O Ibovespa fechou em queda de 2%. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino
Com a ampla vantagem obtida pela chapa de oposição nas prévias das eleições na Argentina, uma espiral de aversão ao risco tomou conta dos mercados do país vizinho — e esse movimento contaminou os ativos brasileiros.

Tudo na Argentina parece estar carregado em dramaticidade.
A geografia é cheia de superlativos: picos cobertos de neve, cataratas, formações rochosas exóticas, planícies verdes e montanhas áridas se sucedem ao longo dos 2,78 milhões de quilômetros quadrados do território portenho. Há diversas Argentinas no pedaço de terra que vai de Ushuaia a Jujuy.
A música é igualmente teatral — eu não vou me meter a elencar os tangos mais tristes por não ter tanto conhecimento de causa. E, veja só, até o futebol é melodramático: basta olhar para a figura de Lionel Messi, o herói trágico que conquistou o mundo no Barcelona, mas que nunca conseguiu levar a seleção do país à glória.
É claro que, com um histórico desses, o mercado financeiro da Argentina só poderia ter uma reação dramática à surpresa com a prévia das eleições presidenciais no país: o Merval, principal índice acionário portenho, desabou mais de 35% somente nesta segunda-feira; o dólar decolou em relação ao peso argentino — no fim da tarde, a alta era de cerca de 15%.
E o caos que tomou conta dos mercados do país vizinho acabou contaminando as negociações por aqui: o Ibovespa fechou o pregão em forte queda de 2%, aos 101.915,22 pontos, e o dólar à vista terminou em alta de 1,09%, a R$ 3,9834. E olha que os ativos brasileiros se afastaram do momento de maior estresse.
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Na mínima do dia, o Ibovespa chegou a desabar 2,28%, aos 11.621,22 pontos, enquanto o dólar à vista bateu os R$ 4,0127 (+1,83%) — a maior cotação em termos intradiários desde 29 de maio.
É claro que toda essa aversão ao risco nos mercados brasileiros não foi causada apenas pela Argentina: lá fora, o dia foi de cautela em escala global, em meio à falta de alívio no front da guerra comercial entre EUA e China. Mas, por aqui, o pânico visto nos vizinhos serviu para dar uma pitada extra de cautela às negociações.
Drama no Teatro Colón
Na Argentina, a percepção era a de que a disputa entre o atual presidente, Mauricio Macri, e a chapa de oposição liderada por Alberto Fernández e Cristina Kirchner, estava equilibrada. As pesquisas de intenção de voto não mostravam amplas vantagens para nenhum dos dois lados, embora os mercados mostrassem-se otimistas em relação às chances de Macri — tanto que, na sexta-feira, o Merval subiu quase 8%.
No entanto, o resultado das prévias pegou os agentes financeiros de surpresa: não só Fernández saiu vitorioso dessa fase — ele obteve uma vantagem esmagadora, de cerca de 15 pontos — margem que muitos consideram irreversível até as eleições de fato, marcadas para outubro.
E, sem saber ao certo quais as diretrizes econômicas a serem adotadas pelos opositores, houve um movimento muito intenso de fuga dos ativos portenhos ao longo do dia. O dólar, por exemplo, chegou a disparar mais de 30% logo na abertura das negociações: no pior momento do dia, a moeda americana superou o nível de 60 pesos argentinos.
O dólar recou um pouco em relação às máximas, após o banco central da Argentina elevar a taxa de juros do país a 74%, numa tentativa de estancar o sangramento — neste fim de tarde, a alta era menos intensa, de (apenas!) 15%. Já o Merval manteve-se em queda livre e encerrou perto das mínimas.
E os ativos brasileiros acabaram sendo contagiados pelo caos nos mercados argentinos. Há um certo temor quanto aos possíveis desdobramentos da ascensão da oposição à Casa Rosada, mas economistas e analistas ponderam que, por aqui, a baixa acentuada do Ibovespa e a alta do dólar à vista se devem a um movimento de aversão ao risco em bloco.
Victor Cândido, economista-chefe da Journey Capital, pondera que as incertezas em relação ao cenário na Argentina fazem com que os investidores globais assumam uma postura mais defensiva em relação aos mercados emergentes como um todo, e não só em relação aos ativos portenhos.
"No ano passado, passamos por um estresse similar com a Argentina e a Turquia", destaca Cândido, lembrando da forte desvalorização cambial verificada nos dois países — ambos emergentes, assim como o Brasil.
Jefferson Luiz Rugik, diretor de câmbio da corretora Correparti, segue linha semelhante. Ele pondera que, por mais que as relações econômicas entre Brasil e Argentina sejam sólidas, a economia do país vizinho é bem menor — o que diminui os temores de um eventual baque a ser gerado para a atividade brasileira.
"Acontece que o Brasil fica na mesma cesta [de ativos] que a Argentina", diz Rugik. "O peso argentino é uma moeda emergente, e essa desvalorização forte de hoje acaba refletindo nas outras moedas com esse perfil".
Guerra cambial?
Além de toda a questão na Argentina, também houve o estresse dos mercados no front da guerra comercial. O Banco do Povo da China (PBoC, na sigla em inglês) voltou a desvalorizar o yuan ante o dólar nesta segunda-feira, mantendo elevadas as preocupações dos agentes financeiros quanto a uma guerra cambial entre Pequim e Washington.
Em meio ao clima ainda nebuloso entre as duas potências, os mercados mostram-se cada vez mais preocupados em relação a uma desaceleração ainda mais intensa da economia mundial. E, nesse cenário, o Dow Jones (-1,49%), o S&P 500 (-1,23%) e o Nasdaq (-1,20%) também tiveram perdas expressivas.
No mercado de moedas, houve uma fuga coordenada das divisas de países emergentes e exportadores de commodities — o que gerou a desvalorização desses ativos e um fortalecimento do dólar em escala global.
Nesse grupo, estiveram inclusos o peso mexicano, o rublo russo, o peso colombiano, o rand sul-africano e o peso chileno — além, é claro, do peso argentino. O real, assim, seguiu esse contexto mundial.
Por fim, o mercado de commodities é outro que sentiu o peso da aversão ao risco: o minério de ferro caiu 3,2% no porto chinês de Dalian nesta segunda-feira, enquanto o petróleo — tanto o Brent quanto o WTI — ficou da estabilidade.
Juros em alta
A curva de juros acompanhou a correção do dólar e fechou em alta, tanto na ponta curta quanto na longa. E isso mesmo após os mais recentes dados de atividade no Brasil mostrarem que a economia local segue fraca, o que abre espaço para novos movimentos de corte na Selic.
Na ponta mais curta, os DIs com vencimento em janeiro de 2021 subiram de 5,38% para 5,40%. No vértice longo, as curvas para janeiro de 2023 avançaram de 6,35% para 6,39%, e as com vencimento em janeiro de 2025 foram de 6,85% para 6,88%.
Por aqui, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) apontou queda de 0,13% no segundo trimestre em relação aos três primeiros meses do ano, um indicativo de que a economia local segue fraca.
Além disso, o boletim Focus voltou a apontar queda nas projeções para o PIB em 2019: agora, os economistas esperam um avanço de 0,81% no indicador, ante uma estimativa de 0,82% na semana passada.
Aéreas sob pressão
As companhias aéreas Gol e Azul apareceram entre os destaques negativos do Ibovespa nesta segunda-feira, pressionadas pela forte alta do dólar. Vale lembrar que o querosene de aviação, uma das principais componentes da linha de custos dessas empresas, depende da cotação da moeda americana e do petróleo.
Nesse contexto, os papéis PN da Gol (GOLL4) caíram 7,20% e tiveram o pior desempenho do índice. Já Azul PN (AZUL4) teve perdas menos intensas, de 2,11%.
Blue chips caem
Em meio à forte aversão global ao risco, as chamadas blue chips do Ibovespa — ou seja, as ações de grande liquidez e que costumam concentrar a atuação dos investidores estrangeiros — apareceram todas no campo negativo, o que se traduziu em pressão ao índice.
Nesse grupo, os bancos apresentaram um desempenho particularmente ruim, em especial Itaú Unibanco PN (ITUB4), que caiu 4,14%. As ações do Bradesco também recuaram forte: os papéis PN (BBDC4) tiveram perda de 2,09% e os ONs (BBDC3) desvalorizaram 2,34%. Banco do Brasil ON (BBAS3), por sua vez, fecharam com baixa de 3,39%.
Entre as mineradoras e siderúrgicas, Gerdau PN (GGBR4) recuou 2,71%, CSN ON (CSNA3) caiu 0,89% e Usiminas PNA (USIM5) teve perda de 1,73% — Vale ON (VALE3) terminou com queda de 0,73%. Tais papéis são afetados pela forte baixa no minério de ferro e pelas incertezas ligadas à China, grande consumidor global da commodity e de aço.
Por fim, Petrobras PN (PETR4) e Petrobras ON (PETR3) recuam 2,40% e 2,69%, respectivamente, descolando do petróleo, que ficou perto do zero a zero nesta segunda-feira.
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