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Para saber quais as chances de os anos dourados dos IPOs voltarem, conversei com alguns dos mais experientes executivos do mercado. Apesar da incerteza eleitoral, existem hoje até 30 empresas em condições de testar o interesse dos investidores
Houve uma época em que era convidado com frequência para casamentos, quase todos de amigos na casa dos vinte ou trinta e poucos anos. Atrapalhado por natureza, era comum também chegar à igreja e me confundir com as várias cerimônias que aconteciam no mesmo dia, em horários seguidos. Em uma ocasião quase subi ao altar para ser padrinho dos noivos errados.
Nesse mesmo período eu trabalhava como repórter que cobria bolsa e ofertas de ações. Bons tempos! Os meus vinte e poucos anos coincidiram com a melhor fase do mercado de capitais brasileiro. Para se ter uma ideia, em 2007 o número de empresas que chegou à bolsa depois de captar recursos de investidores com uma oferta pública inicial de ações (mais conhecidas como IPO, na sigla em inglês) chegou a 64.
Ou seja, minha rotina se dividia entre as igrejas e a Bovespa (sim, Bovespa, antes da fusão com a BM&F e da mudança do nome para B3). Lá, eu acompanhava as cerimônias que marcam o início da negociação das ações - o famoso “toque da campainha”. Mas às vezes era difícil distinguir um lugar de outro.
A abertura de capital de uma empresa representa de certo modo um casamento com o mercado. E eram tantas as ofertas de ações naquele tempo que aconteceu de duas ou até três saírem no mesmo dia. O que obrigava os organizadores a expulsar delicadamente os convidados da cerimônia do primeiro IPO para dar espaço aos do segundo ou do terceiro. Mais ou menos como ocorre aos sábados nas igrejas mais concorridas.
Para saber mais sobre as perspectivas para as ofertas de ações e quais as chances de os anos dourados voltarem, conversei nas últimas semanas com alguns dos mais experientes executivos de bancos de investimento e escritórios de advocacia. São eles os responsáveis por preparar as empresas para o casamento com os investidores. Também fui atrás de gestores de fundos, que analisam e compram as ações, para saber se o investimento vale a pena e compensa o risco.
A boa notícia é que esse mercado não está parado, como se poderia imaginar em um período pré-eleitoral. Existem hoje de 20 a 30 candidatas em condições de ir à bolsa, em diferentes estágios de preparação. A má notícia é que o prognóstico depende, e muito, de fatores como o resultado das urnas e do cenário internacional.
Passada a euforia na década passada, o mercado de IPOs no Brasil passou a viver de janelas de oportunidade que abrem e fecham rapidamente. Tão rápido que Fabio Nazari, sócio do BTG Pactual, diz que a comparação mais correta seria não com um janela, mas com uma guilhotina.
“Quem pretende abrir o capital no Brasil precisa estar sempre preparado para aproveitar as oportunidades e não estar com a cabeça para fora na hora da guilhotina”, diz Nazari.
A lâmina da guilhotina pode ficar mais ou menos afiada dependendo de quem vencer as eleições em outubro. Mas ninguém espera uma catástrofe caso o próximo presidente não seja o favorito da Faria Lima.
“O mercado se ajusta, mas pode precisar de algum tempo”, diz Nazari, com a bagagem de quem viveu os tempos de bonança, mas também o de vacas magras das aberturas de capital.
A tensão pré-eleitoral não inibiu as empresas de testarem a "guilhotina". É o caso da Arco Educação, que passou com louvor ao captar US$ 194,5 milhões (cerca de R$ 780 milhões) em sua abertura de capital, que aconteceu na semana passada. O palco do casamento, porém, não foi a B3, mas a bolsa americana Nasdaq.
Quem também se prepara para uma oferta em Nova York é a Stone, empresa de maquininhas de cartão. Os bancos Agibank e BMG e a empresa de serviços de tecnologia Tivit são outros nomes já conhecidos na fila de espera das ofertas.
A movimentação nesta época não é comum. Sócia do escritório Mattos Filho especializada em mercado de capitais, a advogada Vanessa Fiusa esperava que 2018 fosse um ano de seis meses. Ou seja, que trabalharia em dobro na primeira metade do ano para ter um respiro no período pré-eleitoral. Tanto que até programou férias para o mês de agosto. Mas para surpresa dela, o celular não parou de tocar nos dias que deveriam ser de descanso.
“Eram clientes e bancos se organizando para dar início ao processo de abertura de capital”, ela disse.
A expectativa da advogada é que uma nova janela se abra para as ofertas de ações no fim deste ano. Para esse cenário se concretizar, tão ou mais importante do que o cenário político local é o que vai acontecer no exterior. Afinal, é de fora que costuma vir a maior parte dos compradores de ações em IPOs. Na prática, isso significa que a trajetória das taxas de juros nos Estados Unidos e as disputas comerciais envolvendo o governo Trump também farão a guilhotina dos IPOs balançar.
As empresas “à prova de bala”, ou seja, que conseguiram resistir aos piores momentos da crise econômica dos últimos anos sem maiores abalos, são aquelas com melhores condições de reabrir o mercado. A avaliação é de Alessandro Zema, responsável pelo banco de investimentos do Morgan Stanley. O banco americano participou de dois dos três IPOs que aconteceram no mercado brasileiro neste ano, além da abertura de capital da PagSeguro e da Arco Educação, em Nova York.
Para as boas empresas, vender ações em uma oferta a investidores é apenas mais uma opção para captar recursos, como me lembrou o advogado Fernando Zorzo, sócio do Pinheiro Neto, em uma conversa na sede do escritório. Nos últimos anos, uma estratégia comum foi o chamado “dual track”, ou seja, caminhar com o processo de abertura de capital em paralelo com negociações de venda para um investidor estratégico.
O caso mais notório aconteceu no ano passado com a XP Investimentos, que estava pronta para abrir o capital quando recebeu a proposta de R$ 6,3 bilhões do Itaú Unibanco por uma participação na corretora.
No fim do dia, a dúvida que fica para qualquer investidor é se vale a pena investir em uma empresa novata da bolsa. Para um gestor de ações, que pediu para não ser identificado, na maioria dos casos é melhor esperar e comprar as ações mais para frente, quando já se conhece mais sobre a companhia e a gestão.
O maior risco de se investir em ações na abertura de capital deveria vir acompanhado de uma expectativa maior de retorno. Mas não é sempre que isso acontece nas ofertas que vem a mercado, segundo Fabio Motta, responsável pela área de renda variável da Western Asset, gestora que possui mais de R$ 40 bilhões no Brasil.
"Prefiro perder uma boa oportunidade do que entrar no hype", ele diz.
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A pessoa física surfou na onda dos IPOs da década passada principalmente com os “flippers”, como são chamados aqueles investidores que vendem as ações logo no primeiro dia de negociação, na expectativa de que cotações subam na estreia. Mas, no geral, quem decidiu investir em uma empresa estreante na bolsa com foco no longo prazo perdeu dinheiro. O que também ajuda a explicar a queda no número de ofertas de ações nos últimos anos.
O símbolo do exagero da época de bonança do mercado foi o empresário Eike Batista. Eu estava na bolsa em 2008 no dia da estreia da OGX, a empresa de petróleo criada pelo empresário, mas que ainda não havia sequer perfurado um poço de petróleo. Naquela manhã, Eike saiu pela porta da frente da sede da bolsa distribuindo autógrafos às pessoas na rua. Deu no que deu.
Nada garante que daqui pra frente vai ser diferente. Mas pelo menos quem investiu nas empresas que abriram capital neste ano não tem do que reclamar. A valorização das ações do Banco Inter, por exemplo, chega a 65% desde a estreia, em abril. A volta dos casamentos à bolsa brasileira sem dúvida depende de mais uniões felizes como essa.
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