Brasilprev não dá; quer dizer, até dá, mas só como patrocinadora do Billy Elliot
Sonhei com filosofia, acordei com as luzes piscando no home broker. Da vocação, não há como fugir. As almas têm seus próprios ancestrais. Aquela coisa cafona meio Lulu Santos: quando um certo alguém desperta o sentimento, é melhor não resistir e se entregar

Sonhava em ser jogador de futebol. Não deu. Por incompetência, claro. Sonhei depois em ser guitarrista de banda de rock – tocava cover do Led; o Greta Van Fleet, espertinho, chegou primeiro e foi mais eficiente. Também não deu para mim. Incompetência de novo. Daí rebaixei o sonho para a série B: por um tempo, pensava em ser “epistemológico de finanças”. Fracasso mais uma vez. Hat trick. A maior taxa de sucesso para obtenção de fracassos: 100 por cento de hit rate.
Então optei por abandonar a atividade onírica e me agarrar a um propósito, em que a realidade tangível e concreta seria de perseguir uma boa ideia de investimento para transmitir à pessoa física. Se encontrada, e sinceramente não é fácil fazê-lo neste ambiente, essa ideia seria escrita de forma livre, independente e sem conflito de interesses. Sonhei com filosofia, acordei com as luzes piscando no home broker. Da vocação, não há como fugir. As almas têm seus próprios ancestrais. Aquela coisa cafona meio Lulu Santos: quando um certo alguém desperta o sentimento, é melhor não resistir e se entregar. Entreguei-me cedo à paixão pelas ações e não larguei mais.
Verba volant, scripta manent
Escrever é mais rigoroso do que falar. Verba volant, scripta manent. A palavra registrada em papel fica para sempre. Viver é muito perigoso, ensinou Riobaldo. Por isso, escrever exige mais cuidado com a linguagem e com as definições em particular, ainda que muitas palavras gozem de certa elasticidade semântica (em português, vários significados para a mesma palavra) no mercado financeiro.
E quando se tem de definir uma expressão para qual qualquer explicação a limita, a restringe ou lhe confere conotação imprecisa? O Rodolfo já trouxe aqui a limitação de linguagem formalizada por Wittgenstein. Certamente, trata-se um pouco disso aqui.
Mas talvez Pascal seja mais preciso para o caso de hoje. Bom, eu, Felipe, do alto da minha isenção e sem viés, acho mesmo que o Rodolfo é mais preciso do que o Pascal e o Wittgenstein juntos, mas daí é outra conversa.
Pascal diz mais ou menos assim: quando se quer definir muito algo percebido como evidente pelo senso comum, como o tempo, mais se confunde o entendimento do que o esclarece.
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Você sabe o que é o tempo. Se eu ou qualquer outra pessoa tentar definir o tempo, vai dar bagunça. Pra que, sabe? Recorrendo a Pondé em seu “Amor para Corajosos”, “não defino o amor ou a felicidade em momento algum nesta coleção de ensaios. Parto sempre da experiência comum dos humanos sobre o amor e sobre a felicidade”.
Risco
Então finalmente chegamos às finanças e aos investimentos. Eu não preciso definir risco. Você sabe o que é, intuitiva e tacitamente. Mesmo que de forma difusa e não estruturada, você sabe o quanto isso se liga à chance de perda, de machucar-se, de ferir-se ou até mesmo de não sobreviver. E, claro, ao tamanho dessa potencial perda. Essa intuição é, inclusive, muito superior à definição acadêmica típica, que liga risco ao desvio-padrão de uma determinada série financeira.
Está vendo? Piorou.
Se eu falo que uma determinada coisa tem risco, você imediatamente liga seus alertas mentais e entende de maneira instantânea o recado. “Posso me ferrar aqui; melhor subir as barreiras, pegar um guarda-chuva, um seguro, ir com cuidado.” Mas se eu disser que o desvio-padrão de um certo ativo é alto, isso tem ressonância pra você?
O mercado financeiro é do mundo real, não das definições estéreis e pasteurizadas. Precisamos pagar nossos boletos. É isso que nos move. Sharpe, pra mim, é só a marca da TV que quero comprar para a sala lá de casa.
O mundo dos investimentos é um ambiente inerentemente arriscado porque tomamos uma decisão hoje, com consequências que virão no futuro. Temos de escolher agora, sendo que as informações cruciais vão ser reveladas apenas amanhã. Entende o problema? Você decide hoje sobre coisas acessíveis apenas depois. E claro: você será julgado pelos resultados lá na frente e não por quanto era difícil tomar a decisão ex-ante, com as informações disponíveis na época.
Essa é uma das razões para minha defesa em prol da gestão passiva dos investimentos, em que se opta por perseguir um determinado índice qualquer, em vez de selecionar ativos isoladamente. Em cenários de incerteza e aleatoriedade – essas coisas infelizmente não desaparecem do quadro –, bater o mercado não é fácil. Eu diria que é quase impossível. Uma boa alocação de ativos, entre as variadas classes, já resolve tanta coisa…
Agora, não é porque uma coisa é difícil que não haja solução. A maior parte das decisões financeiras está mesmo sujeita à incerteza e à aleatoriedade. Nesses casos, daí só nos resta perseguir assimetrias e convexidades, sujeitos, claro, à obediência dos perfis individuais, às visões de mundo e a opiniões particulares – breve digressão: por vezes, opiniões aparecem disfarçadas de artigos acadêmicos, em que o pesquisador, estimulado deliberadamente ou não pelo viés de confirmação, segue um determinado caminho apenas para provar seu ponto original; a conclusão já é atingida no exato momento em que se escolhem as premissas, de modo que a chamada ciência (definição imprecisa para o caso; o correto seria cientificismo) se revela apenas uma tautologia. Sob tortura, os dados confessam qualquer coisa. Também para eles parece valer a colaboração premiada.
Volto ao planeta Terra.
Certezas
Para a nossa alegria, há outras situações que não envolvem incerteza e aleatoriedade. Aqui, estamos de certo modo livres do conceito de risco. Saímos de uma escolha em ambiente estocástico para adentrarmos o campo determinista. Você sai de A para B com a certeza de que vai melhorar. É raro, mas acontece. E, nesse caso, estamos simplesmente diante de uma escolha racional; não apenas diante de múltiplas possibilidades num mapa amplo de preferências.
Primeiro exemplo básico. Imagino que você tenha uma reserva de emergência, certo? Bom, a esta altura, se você não tem uma reserva de emergência, a coisa está feia. Então, vou assumir que não está tão feia e que você tem lá uns caraminguás em LFT (Tesouro Selic), na poupança (jura por Deus?), num fundo DI de um banco tradicional ou em qualquer coisa parecida que não me ocorre agora. Se você transferir esses recursos para o fundo DI do BTG Digital, estará em situação melhor. Isso porque ele cobra a menor taxa e tem o mesmo nível de risco das alternativas supracitadas. É estritamente lógico e racional; não há razão objetiva para não fazer isso. Ponto.
E agora chego finalmente (ufa!) onde queria. Nesta semana, eu li a seguinte barbaridade em bela reportagem sobre o futuro da BB DTVM no jornal Valor Econômico – por favor, veja se fiquei louco:
“O fundo BB Curto Prazo Supremo Setor Público foi criado para gerir recursos de autarquias, fundações e sociedades federal, estaduais e municipais. Conforme os dados da carteira da CVM, o fundo faz aplicações basicamente em operações compromissadas atreladas ao Tesouro e tem 160 mil cotistas. Este fundo tem taxa de administração de 4 por cento ao ano sobre o patrimônio líquido, que é de 53 bilhões.”
Para, sério. Na moral, depois eu sou o exagerado e agressivo? São 160 mil pessoas investindo num fundo de 4 por cento que compra operações compromissadas atreladas no Tesouro. É isso mesmo? Só consigo uma definição para essa aberração: assalto.
Primeira coisa: se você é uma dessas 160 mil pessoas (eu não te julgo, juro), por favor, não dá. Você precisa imediatamente sair dessa prisão. Não tem como dar certo, sabe? É irracional. Com uma taxa dessa, vai ser difícil qualquer fundo performar bem. Ainda mais para esse perfil de risco, sem chance.
A minha sugestão é migrar para o FoF Vitreo SuperPrevidência – você pode fazer a portabilidade sem nenhum prejuízo de seus benefícios fiscais, apertando um botão e preenchendo do seu celular seu cadastro (se você clicar nesse hiperlink aí em vermelho, será redirecionado para o site da Vitreo, onde poderá entrar em contato com todos os detalhes sobre o plano). Essa é uma carteira de fundos de previdência diversificada e balanceada, selecionada brilhantemente pela Luciana Seabra e referendada num segundo momento pela diligente análise da equipe do genial George “Jojo" Wachsmann, que geriu patrimônio de multimilionários a vida inteira e agora está à sua disposição (se você tem algum amigo no mercado financeiro, pergunte pelo Jojo da GPS e da Bawn para ter uma ideia do que estou falando; sim, ele é uma lenda desse universo de gestão de fortunas).
Brasilprev
Insisto nisso porque a atrocidade descrita acima não é exclusividade do fundo BB Curto Prazo Supremo Setor Público. Quase a totalidade dos fundos da Brasilprev é muito ruim, com retornos pífios nas mais diversas janelas temporais. Você não pode estar num fundo desse. E muita gente está lá, deixando o dinheiro de sua aposentadoria no pior lugar em que ele poderia estar. Isso a Globo não mostra. Vou te dizer: a coisa mais legal que a Brasilprev já fez na vida foi trazer a montagem da peça Billy Elliot, com estreia nesta sexta e eu já estou ansioso – adoro o Billy Elliot; nossa, acabo de ver que o filme é de 2001, lá se vão 18 anos! Jesus…
Também não é exclusividade da Brasilprev, não. A rigor, a maior parte dos fundos de Previdência dos bancos tradicionais é ruim, rendendo menos do que o CDI, fazendo uma alocação de recursos péssima (todos atolados de renda fixa, sendo que os fundos de previdência, por serem de longo prazo, deveriam ser aqueles com a maior parte em ações) e cobrando taxas altas de seus cotistas. Num mundo de juro a 6,5 por cento, não há razão alguma para pagar mais de 2 por cento de taxa de administração – e tem lote de fundo por aí cobrando 3, 4 por cento. É um escândalo.
Talvez você tenha achado o recado de hoje voltado a um público mais restrito, àqueles que mantêm recursos alocados em fundos de previdência dos grandes bancos. De fato, você tem razão. Peço desculpas por isso. Mas pondero: estou falando de centenas de milhares de pessoas, talvez dê milhão (não somei aqui, desculpa de novo), em situação parecida a essa descrita sobre o fundo BB Curto Prazo Supremo Setor Público. É gente do bem, entregando dinheiro para o banco que poderia (e deveria) ser a grana para uma aposentadoria mais tranquila, segura e profícua.
Se você está nesta situação e ainda está um pouco cético, receoso ou qualquer coisa parecida, tudo bem. Dê hoje o primeiro passo. Compare a taxa de administração de seu fundo com outras por aí. Veja o quanto ele rendeu nos últimos anos. Quebre por várias janelas temporais. Você vai chegar por si só à mesma conclusão. Há alternativas muito melhores na indústria. Sua aposentadoria merece.
Mercados
Mercados iniciam a quarta-feira com tendência predominantemente positiva, embora variações sejam bem modestas, próximas à estabilidade. Há uma ponderação entre um maior otimismo na margem com a reforma da Previdência por aqui e uma preocupação com a evolução (ou involução, sei lá) do Brexit lá fora.
A instalação da CCJ está marcada para as 19 horas e deve confirmar a presidência de Felipe Francischini (PSL). Foi uma pequena vitória do governo pelo cumprimento do prazo.
No exterior, nova rejeição do Parlamento britânico sobre o plano para o Brexit traz alguma dose de cautela.
Agenda doméstica traz produção industrial de fevereiro e fluxo cambial semanal. Nos EUA, saem inflação ao produtor e encomendas de bens duráveis. China divulga à noite produção industrial e vendas ao varejo.
Ibovespa Futuro registra leve alta de 0,1 por cento. Dólar e juros futuros estão próximos à estabilidade.
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