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Angela Bittencourt
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Angela Bittencourt
é jornalista e editora da Empiricus
2019-03-19T13:13:56-03:00
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O DNA da bolsa brasileira: poder, risco e muita grana na instituição que segue os sinais da economia brasileira

Expectativas para a economia brasileira são formadas de várias maneiras – para o bem e para o mal –, mas é o mercado financeiro que melhor antecipa e demonstra essas expectativas.

19 de março de 2019
13:09 - atualizado às 13:13
Sede da B3, no centro de São Paulo
Sede da B3, no centro de São Paulo - Imagem: shutterstock

A Bolsa brasileira ensaia a consolidação de 100 mil pontos como o novo patamar para negociação do seu principal índice, o Ibovespa. A marca foi ultrapassada ontem no melhor momento do pregão. Nesta terça, já teve reprise. A alta dos preços das commodities no exterior embalou as ações da Petrobras e Vale na primeira esticada do Ibovespa. Informação divulgada hoje pelo jornal O Globo, de que o governo pretende pagar cerca de R$ 35 bilhões à Petrobras em renegociação do acordo sobre exploração de petróleo em blocos do pré-sal, é mais um fator de alta para a estatal.

Contudo, a mesma informação autoriza uma segunda interpretação: sem equacionar essa pendência com a Petrobras, o governo terá dificuldade em promover o leilão de áreas do pré-sal que pode render estimados R$ 100 bilhões este ano. E esse leilão importa porque parte desses R$ 100 bilhões ficarão no caixa do governo e ajudarão a fechar as contas públicas este ano.

A história parece enrolada e é mesmo! Ela traz à tona a real preocupação dos investidores, principalmente os estrangeiros, quanto às contas do governo brasileiro. E, nesse cenário, você sabe, a Previdência é a atriz principal.

Uma solução para a mega deficitária Previdência Social é importante, até vital, para a economia brasileira que não decola, apesar da inflação jogar a favor há muitos meses.

Expectativas para a economia brasileira são formadas de várias maneiras – para o bem e para o mal –, mas é o mercado financeiro que melhor antecipa e demonstra essas expectativas. Os mercados futuros de ativos financeiros, como juro, dólar e Ibovespa, são instrumentos que ajudam o governo e os investidores (claro!) a tomarem decisões, inclusive, as necessárias para colocar a economia em marcha.

Se engana quem pensa que contratos futuros, negociados no segmento da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), da B3, são um bicho de sete cabeças.

Uma dica: pense menos nos números e mais no que eles significam em tendência, volume, magnitude.

As operações ou negócios realizados na BM&F podem mostrar se, lá adiante, teremos uma inflação mais baixa ou mais alta, se o Banco Central poderá aumentar ou reduzir a taxa Selic ou, ainda, se os investidores estrangeiros estão animados com o Brasil e poderão trazer mais dinheiro para montar negócios, comprar empresas ou fazer turismo. Uma alternativa nada boa para o país é se, decepcionados ou frustrados com a reforma da Previdência, eles decidirem pegar seu dinheiro e levar para casa.

O Ibovespa Futuro, por exemplo, nos ajuda a perceber se as expectativas são melhores ou piores para as empresas. E, você sabe, empresas produzem e/ou vendem produtos e serviços e empregam trabalhadores. O desempenho das empresas pode indicar, por sua vez, se os consumidores estão com mais ou com menos dinheiro na mão. E até mesmo se o governo está se intrometendo no negócio delas.

Muito além dos números

O mercado futuro de juros ou de contratos de depósito interfinanceiro (DI) é o maior do país, mas a história da BM&F vai muito além e envolve gente, dinheiro, sonhos, muito trabalho e competição. Eu conto melhor a história dessa instituição e seus produtos neste texto.

Apesar da importância dos mercados futuros na história econômica recente do Brasil, não existe uma farta bibliografia disponível sobre esse assunto. A principal referência é o livro “BM&F, a história do mercado futuro no Brasil”, lançado, em 1996, pelos jornalistas Alcides Ferreira e Nilton Horita.

A BM&F foi criada em 1986 e acompanhei com real interesse o crescimento dos negócios ao longo dos anos. Primeiro, como repórter do jornal Gazeta Mercantil. Nos anos seguintes, como editora ou colunista na Agência Estado/Broadcast, no jornal O Estado de S.Paulo, na agência Reuters e no Valor Econômico. Em 2008, 2009 e início de 2010, quando trabalhei no Banco Central, segui com outros olhos a Bolsa e todo o esforço empreendido para manter a normalidade nos mercados, enquanto em vários países do mundo prevalecia o caos.

Foram muitos anos de aprendizado que hoje percebo ter grande utilidade para alertar você sobre alguns riscos que a economia oferece, dependendo de como ela anda.

Ao contrário do que muitos analistas supõem, não foi o crescimento dos mercados futuros de juros em grandes economias, nos anos 1980 e 1990, o principal estímulo para que um grupo de corretores brasileiros – liderados pelo então presidente da Bovespa Eduardo da Rocha Azevedo – encarasse o desafio de montar uma bolsa de futuros de ativos financeiros.

Na década de 1980, havia forte competição entre a Bovespa e a BVRJ (Bolsa de Valores do Rio de Janeiro), embora o mercado de ações fosse pequeno comparado ao que é hoje. A supremacia da Bolsa carioca em volume de negócios (graças à listagem das “blue chips” e contratos de opções) e o desafio que impunha à Bolsa de São Paulo foi decisiva para que corretores de valores mobiliários, empresários e banqueiros investissem tempo e dinheiro para “trazer volume” para a capital paulista.

“Essa competição entre as Bolsas de Valores brasileiras tornou estratégica a criação da BM&F, embora já existisse, no Rio, a Bolsa Brasileira de Futuros (BBF). Os estudos para a criação da BM&F começaram em 1982. E ninguém pensava, naquele momento, que o Brasil era o país do futuro ou que não se dispunha de meios adequados de contabilização de mercadorias. Nada disso. Havia, sim, muita disposição para tornar São Paulo o centro de negócios financeiros do país”, contou ao Seu Dinheiro o especialista em gestão de risco e “compliance” Verdi Rosa Monteiro.

O executivo, hoje consultor de grandes empresas, desempenhou várias funções na BM&F. Foi chefe do escritório no Rio, gerente técnico, diretor-adjunto de administração de risco, diretor de projetos, diretor de desenvolvimento e fomento e atuou diretamente, nos últimos anos, na Clearing de Câmbio, também um segmento da B3.

Verdi reconhece que aspectos macroeconômicos contribuíram para o desenvolvimento do projeto de criação da Bolsa de futuros. “A BM&F foi lançada em 1986 e a história econômica mostrou que o momento não poderia ter sido melhor. Haviam restrições para se obter crédito no exterior. O Brasil fazia parte do grupo de mercados emergentes. Nesse sentido, criar instrumentos domésticos para garantir recursos mostrou se oportuno e até necessário. A dívida interna do governo era gigantesca. E, nossa inflação, fora de série”, recorda Verdi.

Ele afirma que a BM&F estreou em um cenário de grande incerteza. “O primeiro pregão abriu em janeiro de 1986 e, em fevereiro, o governo Sarney lançou o Plano Cruzado que foi a primeira tentativa de estabilização econômica do Brasil. Nos anos seguintes, foram lançados o Plano Bresser em 1987, o Plano Verão em 1989, o Plano Collor I em 1990, o Plano Collor II em 1991 e o Plano Real em 1994.”

Verdi tem claro na memória o primeiro “corner” de dinheiro vivido pelo mercado brasileiro. Foi em 1990, quando o governo Collor decretou feriado bancário por três dias e mudou a denominação da moeda. Os contratos futuros da BM&F previam que a liquidação financeira das operações ocorreria no primeiro dia útil subsequente a eventuais feriados bancários.

“Às vésperas do Plano Collor, o mercado inteiro tinha se posicionado em contratos de opções de ouro, que faziam o papel de dólar naquele momento em que o dólar era negociado apenas no mercado paralelo, e não havia meios de se liquidar operações no pós-feriado, quando o preço do ouro caiu à metade. No Plano Collor II o episódio se repetiu em função do confisco da poupança. Frente a tudo isso, o Plano real, em 1994, foi muito tranquilo”, diz Verdi.

Ele lembra que, em 1994, o Plano Real previa uma unidade de pagamento intermediária entre a velha e a nova moeda, a URV, que evitou novos problemas.

“Convertemos todos os contratos da BM&F para URV e, depois, para o Real. Mas períodos ainda mais difíceis viriam com as crises do México, da Rússia e da Ásia. O Brasil passou a ser visto como um risco global assim como outras economias emergentes. Tivemos a maxidesvalorização em 1999 e arrancadas da taxa básica de juro, hoje a Selic. Imagine o esforço da BM&F para testar cenários de risco em que o mercado poderia quebrar. Esses testes foram acompanhados por especialistas de bancos estrangeiros e instituições bilaterais que precisavam ter certeza de que o mercado e o sistema bancário brasileiros eram consistentes, sólidos”, finaliza nosso entrevistado.

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