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Felipe Miranda
Exile on Wall Street
Felipe Miranda
É sócio-fundador e CIO da Empiricus
2019-04-20T15:40:20-03:00
Exile on Wall Street

O dia em que a música morreu

Existe um risco material de o mercado entrar no estado de euforia. Quando isso acontecer, você não pode deixar seduzir-se

29 de outubro de 2018
11:07 - atualizado às 15:40

And the three men I admire most
The Father, Son, and the Holy Ghost
They caught the last train for the coast
The day the music died

Don McLean – American Pie

“Eu espero que seu avião velho caia.”

Waylon Jennings não tinha ideia do quanto essa frase o perseguiria pelo resto de sua vida. Era apenas uma resposta irônica à provocação de J.P. “The Big Popper" Richardson, em tom de brincadeira. Jamais poderia imaginar o que se seguiria.

Em 3 de fevereiro de 1959, o avião que transportava três músicos norte-americanos de rock’n’roll de enorme sucesso caiu ao lado de Clear Lake, em Iowa. O trio Buddy Holly, Ritchie Valens e J.P. Richardson entrara naquela aeronave absolutamente por acaso.

Buddy Holly estava frustrado com o ônibus de viagem, despreparado para o frio intenso daquele inverno – seu sistema de aquecimento havia quebrado, resultando inclusive no congelamento dos pés de seu baterista. Holly já estava cansado da turnê e desprovido de roupas limpas. Resolveu, assim, fretar um avião. Além do seu assento, os outros dois lugares seriam ocupados pelos músicos contratados da banda: Waylon Jennings e Tommy Allsup.

Porém, numa dessas intervenções do destino, J.P. Richardson contraiu uma gripe pesada e pediu a Jennings que cedesse seu lugar no avião. Eles concordaram e daí se seguiu a conversa do início desse texto.

Ritchie Valens (o cara do “La Bamba”, sabe?), por sua vez, pediu pelo lugar de Tommy Allsup, que propôs a definição por meio de um cara e coroa. Valens venceu a disputa da moeda, ganhou um lugar no avião e perdeu a própria vida.

A fatalidade seria depois descrita por Don McLean em “American Pie” como “The day the music died” (o dia em que a música morreu).

Kit eleições

Do que estamos falando mesmo? Explico a metáfora…

Na sexta-feira, escrevi aqui mesmo neste espaço o seguinte, ipsis litteris:

“Curto e grosso, se cair hoje kit eleições por conta da preocupação com as pesquisas recentes, raspa. Pode comprar lote de BBAS, PETR, CMIG, ELET e afins para um trade de curto prazo.”

E assim se fez. Deu certo na própria sexta-feira e, ao menos a julgar pelo comportamento dos mercados futuros no momento em que escrevo estas linhas, o movimento vai se estender com profundidade para hoje. Que bom.

Supostos acertos

Recupero as palavras não para narrar supostos acertos passados. Apenas contei com a sorte. E tudo bem que seja assim. Preciso, no entanto, colocar as coisas em perspectiva e, ainda mais importante, fazer um alerta.

A primeira questão relevante para os mercados após a eleição de Jair Bolsonaro é se já esgotamos o potencial de alta, ou seja, se as cotações já embutiriam todo o prognóstico de melhora sistêmica a partir da eventual pauta reformista a ser implementada.

Entendo que não. Estamos apenas no início de um grande bull market estrutural, iniciado em janeiro de 2016, e ele fica muito mais claro agora, com a materialização de um dos pilares da tese: a concreta migração do pêndulo político do espectro da esquerda intervencionista para a direita liberal.

Alguns elementos reforçam o prognóstico para o curto prazo. Jair Bolsonaro acertou na veia o tom do discurso ontem. Reiterou o compromisso de governar conforme a Constituição e os preceitos democráticos, moderou a retórica e sugeriu união ao país, falou várias vezes no compromisso com o ajuste fiscal e mostrou um viés pró-empreendedorismo visto raras vezes em pronunciamentos de presidentes. Paulo Guedes deu entrevista aprofundando a pauta liberal, assim como o fez o general Mourão.

É alimento para os ativos de risco e, principalmente, para atrair capital estrangeiro de longo prazo, ainda muito subalocado em países emergentes e no Brasil em particular.

Também neste momento é necessário lembrar do típico “overshooting”, da reação exagerada de curto prazo, como um movimento racional, conforme demonstrou Rudi Dornbusch – o modelo é originalmente proposto para o câmbio, mas vale para qualquer situação em que há dois mercados com velocidades diferentes de ajustamento.

Mais ação, menos conversa

Suponha dois mercados: financeiro e de bens. O mercado financeiro se ajusta muito mais rápido a um novo choque do que o mercado de bens. Num primeiro momento, somente as variáveis financeiras se mexem, enquanto o mercado de bens está parado, por uma rigidez dos fatores. Então, instantaneamente, como o mercado financeiro faz todo ajuste (move por si e pelo mercado de bens, que ainda está parado), ele acaba exagerando mesmo, sem nenhuma irracionalidade no processo. Num segundo momento, o mercado de bens começa a reagir e retira o excesso de pressão sobre o mercado financeiro, corrigindo os exageros.

Dito tudo isso, fica reiterado o otimismo na tese estrutural. Este é o momento de mais ação e menos conversa. “A little less conversation and more action.” Como diria Taleb, “estudar a coragem em livros didáticos não torna você mais corajoso, assim como comer um bife não o transforma numa vaca ou num boi”. Se você quer se tornar corajoso, simplesmente envolva-se em atos de coragem.

Mas essa história tem um lado feio. E é justamente ele que se liga ao começo deste texto. Existe um risco material de o mercado entrar no estado de euforia. Quando isso acontecer, você não pode deixar seduzir-se. Cada vez que as cotações flertam com o estado de mania, me sinto na obrigação de devolver o investidor à realidade objetiva.

A diferença entre o sucesso e o fracasso, o lucro e o prejuízo, o bull e o bear market, até mesmo entre a vida e a morte, sem querer ficar dramático ou tétrico demais, é mais tênue do que gostaríamos de supor. Estamos sempre sensíveis à ocorrência do acaso e de fatores que não conseguimos conceber. Os terríveis “unknown unknowns” de Donald Rumsfeld.

Os riscos

Mesmo sem grande criatividade em plena segunda-feira, podemos mapear riscos importantes no horizonte, capazes de nos desviar da rota, mesmo que circunstancialmente.

Os três principais me parecem:

1. O retorno do velho Bolsonaro. A eleição por grande margem de votos e o discurso subsequente talvez escondam a entrevista anterior do final de semana, em que o presidente eleito pede um Banco Central com meta para o câmbio. É ainda a velha cabeça de sempre, ferindo a prescrição monetária ortodoxa de “one tool, one target” (o Banco Central possui uma meta, a de inflação, e uma ferramenta para atingi-la, a taxa básica de juro) e também o trilema impossível de Robert Mundell – não há como termos conta de capital aberta, controlar a taxa de juro e o câmbio ao mesmo tempo; precisamos abrir mão de um dos três. Compramos a priori um Bolsonaro liberal por conta de sua retórica pronta, enquanto as evidências empíricas materiais apontam na direção oposta. Preciso também lembrar do conhecido temperamento mercurial de Paulo Guedes. Dois comportamentos mercuriais juntos sugerem faíscas um tanto prováveis no horizonte.

2. Os economistas, por vezes, sabem como resolver os problemas. Mas, na teoria, até o socialismo funciona. Entre saber a solução do problema e realmente solucioná-lo há um longo caminho. Mesmo que consigamos passar algumas reformas, precisamos de muita coisa para, de fato, endereçar o problema fiscal. “Tough ain’t enough”, me lembra Clint Eastwood em “Menina de Ouro”. Como compramos a retórica liberal e demos o benefício da dúvida a Bolsonaro, uma eventual frustração imposta pela realidade prática pode causar uma grande decepção e um ajuste poderoso nos preços.

3. O cenário externo é uma fonte de preocupação. Cresce o temor com uma recessão da economia norte-americana em 2019, ninguém sabe ao certo onde vai terminar a guerra comercial com a China, há decepção recente com os resultados das techs e o mercado de crédito norte-americano pode, subitamente, nos presentear com alguma baleia boiando por conta dos aumentos das taxas de juros de mercado. Por conta do late cycle (estágio avançado) da economia norte-americana, podemos continuar na festa, mas vamos dançar um pouco mais perto da porta agora.

Canto da sereia

Já há quem fale em dólar a três reais. Também há analistas dizendo que o Brasil agora é o melhor lugar do mundo para investir.

Quando começa um discurso consensual em torno do otimismo e os jornais estampam vieses positivos, precisamos colocar cera no ouvido e nos amarrar ao poste para não ouvir o canto da sereia. Sempre me lembro do artigo clássico de Guillermo Calvo e seu sudden stop: o fluxo de recursos para mercados emergentes seca da noite para o dia. Você não pode perder essa possibilidade de vista.

Não importa o que aconteça, você vai:

i. Comprar lote de dólar como hedge se o câmbio for mesmo para perto de três reais;

ii. Diversificar seu portfólio e manter-se fiel à filosofia de investimento de carregar proteções em sua carteira;

iii. Manter-se desalavancado, não fazer termo, nem comprar a dica esperta narrada nos fóruns de ações;

iv. Lembrar-se que ajustes vigorosos acontecem mesmo nos maiores bull markets e você precisa estar preparado para ver suas ações caindo 50 por cento; e

v. Investir para o longo prazo, porque os ciclos econômicos e empresariais necessariamente são longos.

Mercados

Mercados iniciam a semana com grande otimismo em torno da vitória de Jair Bolsonaro e de seu discurso em favor do ajuste fiscal. Exterior mais calmo permite uma valorização mais destacada dos ativos de risco.

Agenda doméstica traz relatório Focus e dados fiscais do setor público. Resultado do Itaú à noite atrai a atenção dos investidores. Nos EUA, investidor recebe PCE de setembro e atividade do Fed de Dallas.

Ibovespa Futuro sobe 3,50 por cento, dólar e juros futuros caem.

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