Menu
2019-10-14T14:27:17-03:00
Victor Aguiar
Victor Aguiar
Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e com MBA em Informações Econômico-Financeiras e Mercado de Capitais pelo Instituto Educacional BM&FBovespa e UBS Escola de Negócios. Trabalhou nas principais redações de economia do país, como Bloomberg, Agência CMA, Agência Estado/Broadcast e Valor Econômico.
Efeito dominó

Uma onda de cautela tomou conta dos mercados e derrubou o Ibovespa aos 102 mil pontos

A postura mais paciente do Banco Central Europeu (BCE) em relação ao início do corte de juros na zona do euro mexeu com o sentimento dos mercados, disparando um movimento de aversão ao risco nos ativos globais. E o Ibovespa foi atingido em cheio

25 de julho de 2019
10:32 - atualizado às 14:27
Efeito dominó
Ibovespa fechou em queda de mais de 1%; dólar teve alta e terminou na faixa de R$ 3,78Imagem: Shutterstock

Na cabeça dos mercados, o plano era muito simples: o Banco Central Europeu (BCE) cortaria juros nesta quarta-feira (25) — ou, ao menos, daria um sinal forte de que a redução começaria em breve —, dando início à festa do afrouxamento monetário. Só que, na prática, as coisas não correram como o previsto. E, como resultado, o Ibovespa e as bolsas globais tiveram um dia de quedas intensas.

O principal índice acionário brasileiro terminou o pregão em forte baixa de 1,41%, aos 102.654,58 pontos — e olha que, no início do dia, o Ibovespa até chegou a ensaiar uma leve alta, batendo os 104.439,70 pontos (+0,31%). Lá fora, o tom foi semelhante: o Dow Jones (-0,47%), o S&P 500 (-0,53%) e o Nasdaq (-1,00%) caíram em bloco.

A cautela generalizada também contaminou o dólar à vista: ao fim da sessão, a moeda americana subiu 0,34%, aos R$ 3,7820, mas tocou os R$ 3,8065 no momento de maior estresse (+0,99%) — foi a primeira vez desde o dia 8 que o dólar apareceu na faixa de R$ 3,80.

Esse movimento global de correção se deve à quera de expectativa em relação à postura do BCE, que assumiu um tom bem menos agressivo que o esperado pelos mercados, sem demonstrar urgência para iniciar o corte de juros na zona do euro.

Assim, foi plantada a semente da dúvida na mente dos agentes financeiros: se o BCE está mais paciente, sera que o Federal Reserve (Fed) também mostrará uma postura parecida? E, no Brasil, o que o Banco Central fará com a Selic?

Calminho, calminho

Nesta manhã, o BCE manteve as taxas de juros da zona do euro inalterada. E, embora uma parte dos agentes financeiros apostasse que o órgão poderia iniciar já hoje o processo de alívio monetário, a manutenção era o cenário-base dos mercados. Até aí, o plano corria conforme o imaginado.

Só que o comunicado da instituição já trouxe alguns elementos que provocaram estranheza, com destaque para as projeções para o futuro: o Banco Central Europeu afirmou que os juros devem permanecer nos níveis atuais ou mais baixos ao menos até o fim do primeiro semestre de 2020.

Isso quer dizer que o BCE deixou a porta aberta para iniciar um processo de corte de juros no futuro. Só que o tom empregado pelo órgão não foi exatamente incisivo: a instituição não parecia assumir um compromisso firme de ajuste negativo das taxas já na próxima reunião, em agosto.

Essa leitura ganhou ainda mais força quando o presidente do órgão, Mario Draghi, veio a público para cometar a decisão. Entre outros pontos, ele disse que um corte de juros já nesta quinta-feira sequer foi discutido pelos membros da instituição.

Para Pablo Spyer, diretor da corretora Mirae Asset, o BCE e Draghi mexeram com a sentimento dos mercados em relação à política monetária global, uma vez que a percepção generalizada era a de que um movimento iminente de corte de juros por parte dos principais bancos do mundo era garantido.

"O Draghi, ao dizer que eles nem conversaram sobre essa hipótese, fez todo mundo rever a sua mentalidade", diz Spyer, ressaltando que, agora, cresce a ansiedade em relação à próxima quarta-feira (31), data em que o Federal Reserve e o Banco Central do Brasil (BCB) divulgarão suas decisões de política monetária.

A analista Stefany Oliveira, da Toro Investimentos, faz leitura semelhante. Para ela, um corte de juros na Europa — ou, ao menos um sinal mais forte de redução no futuro — poderia fazer com que o Fed e o BCB seguissem um caminho semelhante. "Mas não foi isso o que aconteceu, e o mercado ficou com o pé atrás".

As bolsas da Europa também reagiram negativamente à surpresa com o BCE. No velho continente, as principais praças terminaram a sessão no vermelho, com destaque para a Alemanha: o DAX teve baixa de 1,28%.

Balanços intensos

"Mas por que é que o Ibovespa teve um desempenho pior que as bolsas americanas e europeias?", você pode estar se perguntando. A resposta está no noticiário corporativo, que trouxe pressão extra aos ativos domésticos.

Por aqui, a temporada de balanços do segundo trimestre foi decisiva para ditar o comportamento do índice, uma vez que três importantes empresas que compõem o Ibovespa reportaram seus números recentemente: Bradesco, Ambev e GPA.

E os ativos do Bradesco, que possuem um peso relevante na composição do índice, tiveram uma sessão bastante negativa, embora o banco tenha reportado lucro líquido de R$ 6,462 bilhões entre abril e junho deste ano, um crescimento de 25,2% na base anual — superando as expectativas dos analistas, que apontava para R$ 6,224 bilhões.

Os papéis PN do Bradesco (BBDC4) fecharam o dia com baixa de 5,82%, enquanto as ações ON (BBDC3) recuaram 4,91%, liderando a ponta negativa do Ibovespa. Em linhas gerais, os dados da instituição foram considerados fortes — um analista pondera que o aumento nas despesas do banco pode ser a fonte do desconforto do mercado.

O Ibovespa só não teve um desempenho ainda pior porque as ações ON da Ambev (ABEV3), que também têm participação elevada na carteira do índice, fecharam em alta de 8,52%. A fabricante de bebidas viu seu lucro aumentar 16,1% na mesma base de comparação, para R$ 2,712 bilhões, surpreendendo positivamente o mercado.

O GPA, por sua vez, teve lucro de R$ 490 milhões, uma alta de 217,4% ante o segundo trimestre de 2018. Com o resultado, os papéis PN da companhia (PCAR4) também conseguiram se sustentar no campo positivo, em alta de 5,57%.

Dólar pressionado

Os efeitos do mau humor global com a postura do BCE também foram sentidos no mercado de câmbio: lá fora, um movimento de aversão ao risco fez com que o dólar ganhasse força em relação a quase todas as divisas de países emergentes e ligados às commodities.

Nesse grupo, estão inclusos o rublo russo, o peso chileno, o rand sul-africano, o peso colombiano e o dólar neozelandês. O real, assim, foi contaminado por esse contexto, embora o dólar à vista tenha se afastado do nível de R$ 3,80 ao fim do dia.

Juros sobem

Com a sinalização mais paciente do BCE, o efeito dominó contaminou as curvas de juros e provocou ajustes positivos no DIs, já que, num cenário em que a autoridade monetária da zona do euro mostra pouca urgência, um corte de juros mais intenso no Brasil parece menos provável.

Com isso, as curvas de juros para janeiro de 2020 fecharam em alta de 5,57% para 5,60%, enquanto as com vencimento em janeiro de 2021 avançaram de 5,40% para 5,46%. Na ponta longa, os DIs para janeiro de 2023 subiram de 6,27% para 6,35%, e os para janeiro de 2025 foram de 6,84% para 6,90%.

Comentários
Leia também
A REVOLUÇÃO 3.0 DOS INVESTIMENTOS

App da Pi

Aplique de forma simples, transparente e segura

Covid no Brasil

Brasil chega a 465,1 mil casos por coronavírus e 27,8 mil mortes

Do total de casos confirmados, 189.476 pacientes foram recuperados

Agência de telecomunicações

Anatel acata decisão judicial e aprova regra que retira sigilo de ligações

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) regulamentou a questão ontem, 28, em cumprimento a uma decisão da Justiça Federal do Sergipe

seu dinheiro na sua noite

Adam Smith e o PIB da pandemia

A economia funciona desta forma: a produção de bens e serviços só existe em função do consumo. Essa conclusão não é minha, é claro, mas de Adam Smith. Citar o “pai” do liberalismo em um raro momento de consenso sobre a necessidade de maior atuação do Estado para conter os efeitos do coronavírus na economia […]

De novo

CVC adia mais uam vez entrega do balanço do quarto trimestre de 2019

A operadora e agência de viagens CVC informou nesta sexta-feira, 29, que as suas demonstrações financeiras referentes ao exercício de 2019 só devem ser apresentadas até 31 de julho

Auxílio emergencial

Caixa abre mais de 2 mil agências no sábado

Por enquanto, apenas quem recebeu a primeira parcela até 30 de abril e nasceu em janeiro pode sacar o valor

Saldo positivo

Após muita volatilidade, dólar acumula queda de 1,83% em maio; Ibovespa sobe 8,57% no mês

Uma suavização nos fatores de risco domésticos e globais permitiu que o dólar se despressurizasse em maio e levou o Ibovespa de volta aos 87 mil pontos

Presidente da Câmara

Maia rechaça aumento de impostos para suprir queda na receita e defende reformas

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse que considera difícil qualquer tipo de aumento na carga tributária para compensar a queda de receita pública por causa da pandemia de covid-19

Para dirigentes de instituições

CMN estende restrição de dividendos até dezembro de 2020

O Conselho Monetário Nacional (CMN) decidiu estender até dezembro de 2020 a regra que proíbe o aumento na remuneração de dirigentes de instituições financeiras e a distribuição de dividendos acima do mínimo obrigatório

Campos Neto fala

Para BC, é possível que efeitos do isolamento persistam até metade de 2021

Para Campos Neto, o medo que as pessoas sentem de serem contaminadas fará com que muitos mantenham hábitos adquiridos durante o período de quarentena

Carregar mais notícias
Carregar mais notícias
Fechar
Menu
Advertisements