R$ 5,84: com os juros cada vez mais baixos, o dólar subiu forte e chegou a níveis inéditos
O dólar à vista rompeu o nível de R$ 5,80 pela primeira vez, com os investidores ajustando-se à perspectiva de continuidade no ciclo de cortes na Selic

O Copom surpreendeu duplamente o mercado na noite de quarta-feira (7): cortou a Selic de maneira mais agressiva que o esperado e sinalizou que o ciclo de baixas na taxa básica de juros ainda não acabou. Dito isso, pode-se afirmar tudo sobre a nova disparada do dólar à vista, menos que ela foi surpreendente.
A moeda americana já vinha de uma sequência de quatro fortes altas, o que não inibiu uma quinta valorização consecutiva nesta quinta-feira (7). Pelo contrário: o salto de hoje foi ainda mais intenso que o visto nas últimas sessões.
No momento de maior pressão, a divisa chegou a ser negociada a R$ 5,8768 (+3,06%). Ao fim do dia, os ganhos foram ligeiramente menores: "apenas" 2,43% de alta, a R$ 5,8409 — um novo recorde de fechamento em termos nominais para o dólar à vista.
- Eu gravei um vídeo para explicar um pouco da dinâmica por trás da escalada do dólar nesta quinta-feira. Veja abaixo:
Com a nova rodada de ganhos desta quinta-feira, a moeda americana já acumula valorização de 7,40% apenas nesta semana — desde o início de 2020, os ganhos já chegam a 45,59%.
O comportamento do mercado doméstico de câmbio chama ainda mais a atenção porque, no exterior, a sessão de hoje foi marcada pelo enfraquecimento do dólar em relação às divisas de países emergentes. Moedas como o peso mexicano, o rublo russo e o peso chileno se valorizaram hoje — o real foi o ativo que destoou do grupo.
Mas, novamente: não há grandes surpresas. Afinal, considerando as perspectivas de juros cada vez mais baixos no país, é quase natural que o dólar à vista tenha se valorizado com intensidade — e, para completar o quadro de pressão cambial, ainda temos um ambiente político doméstico bastante conturbado.
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Juro para baixo, dólar para cima
Boa parte dessa nova onda de estresse no câmbio se deve às surpresas do mercado com a decisão de juros do Banco Central (BC). A autoridade monetária cortou a Selic em 0,75 ponto, ao nível de 3% ao ano — a maioria dos investidores apostava numa redução mais branda, de 0,50 ponto.
Mas essa não foi a única novidade: no comunicado, o Copom deixou claro que poderá promover mais um corte de até 0,75 ponto na próxima reunião, o que levaria a taxa básica de juros a 2,25% ao ano — e, considerando a baixa inflação e a contração no PIB por causa do coronavírus, esse passou a ser o cenário-base de muitos analistas.
Essa disposição indicada pelo Banco Central, dando a entender que não vê problemas numa Selic cada vez mais baixa mostrando-se despreocupado com eventuais pressões da alta do dólar sobre a inflação, contribui para dar ainda mais força a escalada da moeda americana ante o real.
Em linhas gerais, cortes na Selic acabam reduzindo o chamado diferencial de juros entre o Brasil e os Estados Unidos — a subtração entre os juros dos dois países. Com a baixa de ontem, esse gap ficou ainda menor.
Isso mexe com o câmbio porque, quanto menor o diferencial, menor é o apelo do Brasil para os investidores que buscam apenas a rentabilidade fácil dos juros. Claro, trata-se de um capital especulativo e que pouco contribui para o desenvolvimento econômico.
Ainda assim, a ausência desse tipo de agente financeiro diminui a entrada de dólares no país, pressionando o câmbio.
Risco político
Além disso, o clima no Brasil ainda é de cautela e apreensão. Por aqui, os investidores seguem atentos ao cenário político: ontem, a Câmara aprovou o pacote de auxílio financeiro emergencial a Estados e municípios, não cedendo às contrapartidas solicitadas pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.
Assim, as movimentações do governo e do Congresso continuaram sendo monitoradas de perto, considerando a forte deterioração nas relações entre as partes — e a percepção de que uma bomba pode explodir a qualquer momento contribuiu para estressar os investidores.
Isso ajuda a explicar o tom instável assumido pelo Ibovespa nesta quinta-feira: o índice oscilou entre os 78.061,44 pontos (-1,27%) e os 80.061,19 pontos (+1,26%), fechando o dia em baixa de 1,20%, aos 78.118,57 pontos — somente nesta semana, acumula perda de 2,97%.
Exterior tranquilo
O desempenho do Ibovespa só não foi pior porque, lá fora, o dia foi positivo nas bolsas: na Europa, as principais praças avançaram mais de 1% nesta quinta-feira, tom semelhante ao visto nos EUA, com o Dow Jones (+0,89%), o S&P 500 (+1,15%) e o Nasdaq (+1,41%) também subindo.
Esse bom humor externo se deve, em grande parte, aos dados mais fortes da balança comercial chinesa: as exportações subiram 3,5% em abril, enquanto as importações recuaram 14,2% — ambos os resultados superaram as expectativas dos analistas.
Os números vindos da China aumentam a esperança de que a retomada econômica na Europa e nos EUA após a fase mais crítica do surto de coronavírus poderá ocorrer de maneira mais intensa que o inicialmente planejado — vale lembrar que, no país asiático, o pico dos casos ocorreu em janeiro e fevereiro.
O otimismo em relação às perspectivas de retomada da atividade se sobrepõe aos dados mais preocupantes vistos nos Estados Unidos, onde os dados de desemprego continuam crescendo. E mesmo os recentes atritos entre os governos americano e chinês não trazem maiores preocupações aos investidores.
E os juros?
Após o corte mais agressivo da Selic e as indicações de que o ciclo de ajustes negativos tende a continuar, o mercado de juros futuros fechou em queda na ponta curta, ajustando-se às sinalizações emitidas ontem:
- Janeiro/2021: de 2,74% para 2,54%;
- Janeiro/2022: de 3,53% para 3,34%;
- Janeiro/2023: de 4,66% para 4,57%.
Balanços e dólar
No front corporativo, os investidores reagiram de maneira contida ao balanço do Banco do Brasil no primeiro trimestre deste ano: a instituição fez provisões de R$ 2 bilhões para se preparar para o impacto do coronavírus e, como resultado, fechou o período com queda de 20% no lucro, para R$ 3,39 bilhões — os papéis ON (BBAS3) tiveram baixa de 2,70%.
Ainda no lado dos resultados trimestrais, Ambev ON (ABEV3) caiu 2,45%, Totvs ON (TOTS3) teve baixa de 7,52% e NotreDame Intermédica ON (GNDI3) avançou 4,11% — veja aqui o resumo dos balanços das três empresas.
Em termos de desempenho no Ibovespa, destaque para as exportadoras Suzano ON (SUZB3) e Klabin units (KLBN11), com ganhos de 7,50% e 10,93%, nesta ordem — empresas que vendem ao exterior se beneficiam com o nível mais elevado do dólar.
Veja abaixo as cinco ações de melhor desempenho do Ibovespa nesta quinta-feira:
| CÓDIGO | NOME | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| KLBN11 | Klabin units | 20,61 | +10,93% |
| SUZB3 | Suzano ON | 45,01 | +7,50% |
| MRFG3 | Marfrig ON | 13,62 | +7,33% |
| BEEF3 | Minerva ON | 13,82 | +7,30% |
| GGBR4 | Gerdau PN | 12,45 | +6,96% |
Confira também as maiores quedas do índice:
| CÓDIGO | NOME | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| RENT3 | Localiza ON | 29,77 | -8,40% |
| TOTS3 | Totvs ON | 18,21 | -7,52% |
| AZUL4 | Azul PN | 13,66 | -7,52% |
| IGTA3 | Iguatemi ON | 27,66 | -7,46% |
| CCRO3 | CCR ON | 11,42 | -7,08% |
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