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O alto preço do cacau levou a indústria a reformular receitas e reduzir o ingrediente. Enquanto uma nova lei endurece as regras de rotulagem, estas marcas seguem apostando em chocolates com maior teor de cacau

O chocolate está diferente e muita gente já percebeu isso na primeira mordida. Mais doce, menos intenso e com uma textura emborrachada, diversos produtos vendidos hoje parecem distantes das versões que marcaram a infância de muitos brasileiros. A explicação está na quantidade cada vez menor de cacau presente nas receitas.
Com a disparada dos preços da matéria-prima e a pressão para manter os produtos acessíveis, parte da indústria reformulou suas receitas, aumentando a quantidade de açúcar e gorduras vegetais e reduzindo a participação do cacau.
Em alguns casos, a mudança foi ainda mais radical: produtos passaram a ser vendidos como "sabor chocolate", já que não atendem aos critérios mínimos para serem considerados chocolate de fato.
A discussão ganhou tanta relevância, inclusive, que o Congresso Nacional aprovou um projeto de lei para endurecer as regras de rotulagem desses produtos. A proposta também amplia a transparência sobre o percentual de cacau informado nas embalagens.
O texto mantém a exigência de, no mínimo, 35% de sólidos de cacau para chocolates em geral e 25% para chocolates ao leite. Ao mesmo tempo, traz mudanças importantes para o consumidor. Entre elas estão a obrigatoriedade de informar o percentual de cacau na parte frontal das embalagens e regras mais rígidas sobre quais ingredientes podem compor um chocolate.
A Lei nº 15.404/2026, que define critérios para a produção, classificação e rotulagem de produtos derivados de cacau no Brasil, foi publicada em 11 de maio de 2026 do Diário Oficial da União. A norma passa a vigorar em 360 dias, período em que a indústria deverá se adaptar às novas exigências.
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As mudanças, no entanto, ocorrem em meio a um cenário desafiador para a produção mundial de cacau. No Brasil, por exemplo, a praga conhecida como vassoura-de-bruxa derrubou drasticamente a produção a partir da década de 1980.
Enquanto isso, problemas climáticos e quebras de safra nos maiores produtores mundiais, como Costa do Marfim e Gana, fizeram o preço internacional do cacau disparar e pressionaram os custos da indústria. Por consequência, muitas fabricantes passaram a recorrer com mais frequência a ingredientes substitutos para conter os aumentos de preços e preservar suas margens de lucro.
No entanto, para quem busca um chocolate em que o cacau continua sendo o protagonista, a boa notícia é que ainda existem diversas opções no mercado. Muitas marcas apostam em receitas com maior percentual do ingrediente e listas mais enxutas, com menos aditivos.
Uma forma de encontrar chocolates com maior concentração de cacau é procurar marcas associadas ao movimento bean to bar.
O termo, que significa "do grão à barra", descreve um modelo de produção em que a própria marca controla praticamente todas as etapas da fabricação do chocolate. O processo começa na seleção das amêndoas diretamente com os produtores e segue pela torra, moagem, conchagem e moldagem das barras.
Esse processo costuma resultar em chocolates com maior rastreabilidade, menos aditivos e sabores que valorizam as características naturais do cacau. No Dia Mundial do Chocolate, celebrado em 7 de julho, confira algumas marcas vendidas no Brasil que continuam apostando no cacau como ingrediente principal.
Fundada em 2017 por Guilherme Leal, também cofundador da Natura, e Estevam Sartoreli, a Dengo nasceu com a proposta de valorizar o cacau brasileiro e remunerar melhor os pequenos produtores.
As amêndoas utilizadas nas receitas vêm principalmente da Amazônia e do sul da Bahia. A empresa produz barras com diferentes concentrações de cacau e prioriza ingredientes naturais, preservando o sabor do fruto.
Com inspiração francesa e mais de 14 lojas espalhadas pelo Brasil, a Chocolat du Jour é conhecida pelos chocolates finos produzidos artesanalmente.
Segundo a empresa, até mesmo seu chocolate ao leite possui 45% de cacau, percentual bem superior ao encontrado na maioria dos chocolates ao leite vendidos no mercado. O cacau utilizado nas receitas é produzido na Fazenda Santa Luzia, em Ibirapitã, no sul da Bahia.
Criada em 2017 pela advogada e confeiteira Michelle Kallas, a Mica Chocolates ficou conhecida pelos bombons artesanais pintados à mão. A marca utiliza cacau selvagem amazônico, colhido de forma sustentável por comunidades ribeirinhas ao longo do Rio Purus, e aposta em produção em pequena escala.
Com foco na produção e a rastreabilidade do cacau e cupuaçu, a Mágio entra no mercado com o objetivo de conectar consumidores aos saberes e sabores das comunidades tradicionais da Amazônia. Fundada pela Chocolates De Mendes, ela atua hoje como uma biotech de cacau nativo da região, tendo recebido um aporte de R$ 8 milhões da venture builder CBKK em 2025 para o desenvolvimento das cadeias produtivas e extensão para outros mercados, como o paulistano.
Fundada em Curitiba, em 2021, a Hagi produz seu próprio chocolate seguindo o modelo bean to bar. A marca utiliza cacau amazônico e acompanha todas as etapas da produção, da colheita à fermentação, secagem das amêndoas e fabricação das barras. Entre os destaques estão os chocolates ao leite com 42% de cacau e versões com concentrações ainda maiores.
Criada pela nutricionista Larissa Ludwig, em Porto Alegre, a Cookoa reúne um amplo portfólio de chocolates bean to bar. Entre os destaques está a barra Intenso 100%, produzida apenas com nibs de cacau e manteiga de cacau, sem açúcar nem leite. Além disso, a marca fabrica chocolates veganos, substituindo ingredientes de origem animal por alternativas vegetais sem abrir mão do protagonismo do cacau.
Produzida pela família Aquino, que cultiva cacau há gerações no sul da Bahia, a Baianí é uma das principais referências brasileiras no modelo tree to bar, em que a mesma empresa cultiva o cacau e fabrica o chocolate, aliás. Toda a produção utiliza amêndoas da Fazenda Santa Rita, em Ilhéus (BA). As barras variam de 35% a 100% de cacau e frequentemente aparecem entre as premiadas em concursos nacionais e internacionais.
A tradicional fabricante suíça oferece um amplo portfólio de chocolates, incluindo a linha Excellence, voltada aos consumidores que buscam maior concentração de cacau. No Brasil, a marca vende barras que variam de 45% a 99% de cacau. Embora nem todos os produtos da empresa tenham alto teor do ingrediente, a linha premium se destaca por privilegiar o sabor do cacau e utilizar listas de ingredientes mais enxutas.
Fundada em Gramado (RS), a Danke produz chocolates utilizando manteiga de cacau e ingredientes naturais em boa parte de seu portfólio. A empresa, aliás, oferece barras com diferentes concentrações de cacau, incluindo versões meio amargas e intensas, além de destacar a utilização de cacau certificado e a rastreabilidade da matéria-prima.
Considerada a maior rede de chocolates do Brasil, a Cacau Show também possui uma linha voltada aos consumidores que preferem chocolates com maior concentração de cacau, por exemplo. Batizada de Bendito Cacao, ela possui barras, trufas e bombons com diferentes intensidades, incluindo opções de 55%, 65%, 70%, 85% e até 86% de cacau. Alguns produtos da linha premium são, inclusive, produzidos no conceito bean to bar.

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