Volatilidade no mercado financeiro congela fila de aberturas de capital
IPOs foram suspensos pelo aumento dos temores em torno do coronavírus e da crise no petróleo; reuniões entre investidores, bancos e companhias foram adiadas

A estreia de mais de 20 companhias na B3 até maio terá de aguardar. A janela, que até o início da semana passada prometia ser uma das mais fortes da história do mercado brasileiro, foi fechada pelo aumento das preocupações em torno do coronavírus e da crise no petróleo.
Por ora, os planos de captações das companhias foram suspensos. Diante da impossibilidade de discutir preço de ações para as ofertas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês) que estavam engatilhadas - e com o forte movimento de venda de ativos que levou o Ibovespa nas segunda-feira a ter o pior dia desde 1998 -, as reuniões iniciais entre investidores, bancos e companhias já começam a ser adiadas.
A única exceção, até o momento, é a Vamos, empresa de aluguel de caminhões da JSL, da família Simões, conforme antecipou a Coluna do Broadcast. A oferta foi lançada na sexta-feira, portanto antes do aumento da aversão ao mercado e das notícias do fim de semana, em torno da disputa entre Rússia e Arábia Saudita. O IPO foi lançado porque havia, na largada, demanda de investidores pela oferta. A companhia seguirá o planejamento, esperando que, mais próximo da precificação, os ânimos estejam mais calmos, apurou o Estadão/Broadcast. A fixação do preço da ação está marcada para o dia 25.
O restante, porém, já entrou em compasso de espera. A Caixa Econômica Federal, por exemplo, deve adiar a oferta da Caixa Seguridade ao menos até julho, segundo fontes, à espera de um melhor momento para a precificação da oferta, que deve movimentar R$ 15 bilhões. As reuniões com investidores para se discutir preços serão desmarcadas. "Postergar também faz parte de uma boa administração", diz uma fonte com conhecimento direto da operação. A decisão final ainda não foi tomada, mas caminha nessa direção.
No ano passado, a Caixa deu início a seu programa de venda de ativos pelas participações que tinha em empresas já listadas. Foram levadas ao mercado, assim, ações do IRB Brasil Re e da Petrobrás.
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Outros IPOs de grande porte previstos para abril eram o do BV (ex-Banco Votorantim) - uma oferta de R$ 5 bilhões - e o do Daycoval, que busca R$ 3,5 bilhões. "Praticamente todas as ofertas pararão. Não tem como discutir preço neste momento", disse uma fonte. Mesmo que sejam estreantes no mercado, os preços para os IPOs utilizam como referência as ações das empresas já listadas.
Opções
Outra questão é que com os valores das companhias listadas em Bolsa em queda, os gestores de fundos - depois de sofrerem com a queda de suas cotas - têm neste momento boas opções de compra entre as companhias já listadas. A ação da Petrobrás, que em fevereiro foi precificada na oferta subsequente (follow-on) em R$ 30, fechou ontem abaixo de R$ 17.
Na fila para abrir capital, há 24 companhias com pedidos de registros feitos na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Se em até 15 dias as incertezas se dissiparem, algumas poderão atualizar a documentação e lançar a oferta, o que é, no entanto, imprevisível neste momento. O cenário mais provável que começa a se desenhar é de um mercado mais seletivo. Empresas muito endividadas e menos conhecidas, por exemplo, terão mais dificuldade de sair.
[captacao]
A volatilidade pode colocar freio em um mercado que começou o ano muito aquecido. Em 2020, a B3 já foi palco de cerca de R$ 30 bilhões em ofertas de ações e quatro IPOs (Mitre Realty, Locaweb, Moura Dubeux e Priner).
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