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Julia Wiltgen

Julia Wiltgen

Jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com pós-graduação em Finanças Corporativas e Investment Banking pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Trabalhou com produção de reportagem na TV Globo e foi editora de finanças pessoais de Exame.com, na Editora Abril. Hoje é editora-chefe do Seu Dinheiro.

Renda fixa

A hora certa de comprar e vender títulos públicos

O investimento ativo em títulos prefixados e atrelados à inflação não é trivial, mas pode gerar retornos formidáveis. Mas como saber o momento certo de comprar e vender?

Julia Wiltgen
Julia Wiltgen
22 de dezembro de 2018
5:30 - atualizado às 22:03
Compre títulos pré e NTN-B quando taxas estiverem acima da média; avalie a venda quando elas se aproximarem do juro neutroImagem: Shutterstock

Os rankings de melhores investimentos do ano por vezes são liderados por personagens aparentemente improváveis: títulos públicos. Eles mesmos, que estão à venda lá no Tesouro Direto a partir de R$ 30.

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Em anos recentes, alguns deles chegaram a rentabilidades na casa dos 40%, 50% em um período de apenas 12 meses, muito acima da taxa básica de juros da época.

Por exemplo, em 2012, o título Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais (NTN-B) com vencimento em 2035 rendeu 44,32%, contra um CDI de 8,39%. Em 2016, o mesmo título rendeu 44,4%, contra um CDI de 8,18%. Incrível, não?

Pois é, mas esse tipo de retorno com títulos públicos não vem sem volatilidade. A mesma NTN-B 2035, por exemplo, despencou 34,7% em 2013, contra um CDI de 8,06%.

Você pode estar se perguntando como tudo isso é possível. Afinal, título público não é renda fixa? Não são os investimentos de menor risco da nossa economia?

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Sim, são os investimentos de menor risco de calote, pois têm garantia do governo federal. Mas existe risco de mercado, uma vez que os preços dos títulos flutuam diariamente, podendo se valorizar ou desvalorizar, dependendo das condições econômicas.

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Para quem investe passivamente, mantendo o título até o vencimento, de fato o risco é baixíssimo. Você recebe exatamente a rentabilidade contratada no ato da compra, nem mais, nem menos. Seu retorno é sempre positivo e pouco importam as flutuações dos preços no meio do caminho.

Mas quem quer lucrar com esses ganhos formidáveis que certos títulos públicos podem gerar precisa investir ativamente, isto é, comprar e vender os papéis nos momentos mais adequados.

Essa forma de investir é bem mais arriscada, pois a volatilidade dos títulos públicos pode ser bastante alta. Como você viu, é possível ter enormes ganhos, mas também amargar fortes perdas. Então sim, nesse caso é possível perder dinheiro com renda fixa.

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Investimento passivo vs. investimento ativo

Primeiramente, é importante entender que os títulos públicos são sempre negociados a preço de mercado. Portanto, vendas antecipadas são sempre feitas pelo preço na data da venda, que pode ser maior ou menor que o preço no dia da compra. É dessa variação que vêm os ganhos e as perdas da gestão ativa.

Os preços dos títulos públicos, por sua vez, variam de acordo com as perspectivas para as taxas básicas de juros (Selic/DI) até a data do vencimento do papel. Isto é, se o mercado espera que os juros subam ou desçam.

São as negociações de contratos futuros de juros na bolsa (DI de um dia) que dão a melhor medida do que o mercado espera que aconteça com os juros em diferentes prazos. Essas expectativas também podem ser observadas nas taxas para os títulos prefixados (LTN) mais longos e nas previsões para a taxa Selic divulgadas no Boletim Focus do Banco Central.

Em segundo lugar, você deve ter em mente que o investimento ativo em títulos públicos não é trivial. A maioria dos especialistas não recomenda que as pessoas físicas o façam sozinhas, indicando que, para este fim, sejam preferidos os fundos de investimento.

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O investimento ativo requer compreensão dos riscos, um certo conhecimento de macroeconomia (perspectiva para juros, câmbio, crescimento e inflação) e, de preferência, alguma assessoria financeira.

Investidores muito conservadores, muito iniciantes ou que não querem ter trabalho - traduzindo: que não desejam acompanhar e mexer na sua carteira o tempo todo - devem preferir o investimento passivo ou via fundos de investimento.

O investimento passivo também pode ser interessante para quem tem objetivos com data certa para ocorrer. Nesse caso, o investidor pode casar a data do objetivo com o vencimento do título e esquecer.

Mas vamos nos focar aqui no melhor momento para comprar e vender títulos públicos para lucrar com a sua valorização.

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Como eu disse, determinar esses momentos de entrada e saída não é trivial, então minha intenção aqui não é esgotar o assunto. Quero apenas traçar algumas linhas gerais, alguns pontos para você ficar de olho.

Tesouro Selic é para manter o caixa

Vamos começar com o título mais tranquilinho, o Tesouro Selic (LFT). Esse não tem muito mistério. Ele paga a variação da taxa básica de juros no vencimento, e seus preços são atualizados diariamente pela Selic.

Pode haver um ágio ou deságio, isto é, ele pode pagar um pouco a mais ou a menos que a Selic no vencimento, dependendo da demanda pelo título. Mas, em geral, isso não faz muita diferença para o investidor.

Por ser pós-fixado e apenas “seguir” a Selic, esse título tende a dar retorno positivo tanto no vencimento quanto na venda antecipada. É o papel mais conservador do Tesouro Direto.

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Por isso, pode ser usado para investimentos de curto prazo, reserva de emergência e para manter seu caixa enquanto você aguarda boas oportunidades de investimento. Aplicar em Tesouro Selic é mais rentável e seguro do que deixar o dinheiro na poupança, por exemplo.

Assim, nem quem investe passivamente, nem quem faz gestão ativa da carteira tem com que se preocupar aqui. Qualquer dia é dia e qualquer hora é hora de comprar ou vender Tesouro Selic. Ele compõe a parte mais conservadora da carteira.

Mas é claro que o cenário econômico pode beneficiar ou prejudicar o retorno do Tesouro Selic. Quando há expectativa de alta nos juros, esses títulos se tornam mais atrativos. É que quando os juros sobem, eles pagam mais, e vice-versa.

Pré e NTN-B são os responsáveis pelos ganhos (e as perdas!)

Os títulos prefixados são negociados no Tesouro Direto pelos nomes de Tesouro Prefixado (LTN) e Tesouro Prefixado com Juros Semestrais (NTN-F). Ambos pagam uma remuneração nominal já conhecida no ato da compra, como 10% ao ano ou 12% ao ano.

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Já os pós-fixados atrelados à inflação são negociados como Tesouro IPCA+ (NTN-B Principal) e Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais (NTN-B). Eles pagam uma taxa prefixada mais a variação da inflação pelo IPCA até o vencimento. Por exemplo, 5% ao ano + IPCA ou 6% ao ano + IPCA.

Os papéis com juros semestrais pagam uma remuneração a cada seis meses e, no vencimento, retornam o principal mais um remanescente de juros. Os outros dois papéis pagam tudo - juros e principal - apenas no vencimento.

A lógica de precificação desses títulos é bem diferente da lógica do Tesouro Selic. Eles não são corrigidos dia após dia por um indexador.

Em vez disso, seu preço de mercado (valor presente) é calculado a partir do seu preço no vencimento (valor futuro, que é o valor de face do título) descontado pela sua rentabilidade (juros pagos pelo papel).

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As rentabilidades desses títulos, por sua vez, embutem a expectativa para as taxas básicas de juros até o vencimento mais um prêmio para o investidor que, porventura, ficar com eles até o vencimento.

No caso dos títulos prefixados, a remuneração também embute uma expectativa para a inflação. Nas NTN-B isso não ocorre, pois elas já oferecem correção pelo IPCA. Por não contar com essa proteção, os títulos pré são mais arriscados - e potencialmente mais rentáveis - que as NTN-B de mesmo prazo.

De uma forma geral, podemos dizer que, quando a expectativa é de alta nos juros, a remuneração desses papéis sobe e seus preços de mercado caem. Do contrário, se a perspectiva passa a ser de queda nos juros, a remuneração cai e seus preços sobem.

Quanto mais longo o prazo de um título pré ou de uma NTN-B, maior sua volatilidade. Afinal, quanto mais distante o vencimento, maior a incerteza em torno do que pode acontecer com a economia e mais difícil prever juros e inflação lá na frente.

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É por isso que os títulos com maiores ganhos e maiores perdas nos rankings de fim de ano normalmente são as NTN-B de prazo longo. Elas voam quando as taxas de juros de longo prazo caem, mas despencam quando elas sobem.

Quem prefere investir de forma passiva não deve se aventurar a ficar vendendo título pré e NTN-B antes do vencimento. Independentemente do prazo e da volatilidade dos papéis, quem fica com eles até o fim do prazo leva exatamente a rentabilidade contratada.

Assim, se você quer comprar um carro, por exemplo, você pode investir em um prefixado com vencimento na data em que pretende realizar seu objetivo, para saber exatamente quanto vai ganhar.

Títulos públicos atrelados à inflação, por sua vez, costumam ser muito usados por quem quer poupar para a aposentadoria, pois podem chegar a prazos realmente longos. Nesse caso, basta comprar aqueles que vencem na época em que você pretende se aposentar, e seu investimento estará protegido contra a inflação.

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Quem pretende, porém, especular para ganhar no curto prazo, precisa ficar atento às oscilações de preços. Tudo vai depender do cenário econômico no momento da compra e no momento da venda, mas existe um conjunto de elementos nos quais você deve ficar de olho.

Quando comprar e vender títulos públicos prefixados e NTN-B?

A especulação com títulos públicos leva em conta as expectativas do mercado para os juros e a possibilidade de as taxas não se comportarem como o esperado - isto é, de o Banco Central mexer na Selic de forma diferente do previsto.

O comportamento dos juros, por sua vez, depende das expectativas para crescimento econômico, inflação e câmbio.

Internamente, a gente olha para crescimento econômico e inflação. Por exemplo, alta nos preços das commodities, economia aquecida, forte geração de empregos e estímulos governamentais ao consumo são fatores que podem gerar inflação elevada e levar o Banco Central a subir os juros.

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Por outro lado, uma economia deprimida, consumidores e empresas altamente endividados, aumento na taxa de desemprego e queda nos preços das commodities podem derrubar a inflação e levar o Banco Central a cortar juros para estimular o crescimento.

Externamente, a gente olha para o desempenho da economia mundial, especialmente a dos Estados Unidos.

Um forte crescimento nos EUA pode levar o banco central americano a aumentar juros, o que tende a encarecer o dólar e atrair recursos para aquele país. Em uma situação como essa, o Brasil pode precisar subir os juros para controlar o aumento da inflação e a fuga de recursos estrangeiros.

Já uma recessão nos países desenvolvidos pode levá-los a derrubar os juros, que em países ricos podem chegar a zero. Com isso, nosso Banco Central tende a ficar mais livre para cortar a Selic, se necessário.

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Lembre-se de que os investidores tendem a antecipar esses movimentos da Selic no mercado de juros futuros. Saber o momento certo de comprar e, sobretudo, de vender títulos públicos requer essa análise macroeconômica prévia e um palpite do que porventura possa acontecer que já não esteja precificado pelo mercado.

Os títulos de prazos mais curtos permitem apostas no cenário macroeconômico atual. Já os títulos de prazos longos estão mais ligados a apostas estruturais: como será o futuro do país, dadas as condições atuais? O Brasil estará mais desenvolvido e poderá ter um juro real mais baixo? Ou iremos de mal a pior, e o juro real vai subir?

É claro, você pode errar as previsões. Se isso acontecer, cabe reavaliar antes de realizar qualquer prejuízo: preciso desse dinheiro agora, ou posso “sentar” no papel até o vencimento para não amargar prejuízos? É possível esperar um pouco mais para ver se os preços se recuperam (o que não é incomum)?

Algumas “regras de bolso”

Dado o histórico de juros e inflação do Brasil pós-real, é possível chegar a algumas “regras de bolso” de quando comprar títulos pré e NTN-B e quando avaliar uma possível venda.

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Coloquei “regras de bolso” entre aspas porque não dá para se guiar apenas por esses números, uma vez que as condições macroeconômicas são dinâmicas. Mas eles já servem de alerta de que pode haver oportunidade de compra ou venda.

Os bons momentos para comprar são mais fáceis de enxergar. Uma dica geral é tentar sempre acompanhar as rentabilidades dos títulos e efetuar as compras quando as taxas estiverem mais altas que o normal.

No caso dos títulos pré, uma remuneração muito superior à expectativa para a Selic no mesmo prazo mostra uma oportunidade de compra. Lembrando que a remuneração desses papéis costuma ser ligeiramente superior à expectativa para os juros básicos.

Já no caso da NTN-B é bem mais fácil ter noção do que representa uma remuneração elevada. Basta olhar para o histórico de juros reais brasileiros, que têm variado menos que os juros nominais.

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“Nos últimos dez anos, a média da Selic foi de 10% ao ano, a da inflação foi de 6% ao ano, o que nos deixa com uma média de juro real de cerca de 4% ao ano. Se eu tenho um título que paga um juro real superior a este, considero que é um retorno interessante”, diz Sandra Blanco, consultora de investimentos da Órama.

No cenário atual, em que se vislumbram juros mais estáveis e um juro real mais baixo que o histórico, uma rentabilidade real (acima da inflação) de 5% ou mais configura uma oportunidade de compra, diz ela.

Rodrigo Borges, gestor de renda fixa da Franklin Templeton, concorda com os números, dado o momento econômico. Para ele, uma remuneração de 6% acima da inflação é historicamente boa, e uma de 7% já pode ser considerada alta.

E o momento da venda? Esse é mais difícil, e requer uma avaliação das condições - se é possível o título valorizar mais ou se realmente é hora de realizar os ganhos.

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Para Borges, se os retornos reais dos títulos caírem para algo como 4% ou 4,5% ao ano no cenário atual, cabe avaliar uma venda. Retornos nesse nível seriam historicamente baixos para o Brasil.

O mercado considera que esse patamar de juro real é a taxa neutra para os próximos anos, isto é, aquela que não estimula nem atrapalha o crescimento. Mas como o repórter Eduardo Campos mostrou nesta matéria, já há estimativas de que a taxa neutra poderia ser ainda menor, havendo espaço para o juro real recuar ainda mais.

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