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Julia Wiltgen

Julia Wiltgen

Jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com pós-graduação em Finanças Corporativas e Investment Banking pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Trabalhou com produção de reportagem na TV Globo e foi editora de finanças pessoais de Exame.com, na Editora Abril. Hoje é editora-chefe do Seu Dinheiro.

sobe ou desce?

Dólar a R$ 4 é o novo normal?

Os R$ 4 são um novo patamar para a moeda americana, dado o ambiente internacional? Cotação pode cair depois das eleições ou vai disparar ainda mais? Eu trago essas respostas pra você

Julia Wiltgen
Julia Wiltgen
26 de setembro de 2018
6:02 - atualizado às 15:56
Moeda americana a R$ 4 pode ser o novo normal se próximo presidente não se comprometer em sanar problemas fiscais -

Neste cenário tão polarizado quanto o nosso Brasil pós-junho de 2013, poucas coisas unem os brasileiros como a criação de memes, a torcida na Copa do Mundo e o dólar a R$ 4.

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Sempre que a moeda americana se aproxima desse patamar ou o ultrapassa, sua cotação ganha destaque na imprensa e vira assunto nas mesas de bar e redes sociais. Até quem não costuma acompanhar o noticiário econômico e não tem muita clareza sobre o que afeta a cotação do dólar entra na dança.

Outro dia, uma amiga postou este #tbt no Stories dela no Instagram:

Print de stories do Instagram com meme sobre o dólar

Esse frame de um Jornal Nacional de 1994 ressuscita nas redes sociais quando o brasileiro fica assustado com a alta do dólar. Detalhe que a minha amiga em questão tinha três anos na época -e, certamente, não tem muito como sentir saudades de fato. Os tempos eram outros. Mas vale pela piada.

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Os R$ 4 são uma espécie de barreira psicológica para a cotação da moeda americana. Desde a implantação do Real, em 1994, dólar a 4 reais só ocorreu em três momentos:

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  1. em outubro de 2002;
  2. entre setembro de 2015 e fevereiro de 2016;
  3. e de agosto para cá.

A gente bem sabe que boa parte do movimento atual da moeda americana se deve às tensões pré-eleitorais.

Mas também sabemos que outra parte desse movimento é explicado por fatores externos, notadamente a recuperação da economia americana e as perspectivas de novas elevações nas taxas de juros nos Estados Unidos.

Como o dólar tem fechado consistentemente acima de R$ 4 dia após dia, ficam os questionamentos: será que, desta vez, o dólar a 4 reais é o novo normal e a moeda americana vai estacionar neste patamar por algum tempo? Quanto dessa alta se deve às eleições e quanto se deve aos fatores externos?

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Dólar a 4 reais se deve mais à incerteza eleitoral

Uma outra amiga minha – que por acaso também tinha apenas três anos em 1994 – queria pedir para um parente trazer dos Estados Unidos um notebook da Apple, justo quando o dólar estava em R$ 4,20. Mas em vez de cometer suicídio financeiro comprando um Mac com o dólar mais caro da história, ela resolveu esperar por uma nova oportunidade depois das eleições.

Mas e se for pior? E se o dólar for a R$ 5, como nas projeções mais pessimistas de alguns analistas? Bom, por ora o mercado não espera nada tão apocalíptico.

Tais números sugerem que os economistas que fazem essas projeções acreditam mesmo que a principal razão para o dólar a 4 reais é o risco eleitoral. Mas repare que o mercado também espera que o dólar se mantenha, nos próximos anos, mais próximo de R$ 4 do que de R$ 3. Houve sim uma mudança de patamar.

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“Esse dólar a R$ 4,15, R$ 4,20 sem sombra de dúvidas é mais devido a fatores internos por conta das incertezas eleitorais, que aumentaram o risco do país”, diz Marcel Balassiano, pesquisador sênior do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (IBRE/FGV).

O professor fez um estudo sobre o comportamento do dólar em todos os anos de eleições presidenciais no Brasil desde 2002 (em eleições anteriores, o câmbio ainda não era flutuante). Ele mostra como em anos de eleição presidencial a volatilidade dos mercados aumenta. Quanto mais incerta e acirrada a disputa, mais o dólar sobe, pois aumenta também o risco do país.

Um olhar sobre o passado e o presente

A primeira vez em que tivemos dólar a 4 reais foi em outubro de 2002, véspera da primeira eleição do Lula. O mercado temia que a chegada do PT ao poder levasse a uma ruptura com a política econômica anterior, levando ao fim da estabilidade do país.

A moeda americana valorizou mais de 50% naquele ano. Mas à medida em que o novo governo foi sinalizando de que tal ruptura não ocorreria, a cotação do dólar foi caindo.

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Em 2014, ano da segunda eleição de Dilma, não tivemos dólar a 4 reais, mas a moeda também viu certa volatilidade e se valorizou 12,5%. A disputa entre PT e PSDB foi muito polarizada e acirradíssima, enquanto o Brasil entrava numa recessão daquelas.

A situação atual, porém, é um pouco diferente. Até agora, vimos o dólar saltar quase 25%, a partir de um patamar de R$ 3,20 no início do ano. A disputa de 2018 ainda está indefinida, mas mais que isso: do ponto de vista econômico, não sabemos muito bem o que esperar de nenhum dos três candidatos que lideram as pesquisas.

“Agora estamos com a economia pior, principalmente na parte fiscal. Depois de 16 anos de superávit primário, passamos a ter déficit primário desde 2014, e as projeções mostram que isso deve continuar até 2020. A dívida bruta subiu muito. Estamos nos recuperando da pior recessão da história. Mas há muita incerteza, não sabemos quem vai ser eleito e nem como será a política econômica do próximo governo”, diz Balassiano.

Além do professor Balassiano, alguns analistas que figuram no top 5 do Boletim Focus do Banco Central para câmbio (traduzindo: os caras que mais acertam), também acreditam que o fator eleições é o que mais está pesando para manter o dólar a 4 reais.

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Esta é a opinião de Bruno Lavieri, economista da 4E consultoria, com quem meu colega Eduardo Campos, repórter especial do Seu Dinheiro, bateu um papo na semana passada. Também é o que pensa o economista Silvio Campos Neto, sócio da Tendências Consultoria, que me disse que essa alta desde agosto está muito associada à incerteza política.

Mas e o exterior?

Sem dúvida, o cenário externo contribuiu para a alta do dólar neste ano. Independentemente da questão eleitoral, o dólar provavelmente teria subido de qualquer forma.

“No início do ano, quando o câmbio estava no patamar de R$ 3,20, houve uma mudança no ambiente internacional. O Banco Central chegou a manifestar que o cenário era desfavorável e desafiador. As moedas da maior parte dos emergentes se desvalorizaram”, explicou Marcel Balassiano.

O dólar teve razões para se valorizar, Brasil à parte. Primeiro que a economia americana vem mostrando sinais mais fortes de recuperação. Com isso, o Fed aumentou as taxas de juros duas vezes neste ano e sinaliza querer novas altas.

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Quando os juros sobem, os títulos públicos do país se tornam mais atrativos, e os investidores tendem a correr para eles, valorizando o dólar.

Esse movimento de alta gradual dos juros americanos começou em 2015, justamente o ano em que a "barreira" do dólar a 4 reais foi rompida pela primeira vez. Este, por sinal, foi um dos fatores que contribuíram para a valorização da moeda americana na época, mas a economia dos EUA, naquele momento, apenas começava a se recuperar.

Outro fator internacional que anda pesando na cotação do dólar atualmente é a guerra comercial que Trump travou contra a China, cujos desdobramentos ainda são bastante incertos.

Para completar, as moedas de países emergentes também andaram apanhando um pouco por conta de uma forte desvalorização das moedas turca e argentina. E quando moedas emergentes apanham, o efeito contágio para outras economias de estágio semelhante de desenvolvimento é muito forte.

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“O câmbio do início do ano dificilmente vai voltar no curto prazo, porque mesmo que a gente tivesse um cenário interno superpositivo e estivesse tranquilo quanto ao que vai acontecer, o dólar já está num patamar mais alto só pelas mudanças externas”, me explicou Balassiano, que acredita que um patamar de R$ 3,90 para o fim do ano, como estima o Focus, já seria bastante positivo neste contexto.

Então depois das eleições o dólar cai pelo menos um pouco?

Então… não necessariamente. Aliás, pelas projeções atuais, provavelmente não. É aí que mora o grande porém da história. Todo mundo com quem eu e o Edu Campos conversamos acredita que a incerteza eleitoral não é apenas em relação a quem vai ganhar, mas também a qual seria a política econômica adotada. Porque por mais que os candidatos mais bem cotados tenham histórico, eles mostram um posicionamento pouco claro ou ambíguo em relação à Economia.

“O cenário internacional está mais desafiador, mas no fundo, para países emergentes com fundamentos positivos, não há maiores problemas. Quem tem mais fragilidade, como Argentina e Turquia, está sentindo mais. Mas dependendo do desfecho do quadro eleitoral, podemos retornar a níveis mais baixos [para o dólar] ou reforçar o nível atual”, me disse Silvio Campos Neto, da Tendências.

Em outras palavras, o dólar a 4 reais pode ser o novo normal, dependendo de quem ganhar e da política econômica adotada.

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A questão é que a escolha de um novo presidente não resolve os nossos problemas de descontrole fiscal, necessidade de reformas (especialmente a da previdência), e baixo crescimento econômico.

Primeiro, precisamos saber qual de fato será a política econômica do novo presidente. Segundo, ele precisa ter bom relacionamento com o Congresso, porque presidente isolado no Brasil não apita nada. E terceiro - e isso a gente só vai saber mais para frente - precisamos saber se o presidente vai deixar a equipe econômica trabalhar ou se vai ficar batendo de frente.

Em resumo, há sim espaço para o dólar subir mais nos próximos anos, caso o novo presidente não siga uma agenda econômica preocupada com nossos problemas internos, o que, convenhamos, é um risco para os três postulantes ao cargo que lideram as pesquisas. Mas, conforme você vê a seguir, o mercado acredita que Haddad e Ciro são os que mais têm chance de manter o patamar de dólar a 4 reais.

Para onde vai o dólar com cada candidato

Geraldo Alckmin seria o preferido do mercado, pois há clareza quanto à sua linha mais reformista e liberal. Para Silvio Campos Neto, da Tendências, uma vitória do psdbista levaria o dólar rapidamente de volta aos R$ 3,60. Mas parece mesmo que o ex-governador de São Paulo é carta fora do baralho, então melhor nem contar com isso.

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Na esfera do possível, temos as seguintes projeções para quem de fato está no páreo, por ora:

Jair Bolsonaro

Até agora, visto como “menos pior” pelo mercado. Indicaria para a Fazenda Paulo Guedes, economista ortodoxo e liberal, o que demonstra um viés reformista e preocupação com a parte fiscal. O candidato também tem o benefício da dúvida, pois nunca ocupou cargo executivo e seu partido nunca esteve na Presidência.

A dúvida do mercado é se Bolsonaro deixaria Paulo Guedes trabalhar ou se acabaria sendo autoritário e retornando ao seu histórico corporativista como parlamentar. Recentemente, o candidato desautorizou seu economista quanto à criação de um novo imposto similar à antiga CPMF.

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Projeções para o dólar:
Tendências - R$ 3,85 no fim de 2018. Média do mandato de quatro anos: R$ 3,90 a R$ 4.
4E - R$ 3,90 no fim de 2018.
Ambas as consultorias esperam, no entanto, forte volatilidade do câmbio para 2019, por conta do risco de a política econômica proposta não ser colocada em prática.

Fernando Haddad

Uma eventual vitória de Haddad aumentaria as incertezas e poderia desvalorizar ainda mais o real. O mercado teme o retorno de uma política econômica baseada em gastos públicos, o que agravaria ainda mais nossa crise fiscal, além das reversões das reformas já feitas. Há ainda o temor de que a Reforma da Previdência seja deixada de lado. Por outro lado, Haddad já tem começado a mostrar uma postura mais moderada em relação à economia.

O problema de Haddad é credibilidade. O PT tem na conta a recessão iniciada no governo Dilma. Além disso, tanto a postura de Haddad quanto o histórico do PT são ambíguos. Não se sabe se ele seria um Lula no primeiro governo ou uma Dilma. Se a equipe econômica tiver nomes mais heterodoxos, o dólar deve disparar ainda mais, podendo chegar a R$ 5. Caso siga uma linha mais próxima da ortodoxia, o risco é menor.

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“Que ele vai tentar uma via mais moderada é inevitável. A realidade se impõe. Mas há um déficit de credibilidade grande. Teria que haver uma guinada de discurso e de ação, com o PT assumindo erros, e por enquanto não vemos nada firme nesta direção”, diz Campos Neto, da Tendências.

Projeções para o dólar:
Tendências - R$ 4,35 no fim de 2018. Média do mandato de quatro anos: R$ 4,50.
4E - R$ 4,30 a R$ 4,40 no fim de 2018.

Ciro Gomes

Ciro Gomes também deve fazer o dólar disparar. A ambiguidade em torno dele divide até a opinião dos economistas.

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Para a Tendências, Ciro é menos arriscado que Haddad, pois já demonstrou, via assessores econômicos, alguma preocupação com a situação fiscal. Já para a 4E, o pdtista é o mais arriscado, pois é visto como o “mais radical” e com menor probabilidade de fazer ajuste fiscal.

Projeções para o dólar:
Tendências - R$ 4,27 no fim de 2018. Média do mandato de quatro anos: R$ 4,40.
4E - R$ 4,50 a R$ 4,60 no fim de 2018.

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