ 20.
Esse ajuste mais intenso se deve à visão pessimista quanto ao consumo global da commodity. Em relatório, a Agência Internacional de Energia (AIE) prevê uma baixa na demanda mundial de 9,3 milhões de barris por dia em 2020 — um cenário que, naturalmente, afeta as cotações do produto.
A baixa no petróleo afetou diretamente as ações da Petrobras: os papéis PN (PETR4) terminaram o dia em baixa de 2,09%, enquanto os ONs (PETR3) caíram 3,26%, ambos entre as maiores quedas do Ibovespa.
Olhos atentos
O cenário doméstico também inspirou cuidado: por aqui, os investidores acompanharam de perto as movimentações do governo, dados os rumores cada vez mais intensos de que o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, será demitido ainda nesta semana.
O titular da pasta vem se desentendendo com o presidente Jair Bolsonaro há algumas semanas — enquanto Mandetta defende o isolamento social para combater o coronavírus, Bolsonaro alega que o nível de atividade precisa ser retomado o mais rápido possível, de modo a não impactar a economia de maneira mais severa.
No fim de semana, o ministro da Saúde deu entrevista à TV Globo cobrando um discurso único por parte das autoridades, o que teria gerado descontentamento dentro do governo.
Além disso, o mercado também está atento às movimentações de bastidores no Congresso, dadas as discussões acaloradas envolvendo o pacote de auxílio emergencial a Estados e municípios — o projeto foi aprovado pelo plenário da Câmara e agora segue para votação no Senado.
O texto poderá causar um impacto de cerca de R$ 100 bilhões às contas públicas e, por isso, vem sendo chamado de 'bomba fiscal' — economistas ouvidos pelo Seu Dinheiro temem que a aprovação da pauta poderá forçar uma elevação nos juros.
Esse cenário, somado à pressão vista na bolsa e no câmbio, fez os DIs mais curtos fecharem em leve alta. Esses ajustes positivos, no entanto, não enfraquecem a percepção de que a taxa Selic continuará sendo cortada para dar estímulo à economia:
- Janeiro/2021: de 3,04% para 3,05%;
- Janeiro/2023: de 4,77% para 4,72%;
- Janeiro/2025: de 6,38% para 6,27%.
Top 5
Veja abaixo os cinco papéis de melhor desempenho do Ibovespa hoje:
| CÓDIGO | NOME | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| GOLL4 | Gol PN | 12,28 | +7,16% |
| NTCO3 | Natura ON | 31,80 | +6,78% |
| COGN3 | Cogna ON | 5,25 | +5,85% |
| SMLS3 | Smiles ON | 14,53 | +5,67% |
| BTOW3 | B2W ON | 62,80 | +5,55% |
Confira também as maiores quedas do índice:
| CÓDIGO | NOME | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| BRML3 | BR Malls ON | 9,31 | -4,12% |
| SANB11 | Santander Brasil units | 26,92 | -4,10% |
| BBDC3 | Bradesco ON | 19,00 | -3,94% |
| ITUB4 | Itaú Unibanco PN | 23,40 | -3,70% |
| BRAP4 | Bradespar PN | 28,91 | -3,60% |
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