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Deflação de setembro não indica enfraquecimento mais grave da economia, diz especialista

Para André Braz, do Ibre/FGV, não há expectativa de novas quedas, mas de que a inflação continue baixa; índice reflete nível alto de desemprego

"O repasse fica limitado pela questão da demanda (baixa), desemprego alto não possibilita repasses instantâneos", diz André Braz. Imagem: FGV/Youtube/reprodução

A deflação de setembro é pontual e não indica um enfraquecimento mais grave da economia brasileira, segundo o economista André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC), do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV).

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"Não há expectativa de novas quedas, mas de que a inflação continue baixa." Segundo ele, a inflação na casa dos 3% reflete a economia lenta e com alto nível de desemprego, um cenário que não permite nem o repasse da alta do dólar. "O repasse fica limitado pela questão da demanda (baixa), desemprego alto não possibilita repasses instantâneos." A seguir, trechos da entrevista.

A deflação é pontual ou há uma tendência?

É pontual. Os números estão baixos, mas, estatisticamente, nem negativo foi (em setembro). Se a gente considerar esse número (0,04%) com uma casa decimal, seria zero. É um número muito baixo influenciado por alimentos in natura. A deflação está concentrada em produtos cuja oferta é forte. Produtos que não toleram estoque e que, se a quantidade (ofertada) é maior do que a demandada, há uma queda no preço.

O perigo da deflação é quando há um processo persistente e generalizado em vários outros produtos importantes, como serviços médicos, bens duráveis e alimentos industrializados. Aí é um processo revelando uma economia muito mais enfraquecida. Agora, não há expectativa de novas quedas, mas de que a inflação continue baixa. Há mecanismos em curso para fazer com que a economia se aqueça. O Banco Central tem reduzido a Selic (a taxa básica de juros) gradualmente. Tem movimentos na economia que podem fazer com que ela se recupere mais rapidamente, mas é um cenário mais para 2020. Uma parte dessa inflação baixa também está relacionada ao nível de desemprego. Quando a economia está crescendo pouco - a previsão de PIB para este ano é 0,8% -, com um nível de desemprego de 11%, não há chance de alta de preço de outros produtos, como bens duráveis.

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Já tivemos casos de deflação no ano passado. Esses episódios não costumavam se repetir...
Tivemos deflação em agosto do ano passado, de 0,09%, e em novembro, de 0,21%. Também foram pontuais. Às vezes, a deflação acontece, por exemplo, quando se muda a bandeira vermelha na energia para verde. Como a queda no preço é nacional e em cima de uma despesa importante no orçamento, acaba levando a inflação para um patamar negativo, mas é um efeito transitório, não generalizado. No caso de agora, a causa é uma queda no preço de alimentos in natura. Eles subiram muito no primeiro semestre, com problemas de oferta. Como os últimos meses têm sido de clima mais favorável à oferta desses alimentos, isso tem permitido quedas nos preços. Como já estamos na primavera, o desafio climático é maior para esses produtos, que passarão de mocinhos para bandidos rapidamente.

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O dólar tem se desvalorizado e, mesmo assim, temos deflação. O que acontece que os preços não estão sob pressão?
O repasse é gradual. Essa desvalorização aconteceu há pouco tempo. Ela chega primeiro ao consumidor encarecendo derivados de grandes commodities agrícolas, como milho, soja e trigo. O trigo contamina toda a família de pães. A soja é basicamente ração animal, então frango e suíno costumam subir de preço. Assim, quanto mais tempo a taxa de câmbio continuar nesse patamar, maior a probabilidade de contaminar alguns preços. Sem contar a gasolina. A Petrobrás também movimenta o preço da gasolina tanto pela variação cambial como pelo preço do petróleo. Mas existem outras questões que diminuem a possibilidade de repasse cambial. Você pode ter uma desvalorização cambial afetando commodities, mas, por outro lado, safras boas favorecendo a queda do preço desses grãos em Bolsas internacionais.

Mas esse é o caso agora?
É o caso para milho e trigo, mas não para a soja, que teve um probleminha de expectativa de safra ruim nos Estados Unidos. Essa questão cambial fica também limitada pela questão da demanda, desemprego alto não possibilita repasses instantâneos. Tudo é mais lento. Mas, se a taxa de câmbio continuar nesse patamar por muito tempo, com certeza vai haver algum repasse.

A deflação é pontual, mas, mesmo assim, a inflação está abaixo da meta de 4,25% para 2019. O Banco Central demorou para reduzir a taxa de juros?
Não. Mexeu na hora certa. A inflação não está abaixo do intervalo da meta (2,75% a 5,75%). Ela vai se recuperar a partir de novembro e a taxa de 12 meses vai avançar. Devemos encerrar o ano com uma inflação de 3,3%. Uma inflação baixa, sim, que reflete o PIB de 0,8% aguardado para o ano e uma economia com desemprego ainda elevado. O ideal é que estivéssemos terminando o ano com a inflação mais na meta, o que provavelmente indicaria um nível de desemprego menor e um PIB maior.

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*Como informações do jornal O Estado de S. Paulo e Estadão Conteúdo

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