O risco de o Brasil dar certo: uma conversa com Henrique Bredda e os sócios da Alaska
Com mudanças estruturais aparecendo no horizonte da economia brasileira, quais os riscos a serem considerados pelos investidores? A equipe do Seu Dinheiro e os sócios da gestora Alaska debateram essa questão

“Hoje talvez um dos maiores riscos do Brasil é o risco de dar certo. E, para o investidor, é o risco de estar lá quietinho no seu CDI a 6%, que em breve vai se tornar 5%, enquanto o Ibovespa triplica, os preços dos imóveis duplicam e seu poder de compra se divide por três. Ele arriscou ao não considerar a chance de dar certo”.
Quem disse isso foi Henrique Bredda, sócio da gestora Alaska, durante um almoço com parte da equipe do Seu Dinheiro na última semana. E essa fala bem que ficou ressoando na nossa cabeça, numa semana em que o Copom reduziu os juros de 6,5% para 6% ao ano e ainda sinalizou mais quedas.
Quem diria que um dia estaríamos aqui, não é mesmo? Mas cá estamos.
[captacao]
Eu, num almoço com Bredda e seus sócios Ney Miyamoto e Eduardo Mestieri, num restaurante famoso de São Paulo, ao lado dos meus colegas Marina Gazzoni, Vinícius Pinheiro e Eduardo Campos; o Brasil, com Selic de 6% ao ano, inflação baixa, juro real na casa de 1% e correndo o risco de dar certo. Quem te viu, quem te vê.
Nessas circunstâncias, de fato o risco é continuar conservador demais enquanto os preços dos ativos andam.
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É verdade que existem riscos externos, como a guerra comercial entre EUA e China e a desaceleração da economia global. Bredda e Miyamoto apontaram ainda o que eles acreditam ser o maior risco no mundo hoje: o risco político, devido aos extremismos nacionalistas de esquerda e direita, que podem descambar para conflitos diplomáticos e sociais, dada a grande desigualdade no mundo.
Mas, apesar disso, em um cenário de juros baixos ou cadentes aqui e lá fora, o que nos resta a não ser migrar algum recurso para ativos de renda variável? Nesta semana, logo após a decisão do Copom, eu até falei sobre isso nesta matéria sobre o que ainda dá para fazer para adaptar os seus investimentos à nova realidade.
A Alaska é uma gestora de renda variável nascida de uma parceria entre Bredda, Miyamoto e Luiz Alves Paes de Barros, um dos maiores investidores individuais da bolsa brasileira. Eu inclusive já falei dela antes nesta mesma newsletter de domingo, num texto que você pode ler aqui.
As principais posições da casa são bastante conhecidas, como é o caso de Braskem, Rumo, Suzano, Kroton e Klabin. Mas a mais famosa, digamos, certamente é o Magazine Luiza, seu grande “case” de sucesso.
Também é bastante conhecido o foco da gestora em educação financeira. Pelo Twitter, Bredda fala hoje a cerca de 56 mil seguidores e tenta segurar a mão dos cotistas, sempre com uma certa dose de “tough love”.
Qual é o Brasil que dá certo?
A visão da Alaska para as ações brasileiras é bastante construtiva. “O Brasil está passando por um longo processo de recuperação de valuation (valor) das empresas da bolsa. Temos uns bons quatro, cinco ou seis anos pela frente”, disse Bredda.
Mas ele lembra que desempenho da bolsa não tem nada a ver com o PIB. Afinal, o que faz as ações se valorizarem é a perspectiva de lucro para as empresas e não as perspectivas para o crescimento do PIB.
Essas duas coisas, aliás, frequentemente não andam juntas: nem tudo que é bom para o PIB é bom para a bolsa, especialmente num país como o Brasil, com seu “capitalismo de araque”, como o Bredda mesmo diz.
As ações que compõem o Ibovespa são a elite da bolsa, justamente as maiores e mais poderosas do país, que se beneficiam de serem monopólios, fazerem parte de oligopólios ou serem “amigas do rei”.
A atual tendência de migração para um capitalismo mais maduro no Brasil - com menos Estado, juros mais baixos, inflação civilizada, mais concorrência, descentralização do crédito e poupadores investindo no setor produtivo, e não apenas financiando a dívida pública - não deve acontecer sem “dores do crescimento”. Tende a ser ótimo para o PIB e o país, mas potencialmente danoso para o Ibovespa como ele é hoje.
Quer um exemplo? Imagine se as fintechs ganharem musculatura e passarem a distribuir crédito barato para todo mundo. Será ótimo para a economia, mas muito ruim para as ações dos bancos e, consequentemente, para a bolsa. Os grandes bancos representam nada menos que um terço do Ibovespa e, na visão de Bredda, estão entre as companhias que mais podem ser prejudicadas por um “choque de capitalismo”.
“Se o lucro dos bancos for corroído, o Ibovespa também será. E quem vai ganhar com isso? Empresas que não estão listadas ou são irrelevantes, porque não fazem parte do índice”, explicou Bredda.
A resiliência à competição é inclusive um dos motivos que fazem a Alaska gostar do setor de varejo, já acostumado, mesmo no Brasil, a uma briga ferrenha. Nesse contexto, uma empresa vencedora como o Magalu é uma vencedora de fato. Para os sócios da Alaska, inclusive, empresas como Via Varejo (que está “atrasada”) ou a operação da Amazon no Brasil (“irrelevante”) não são ameaças para ela.
“A ameaça no Brasil vem sempre do pequenininho de baixo. No caso do Magazine Luiza, vai ser algum player local. A Amazon vai entregar livro no Itaim e no Leblon e acabou”, afirmou Bredda. Afinal, como lembrou Ney, “o Brasil não é para amadores”, pois tem toda uma dinâmica própria que os gringos, quando vêm para cá, têm dificuldade de decifrar.
É bem verdade que o Ibovespa é rebalanceado de tempos em tempos. Se as empresas começam a perder relevância na bolsa, tendem a sair do índice. Mas até isso acontecer, leva um tempo. E pior: as ações costumam entrar no Ibovespa na alta e sair na baixa.
Mas e do lado das fintechs, tem alguma coisa que a Alaska gosta? No nosso almoço, eles contaram que chegaram a olhar a ação do Banco Inter, mas não compraram. O motivo? Acharam caro - e isso foi antes mesmo da mais recente onda de valorização do banco.
“Temos grande curiosidade de saber como eles vão rentabilizar o patrimônio para justificar um preço de cinco vezes o patrimônio”, disse Bredda.
O gestor disse não saber se esses bancos digitais são sustentáveis nem qual deles vai sobreviver e se destacar, mas acredita que eles vieram para ficar e que já está claro quem vai perder: os bancões.
Talvez a moral da história seja justamente que investir na bolsa é muito mais do que acompanhar o Ibovespa. Ou, como nos disse Bredda, “é caso a caso, setor a setor, empresa a empresa”.
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