Cautela no exterior e calmaria no Brasil fazem Ibovespa andar com passos de tartaruga
O Ibovespa fechou a sessão desta quarta-feira (17) em leve alta e, com isso, está praticamente zerado no acumulado da semana, em meio à ausência de fatores de influência no Brasil e ao tom de prudência visto lá fora

Todo mundo conhece a fábula da corrida entre a lebre e a tartaruga. "Devagar e sempre se chega na frente", diz o réptil, ao sair vitorioso da disputa com o mamífero — e o Ibovespa parece ter adotado esse mantra nos últimos dias.
No pregão desta quarta-feira (17), o principal índice da bolsa brasileira fechou em leve alta de 0,08%, aos 103.855,53 pontos. A frieza dos números mostra que, com o desempenho de hoje, o Ibovespa interrompeu uma sequência de quatro sessões consecutivas no campo negativo. No entanto, as movimentações tímidas dos últimos dias chamam mais a atenção que a sucessão de baixas.
Na última segunda-feira (15), por exemplo, o índice teve queda de 0,10% e, ontem, o recuo foi de 0,03%. Assim, o Ibovespa permanece praticamente parado no acumulado desta semana: o saldo, após três pregões, está negativo em 0,05%.
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E o que explica essa apatia? Por um lado, há a calmaria no front local, já que, às vésperas do início do recesso do Congresso, há poucas novidades no cenário político e na tramitação da reforma da Previdência. Sendo assim, ganham espaço os fatores externos — só que, lá fora, o clima é de cautela e prudência.
No exterior, os agentes financeiros seguem aguardando eventuais novidades em relação à guerra comercial entre Estados Unidos e China. Além disso, há um segundo fator em stand by: a incerteza quanto ao futuro das taxas de juros dos EUA.
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Em linhas gerais, os mercados mostram-se confiantes quanto ao início de um processo de corte de juros no país por parte do Federal Reserve (Fed), o banco central americano. Só que os mais recentes dados da economia americana têm vindo mistos: ora mostram fraqueza, ora dão sinal de força.
E as próprias manifestações do Fed também têm sido pouco claras. Assim, apesar das apostas crescentes na redução dos juros, o mercado ainda diverge se o processo de ajuste negativo irá começar já na próxima reunião da instituição, no dia 31.
Assim, em meio a essa incerteza — e considerando que as bolsas americanas estavam nas máximas históricas —, o mercado assume uma postura de maior cautela lá fora. E essa prudência acaba respingando aqui.
Afinal, o Ibovespa também atingiu níveis inéditos recentemente. E, sem grandes fatores para continuar dando força ao índice, é melhor não disparar na frente como a lebre.
"Devagar e sempre se chega na frente", diz o Ibovespa. "Devagar e sempre".
Cautela no exterior
Desde o início do dia, os índices acionários de Nova York exibiam um viés negativo — e esse movimento ganhou força no meio da tarde, com a divulgação do chamado "Livro Bege", um relatório preparado pelo Fed com as considerações da instituição a respeito da economia do país.
Esse tom de cautela se deve às sinalizações dúbias emitidas pela instituição no documento. Entre outros pontos, o Fed cita os temores de um possível impacto negativo em função da guerra comercial, mas também diz que o mercado de trabalho está "apertado".
"O Livro Bege trouxe uma preocupação interessante do Fed em relação à guerra tarifária", diz um economista, citando ainda que o relatório deixou uma mensagem positiva acerca do desempenho da atividade do país na margem.
E essa percepção positiva da autoridade monetária americana a respeito da economia dos EUA gerou um ligeiro aumento na aversão ao risco no mercado acionário local, já que, nesse cenário, perde força a tese de que a instituição cortará juros já ao fim deste mês.
Assim, os índices de Nova York fecharam em queda: o Dow Jones recuou 0,42%, o S&P 500 teve baixa de 0,65% e o Nasdaq desvalorizou 0,46%, dando continuidade às perdas de ontem.
Esse movimento também influenciou o Ibovespa. No melhor momento do dia, o índice brasileiro chegou a subir 0,65%, aos 1034.453,09 pontos, mas perdeu força no fim da tarde. Por aqui, contudo, o sinal ainda ficou positivo no encerramento, num movimento de correção após as quatro baixas seguidas.
Dólar em queda no mundo
Os sinais do Livro Bege também repercutiram no mercado de câmbio. O dólar perdeu força em escala global, com os investidores optando por aumentar ligeiramente à exposição ao risco no segmento de câmbio, ao mesmo tempo que reduziram as posições em ações.
O dólar recuou ante as divisas fortes — o índice DXY, que mede o desempenho da moeda americana ante as principais divisas do mundo, teve queda em queda nesta quarta-feira — e em relação a maior parte das emergentes. Neste último grupo, estão inclusos o peso mexicano, o rublo russo, o peso colombiano e o dólar neozelandês.
Esse contexto global, assim, influenciou o comportamento do dólar à vista no Brasil, que fechou em baixa de 0,28%, a R$ 3,7604 — na mínima, a moeda americana bateu os R$ 3,7555 (-0,41%).
DIs flutuam
As curvas de juros seguiram a tendência dos demais ativos brasileiros e passaram o dia oscilando ao redor da estabilidade, com movimentos de ajuste pontuais. Na ponta curta, por exemplo, os DIs para janeiro de 2021 fecharam em alta de 5,56% para 5,58%; na longa, as curvas com vencimento em janeiro de 2023 avançaram de 6,37% para 6,38%, enquanto as para janeiro de 2025 permanecem inalteradas em 6,96%.
Hora de comprar?
As ações ON do Magazine Luiza (MGLU3) fecharam em alta de 4,44%, a R$ 244,39, e lideraram os ganhos do Ibovespa nesta quarta-feira, após o Bradesco BBI elevar a recomendação dos ativos para "outperform" (classificação acima de neutro). A instituição fixou preço-alvo de R$ 320 para os ativos ao fim de 2020.
Em relatório, o Bradesco BBI diz que o Magalu está bem posicionado para capturar o crescimento da "segunda onda" do e-commerce, que inclui produtos como vestuário, calçados e cosméticos.
Privatização no radar
Os ativos da Eletrobras também apareceram na ponta positiva do Ibovespa: as ações ON (ELET3) avançaram 3,99%, enquanto as PNBs (ELET6) subiram 3,88%. O mercado reage bem às notícias de que o governo prepara um novo projeto de lei para viabilizar a privatização da estatal.
A ideia é que a União perca o controle acionário da empresa, diminuindo sua participação dos atuais 60% para menos de 50%.
Commodities em baixa
O dia é negativo para o mercado de commodities: o minério de ferro fechou em queda de 0,72% na China, o petróleo Brent recuou 1,07% e o WTI desvalorizou 1,46%.
Nesse contexto, as ações de empresas ligadas às commodities tiveram uma sessão pressionada: Vale ON (VALE3) caiu 0,68%, CSN ON (CSNA3) recuou 1,87% e Gerdau PN (GGBR4) fechou em baixa de 1,22%. Entre os papéis da Petrobras, os ONs (PETR3) tiveram perda de 0,65%, enquanto os PNs (PETR4) desvalorizaram 0,54%.
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