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Eduardo Campos
Eduardo Campos
Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo e Master In Business Economics (Ceabe) pela FGV. Cobre mercado financeiro desde 2003, com passagens pelo InvestNews/Gazeta Mercantil e Valor Econômico cobrindo mercados de juros, câmbio e bolsa de valores. Há 6 anos em Brasília, cobre Banco Central e Ministério da Fazenda.
Câmbio

Uma volta na Europa evidencia nossa miséria cambial

Quando a incerteza prevalece, fundamento vale (quase) zero

26 de setembro de 2018
6:01 - atualizado às 23:17
Torre Eiffel, em Paris -

Não por gosto, mas por necessidade, estive na Europa faz duas semanas. Digo por necessidade, pois por mais que viajar seja bom, com euro a R$ 5 nem a máxima “quem converte não se diverte” se aplica. Um café expresso a R$ 15. Desavisado, pedi uma água com gás, em Paris, a R$ 35. Mas o ápice da miséria cambial foram dois lanches completos no McDonald’s a módicos R$ 125!

Tudo bem que a economia está em recessão, que temos graves problemas fiscais a serem resolvidos e outras tantas mazelas. Mas fica difícil achar razões fundamentais para tamanha disparidade de preços para produtos triviais. Há superávit comercial, há sobra de dólares no mercado à vista, o Banco Central está sentado em US$ 380 bilhões de reservas cambiais, o déficit externo é baixo e facilmente financiado pelo investimento externo.

Pode até parecer clichê ou preguiça intelectual, mas quando a incerteza prevalece, pouco importa quão bom sejam os seus “fundamentos”. E a incerteza da nossa parte vem da eleição e qual será o rumo de política econômica adotado.

Não bastasse o vetor local há questões internacionais que também deixam os chamados emergentes mais fragilizados. Notadamente ajuste da política monetária nos Estados Unidos e desdobramentos da guerra comercial.

Quando o mercado não consegue enxergar ou atribuir uma relação de preço x probabilidade aos eventos futuros, uma antiga máxima entra em ação: “na dúvida, compre dólar!”. E isso pode servir para qualquer um, inclusive para mim e para você, já que em períodos de incerteza, seja local ou doméstica, o dólar invariavelmente sobe.

Depois é que surgem as explicações e ponderações que podem acalmar os ânimos. E mais, a definição da eleição pode não ser o ponto final. Dependendo do resultado a incerteza será: o que esse presidente vai fazer?

Há algo fora do lugar

O que é perceptível é que tem algo fora do lugar no preço do dólar ou do euro. Ao comentar a triste experiência monetária europeia no bar, um amigo prontamente respondeu. “Então já subiu demais, está na hora de vender dólar/euro”.

Essa visão de "algo errado" também pode ser extraída de fontes mais formais. O Focus, que capta as projeções de 100 analistas, sugere dólar a R$ 3,9 no fim do ano. O Banco Central (BC) tem suas projeções internas que por razões óbvias não revela a ninguém. Mas a forma de atuação e o comunicado da última decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) sugerem que o dólar da autoridade monetária para o fim do ano não seria esse R$ 4,20 que chegamos a ver. Por isso mesmo, o BC manteve a Selic em 6,5%, apesar de as projeções de inflação já autorizarem uma elevação. É fato que o BC mudou o tom, acenando a possibilidade de alta, mas optou por esperar o desfecho da eleição e a resposta do mercado às urnas.

Haddad sobe e desce; Bolsonaro desce e sobe

O economista da 4E Consultoria Bruno Lavieri explica que a formação de preço do real tem o agravante das eleições. O preço é dado pelo valor esperado para a moeda multiplicado pela probabilidade de vitória de cada candidato. Com o mercado ganhando confiança no vencedor, a taxa de câmbio vai antecipar a expectativa de uma vez por todas.

Segundo Lavieri, ainda está difícil de definir o cenário, mas a indicação do momento é de que Bolsonaro e Haddad devem fazer o segundo turno. A novidade é que Haddad tem feito acenos, ao menos ao mercado, de que não terá uma postura radical de esquerda. Ainda assim, explica o economista, o candidato não teria condições de levar adiante reformas profundas. Por isso, a taxa associada ao petista seria um pouco mais alta que a atual (dólar estava na casa de R$ 4,1 quando conversamos).

Já Bolsonaro é visto como muito positivo pelo mercado. Mas Lavieri pondera que a 4E Consultoria não vê o capitão com tanto otimismo assim, pois ele teria dificuldade para colocar em prática a agenda econômica de Paulo Guedes. Ainda assim, o câmbio ficaria mais apreciado caso ele vença. E a reação do câmbio às pesquisas eleitorais já mostrou essa relação.

Assim, Laviere acredita que em caso de vitória de Bolsonaro, a taxa volte para a casa de R$ 3,9 no fim do ano. Mas que a relação real/dólar voltaria a piorar nos próximos anos em função de uma agenda econômica e fiscal que não se concretizaria.

No caso de vitória de Haddad, diz o especialista, a taxa iria para R$ 4,3 a R$ 4,4 em um primeiro momento. Mas a tendência seria de melhora posterior, já que o candidato caminharia para o cenário de ajuste sem “jogar tudo para cima”. Nomeando figura mais conhecida para comandar o Ministério da Fazenda e a agenda econômica.

Já no caso de Ciro Gomes assumir o Planalto, a projeção da consultoria é de dólar “seguramente” acima de R$ 4,5 a R$ 4,6. O candidato é visto como o “mais radical” e com menor probabilidade de ajuste fiscal.

Em tempo, a 4E Consultoria está entre os Top Five em acertos do Focus.

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