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Conhecido como “brechó da Deborah Secco”, a rede de franquias nasceu a partir de uma mãe que precisava complementar a renda familiar e hoje soma 130 lojas no país
Se anos atrás a ideia de comprar itens usados causava estranheza, agora esse mercado é uma tendência crescente com o conceito de economia circular. A demanda por sustentabilidade popularizou negócios como os brechós, que vendem roupas, sapatos, acessórios e objetos para casa de segunda mão, e somam mais de 118 mil empreendimentos no país, segundo dados do Sebrae. Entre essas empresas está o Peça Rara, criado há 19 anos e com mais de 130 lojas no Brasil.
Conhecido nacionalmente como “brechó da Deborah Secco” por ter a atriz como sócia e rosto que estampa as comunicações, a empresa nasceu a partir da necessidade de uma mãe recém-formada em encontrar um complemento para a renda familiar.
Bruna Vasconi, hoje com 46 anos e psicóloga de formação, é o verdadeiro nome por trás da fundação do Peça Rara. Ela já havia vendido outros itens ao longo da faculdade: bijuterias, chocolates e produtos de beleza para conhecidos.
Porém, decidiu apostar em um brechó ao ler em uma revista sobre a história de uma empreendedora que começou a vender roupas usadas dos filhos na garagem de casa em São Paulo.
“Cheguei em casa, vi as roupas e brinquedos que as crianças não usavam mais e pensei: ‘vou montar esse negócio’. Parecia não depender de tanto investimento”, explicou em entrevista ao Seu Dinheiro.
Em 2025, a empresa criada por Bruna faturou cerca de R$ 300 milhões — crescimento de 25% em relação ao ano anterior — e vendeu quatro milhões de itens. A marca também está presente em 22 dos 26 estados brasileiros, além do Distrito Federal, que foi a primeira unidade aberta.
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Peça Rara começou com empréstimo da avó e sociedade de 40 dias
Moradora de Brasília e mãe de duas crianças na época, Vasconi abriu um brechó em parceria com uma amiga com itens dos próprios filhos e de outras colegas.
Cada uma das sócias investiu 7 mil para alugar um espaço de 100 metros quadrados e bancar outros custos iniciais de abertura de um negócio, dinheiro que Bruna pediu emprestado para a avó. Mas a sociedade não durou muito: em 40 dias, elas decidiram seguir caminhos diferentes.
Com os ganhos desse período inicial, as sócias calcularam que o brechó que antecedeu o Peça Rara valia R$ 50 mil. Bruna ficou com R$ 25 mil na divisão e pediu empréstimos para o pai, que inseriu mais R$ 25 mil no negócio.
Com o valor de R$ 50 mil em mãos, a empreendedora alugou um espaço três vezes maior que o anterior, de 350 metros quadrados, e abriu a primeira loja do Peça Rara em abril de 2007. O objetivo passou a ser vender não só artigos infantis, mas também roupas, sapatos e acessórios femininos.

Vasconi atribui parte do crescimento do brechó ao modelo de consignação adotado desde o início do Peça Rara. A estratégia começou com pessoas conhecidas: colegas visitavam o brechó, deixavam uma sacola de roupas que tinham interesse de vender e, somente após a venda, recebiam o pagamento da peça.
“A consignação começou por dois motivos. O primeiro é que eu não achava justo pagar por uma sacola de roupas com um preço fechado – cada peça tem o seu valor. O segundo é que eu não tinha dinheiro para comprar um estoque”, afirma.
Este é o principal modelo de venda do brechó até hoje.
Atualmente, quem fornece itens para o Peça Rara pode optar por três alternativas:
No caso da consignação, as peças ficam expostas nas lojas e o fornecedor consegue acompanhar as vendas por meio de um aplicativo. Por lá, ele pode solicitar o saque dos valores quando os itens são vendidos.
Ao longo dos anos, a empresa percebeu que alguns fornecedores preferiam o pagamento imediato e não se adaptavam ao modelo de consignação. Por isso, a marca também criou o pagamento por Pix em até 48 horas e as moedas PR, que podem ser usadas para comprar outras peças do brechó no mesmo dia.
Em todas essas estratégias, o processo de seleção das peças é o mesmo: os fornecedores levam os itens a uma unidade do Peça Rara e há uma equipe de curadoria e precificação.
“Os critérios de seleção dos itens são baseados no público de cada loja. Existem peças de luxo, mas também muitas outras que não são e entram para o acervo. Costuma ser um processo natural porque os fornecedores e os clientes tendem a ser do mesmo bairro e cidade, então já têm perfis parecidos e isso facilita a curadoria”, explica a empreendedora.
Ainda que hoje o Peça Rara tenha centenas de unidades espalhadas pelo Brasil, o modelo de negócio não foi bem aceito desde o início. Quando abriu a primeira unidade em Brasília, a empreendedora se deparou com um problema: muitas pessoas queriam fornecer itens para o Peça Rara, mas poucas queriam consumir.
“No começo, não existia cultura de consumo de brechó. Havia muito preconceito sobre usar roupas e outros itens de segunda mão.”
O volume do estoque dificultou a curadoria nos anos iniciais da marca, e a empreendedora precisou abrir outras unidades em Brasília para dar vazão às peças. Ao mesmo tempo, tentava educar o consumidor sobre os brechós.
“Os outros brechós na época eram ruins. Comecei a trabalhar experiência sem saber que era isso: loja organizada, bonita, convidativa. Também trabalhei muito a relação com clientes mostrando o valor de itens de segunda mão. Não é só preço, é exclusividade, consciência ambiental, experiência”, explica.
Em 2019, a marca já tinha sete lojas próprias, todas em Brasília. A executiva percebeu que o negócio estava bem estruturado, mas tinha dificuldade em crescer na estrutura familiar.
“Procuramos uma consultoria e o diagnóstico foi a necessidade de franquear. Fiquei apreensiva porque o Peça Rara era um filho, mas decidimos testar”, afirma sobre a primeira loja no modelo de franquia, também no Distrito Federal.
A empreendedora tinha receio de fazer uma grande expansão com recursos próprios, mas no mesmo ano foi procurada pelo grupo SMZTO para uma proposta de sociedade. José Carlos Semenzato, presidente da holding e investidor conhecido pelo programa Shark Tank Brasil – que escolhe negócios em crescimento –, se interessou pelo Peça Rara.
A parceria demorou a sair do papel por conta da pandemia, mas em 2021 a sociedade foi oficializada e a marca aumentou ano a ano a quantidade de lojas franqueadas até chegar no número de 130 unidades atuais.
Além do grupo SMZTO, a rede tem como sócia a atriz Deborah Secco desde 2022. O objetivo era encontrar uma figura pública que se aproximasse dos princípios da empresa e pudesse ajudar na visibilidade da marca.
A executiva destaca que um ponto importante na operação da rede é o Instituto Eu Sou Peça Rara, criado em 2019.
Se antes o brechó tinha o problema de estoque ao aceitar todos os itens de fornecedores, a curadoria estruturou melhor o que era recebido pelas lojas. Porém, outra questão foi criada: o que fazer com as peças que não entram para o acervo?
O instituto realiza bazares beneficentes com esses itens remanescentes a valores mais simbólicos, que variam de R$ 5 a R$ 50. Os ganhos dessas peças são direcionados a diferentes ações sociais, entre elas, uma creche inaugurada pelo Peça Rara, em 2023, para 300 crianças.
Em 2024, o instituto vendeu mais de 300 mil peças nos bazares beneficentes e chegou a uma arrecadação de R$ 2,8 milhões.
A marca estima que, ao evitar a produção de uma peça nova, preserva 2,7 mil litros de água e evita 5,7 quilos de dióxido de carbono na atmosfera.
O principal objetivo da empreendedora para o Peça Rara é o aumento do número de lojas. Segundo a fundadora, a marca quer alcançar 300 unidades nos próximos três anos.
“No ano passado, nós seguramos a expansão para focar na missão de consolidar a rede. Sair de sete lojas para 130 em quatro anos em um modelo complexo como o nosso não foi simples, então não podemos deixar isso desmoronar. Esse também será nosso foco em 2026, mas queremos voltar a aumentar o número de lojas”, explica a empreendedora.
A marca também prefere manter as operações somente nas lojas físicas. Embora já tenham testado o modelo de venda online, Bruna explica que a estratégia de peças únicas inviabiliza a expansão na internet.
Existem três modelos de franquia do Peça Rara. Confira os custos envolvidos em cada unidade:
*ideal para cidades acima de 1 milhão de habitantes.
*ideal para cidades entre 300 e 1 milhão de habitantes.
*ideal para cidades abaixo de 300 mil habitantes.
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