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Luciana Seabra
Advogada do Investidor
Luciana Seabra
É CFP®, especialista em fundos de investimento e sócia da Empiricus
Dados da Bolsa por TradingView
2019-07-04T08:44:12-03:00
Advogada do investidor

Meu ETF de Ibovespa favorito

Mercado que andava adormecido, de um mês para cá virou um agito só. Para que você não se perca em meio à concorrência, fizemos uma varredura da oferta

4 de julho de 2019
5:58 - atualizado às 8:44
B3
Imagem: Shutterstock

Se uma única estátua fosse erguida para homenagear o americano que mais fez pelos investidores, de quem ela deveria ser? Você respondeu Warren Buffett? Pois o megainvestidor mesmo disse que ela deveria representar outra pessoa: Jack Bogle.

Bogle, falecido em janeiro deste ano, deixou de legado os estudos que fundamentaram os fundos passivos, produtos baratos que reproduzem os índices de mercado. E viveu para vê-los acumular cerca de 7 trilhões de dólares em ativos no mundo todo.

Se você acompanha esta newsletter há tempos, sabe que eu ainda prefiro, pelo menos para a Bolsa brasileira, a gestão ativa à passiva. Ou seja, prefiro delegar a um gestor disciplinado e dedicado a seleção de 10 a 20 ações para investir a comprar a cesta inteira do Ibovespa.

E já mostrei aqui mais de uma vez que, historicamente, os gestores brasileiros ativos superam o Ibovespa na média, mesmo se considerado o viés de sobrevivência. Pode ser porque o índice era pior no passado, pode ser por um motivo que não estou vendo, mas os dados ainda me mostram a vantagem da gestão ativa.

Difícil pra mim preferir um ETF, fundo indexado listado em Bolsa, quando vejo uma gestora como a Brasil Capital entregar mais de 1.000 por cento de retorno na última década, enquanto o Ibovespa mostrava apenas 147 por cento (apenas para citar um fundo que segue aberto).

Dito isso, não tenho como fechar os olhos para autoridades como Buffett e Bogle. Para um investidor que não tem qualquer acesso à informação de qualidade para selecionar fundos, concordo que a melhor ferramenta para acessar a Bolsa é o ETF.

Pois bem, você deve ter visto que esse mercado, que andava adormecido, de um mês para cá virou um agito só. Para que você não se perca em meio à concorrência dos gigantes, fizemos uma varredura da oferta.

O mais importante, para começar, é você saber que não basta observar a taxa de administração. Sim, os mais baratos saem na vantagem: como o objetivo desses fundos é replicar o Ibovespa, não faz sentido cobrarem caro.

Olhar para a taxa, entretanto, não basta – e aí é que está o segredo da avaliação de um ETF.

Um fundo passivo pode ser mais barato do que os demais e render menos. Como é, por definição, um investidor de longo prazo em muitos papéis, o ETF pode auferir uma boa receita alugando uma parte deles a investidores que desejam montar posições vendidas.

Então, você deveria esperar que o ETF rendesse menos do que o índice, já que ele compra todas as ações e desconta a taxa, certo? É o aluguel que permite ao BOVV11, o ETF de Ibovespa do Itaú, entregar 14,89 por cento neste ano, um pouco acima dos 14,88 por cento do Ibovespa, mesmo depois de descontada a taxa de administração de 0,3 por cento ao ano.

Até aqui, o BOVV11 é o melhor instrumento para ficar indexado ao principal índice da Bolsa brasileira. Você pode conferir com seus próprios olhos: o BOVA11, ETF da BlackRock, com 0,54 por cento de taxa, rende 14,70 por cento no ano. E o da Caixa, com seu 0,5 por cento de custo, ganha 14,57 por cento.

A disputa estava óbvia até poucos dias atrás, quando a BlackRock empatou sua taxa com a do Itaú, em 0,3 por cento ao ano. E o Bradesco lançou o BOVB11, com seus 0,2 por cento ao ano, mais barato do que os dois já existentes. Somente o produto da Caixa ficou para trás, comendo poeira.

E agora? Com taxas tão próximas, o jeito é observar a capacidade de geração de receita com aluguel. Os gestores definem o máximo do patrimônio do fundo que podem dispor dessa forma no regulamento do fundo e esse já é um bom parâmetro. O mais importante, entretanto, é ver o quanto eles alugam na prática.

Itaú e Bradesco podem alugar até 70 por cento do patrimônio. Mas, na prática, no BOVV11, o Itaú doa historicamente cerca de 25 por cento da carteira. O produto do Bradesco é jovem demais para que saibamos qual será a prática. A BlackRock aumentou, na semana passada, o quanto pode doar de 30 para 40 por cento, mas historicamente fica entre 10 e 15 por cento.

Então, mais importante do que saber os limites permitidos é acompanhar o quanto os gestores têm de receita com aluguel na prática.

Para completar a brincadeira, o BTG lançou em março um fundo indexado ao Ibovespa com taxa 0,15 por cento ao ano – e, portanto, mais barato do que os ETFs, até mesmo o do Bradesco – e possibilidade de doar até 100 por cento da carteira.

O retorno, até aqui, do produto do BTG, seja por custos fixos, seja por aluguel na prática, tem ficado um pouco aquém do BOVV11. Mas a gestora baixou nesta semana a taxa a 0,14 por cento ao ano e já anunciou que pretende fazer novos cortes à medida que o patrimônio do fundo aumentar (nos moldes do que fez com o Tesouro Selic Simples).

Por enquanto, fico com o que meus olhos podem ver: o meu indexado ao Ibovespa favorito segue o BOVV11, até que me provem o contrário.

Mas estou preparada para mudar de opinião a qualquer momento. Nos próximos meses, vamos acompanhar de perto como os gestores se diferenciam em termos de capacidade de aluguel de ações. Surpreendam-nos!

Cota cheia

Um brinde ao aquecimento do mercado de ETFs! Os maiores beneficiados com a disputa por preço somos nós, investidores.

Se você conhece o mercado global, talvez siga insatisfeito com o patamar de taxas cobradas por esses produtos no Brasil, entre 0,15 e 0,3 por cento. Nos EUA, a disputa já corre na segunda casa decimal. BlackRock, Fidelity, Schwab e Vanguard oferecem fundos indexados com taxa zero ou perto disso.

Bom dizer, entretanto, que não estamos tão atrasados quanto parece. Isso porque, no mercado americano, os gestores de ETFs podem se apropriar de parte da receita do aluguel. E, segundo um levantamento da Morningstar, a receita retida chega a 30 por cento em alguns produtos.

Ou seja, um ETF de taxa zero lá fora não implica que a gestora esteja fazendo caridade. Ela, na verdade, pode ser remunerada com uma parte da receita obtida com a doação de ações – o que é até interessante, porque o gestor precisa trabalhar para ser remunerado.

Aqui no Brasil, porém, como se apropriar de uma parte da receita com aluguel é proibido (pelo menos até o momento), tudo precisa ser repassado ao cotista. Apesar de ser mais visível, pagar taxa de administração pode até sair mais barato do que rachar a receita com aluguel.

Cota murcha

Enquanto a disputa nos ETFs acontece em torno do 0,15 a 0,3 por cento ao ano, os bancos ainda têm fundos indexados absurdamente caros.

Dentre os classificados como indexados na Anbima, o campeão às avessas é o Caixa Ibovespa, com taxa de 4 por cento ao ano! Ele vem acompanhado do Bradesco Indexado, com 3,5 por cento, e do Santander Índice Bovespa, com 3 por cento. Só para falar dos piores.

Se você é cotista de um deles, passou da hora de trocar. Vá de BOVV11, BOVA11, BOVB11, BTG Indexado, do que quiser... De todo jeito, você estará muito melhor do que nesse fundo caro aí, fazendo exatamente a mesma coisa: perseguindo o Ibovespa.

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