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Ventos de bilhões: começa a temporada de kitesurfe no Preá

A mesma corrente de ar que atrai kitesurfistas do mundo inteiro está transformando um dos destinos mais cobiçados do Brasil

Preá, Ceará
Preá, Ceará - Imagem: Ricardo Braz

É época de pipa, e o céu está cheio. Estamos em Preá, no litoral do Ceará, a quase 300 km de Fortaleza. Nos próximos meses, a vila do município de Cruz, colada a Jericoacara e distante cerca de15 km do aeroporto regional homônimo vive sua estação mais reluzente: a temporada dos ventos. O canto nordeste do continente, apelidado pelo próprio Governo do Ceará de "esquina do Atlântico”, é o paraíso do kitesurfe, e durante pouco mais de meio ano ele é celebrado por quem ama “velejar".

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A temporada dos ventos no Ceará vai, em geral, de julho a janeiro, com ápice entre agosto e novembro. Nesse período, ventos resultantes da grande circulação de massas de ar entre os trópicos (por conta da proximidade do Ceará com a Linha do Equador) chegam de leste e sudeste, constantes e na mesma direção, sobretudo na estação seca. Isso produz o chamado vento side-on-shore, paralelo à praia e com leve inclinação para dentro do continente. “Essa é a orientação mais segura que existe porque devolve você sempre à areia em vez de levá-lo mar adentro. É o vento ‘limpo’, como a gente chama”, defende Sandro Silva, natural da região e instrutor no Rancho do Kite, em conversa durante minha incursão de uma semana no esporte. 

No mapa-múndi do kite

No cenário global, Preá divide o pódio dos melhores lugares para velejar com destinos lendários. Dakhla, no Saara Ocidental, é a referência mundial em água espelhada e vento o ano inteiro. A península hospeda um imenso lago de mais de 40 km, ideal para quem quer aprender e aperfeiçoar manobras. Tarifa, no sul da Espanha, soma mais de 300 dias de vento por ano e sempre foi destino certo de europeus velejadores, mas com água fria a ponto de exigir roupa especial. Cabarete, na República Dominicana, e La Ventana, no México, encantam, mas são sazonais, com ventos mais brandos, vida noturna agitada e praias lotadas. Los Roques, na Venezuela, oferece cenário de tirar o fôlego, mas com acesso bem mais restrito e menos infraestrutura.

Preá, por outro lado, reúne o que todos os concorrentes acima têm separado: um empilhamento de quatro virtudes que raramente convivem. A primeira é a constância: a chance diária de velejar beira os 100% com bons ventos a partir das 12h. Em seguida, a intensidade na medida. São ventos que sopram em média entre 25 nós e 35 nós (equivalente a 45 e 65 km/h, respectivamente), perfeitos para manobras e velejar por horas a fio de um ponto ao outro. Água quente e confortável, com temperaturas ao redor 28 °C o ano inteiro, que dispensam roupa térmica e garantem um visual mais descolado. E, por fim, um terreno generoso de praia plana, com cerca de 15 km de extensão, sem pedras, corais ou obstáculos. É a receita completa fornecida pela latitude ideal.

O motor eólico da economia

O esporte se tornou um dos grandes motores do turismo cearense e os números contam essa história com clareza. Viagens esportivas e de aventura no estado, puxadas pelas modalidades de vento, movimentaram R$ 1,387 bilhão em receita turística direta em 2025. Em 2024 foi R$ 1,145, um salto de 21,2% em um só ano, de acordo com dados da Secretaria de Turismo do estado. O número de viajantes desse segmento, aliás, subiu de 297 mil para 350 mil no mesmo período, uma alta de 17,6%.

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Não por acaso, o kitesurfe é a principal motivação de viagem de 60% dos turistas que procuram o Ceará, segundo relatório da Agência Sebrae de Notícias. O esporte é tão central na identidade do estado que ganhou data própria: a Lei estadual nº 16.586, de 2018 instituiu o 1º de agosto como o Dia do Kitesurfe e do Kitesurfista. "Os ventos fazem do Ceará um destino único no cenário mundial", resume Eduardo Bismarck, o secretário de Turismo do Estado do Ceará.

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Preá, Ceará
Preá, Ceará

Ventos que valem 10 bilhões

Há um sinal claro de que Preá chegou ao topo do turismo nacional. E não foi pelas festas de fim de ano que varrem o litoral paradisíaco do Brasil, como Trancoso, em Bahia ou Milagres, em Alagoas: o esporte que encantou tantos velejadores também conquistou quem decidiu investir para fazer a região brilhar ainda mais.

Eduardo Juaçaba, sócio e diretor de relações governamentais do Grupo Carnaúba, convive com o Preá desde 2009. "No começo era uma relação muito pessoal com o lugar - viagens entre amigos, kitesurfe, hospedagem onde tivesse disponível, aquele encanto natural”, comenta. Mas, assim, como todo amante de kitesurfe que desembarcava em Preá anos atrás, Juaçaba enfrentava um desafio natural a todo viajante: onde se hospedar. A oportunidade de negócio real surgiu em 2018, durante uma destas temporadas de ventos para o grupo de amigos. Na ocasião, ele percebeu um vazio de infraestrutura, hospitalidade e organização. Apesar de o destino já ter um potencial muito claro para turismo, eram fatores que impediam uma viagem mais confortável.

Com a participação de Júlio Capua, ex-sócio da XP Inc. e sócio do Grupo Carnaúba, o plano ganhou proporção. O objetivo era criar um destino único, repleto de infraestrutura, hospitalidade, esporte, natureza e comunidade. Com investimento previsto de R$ 2 bilhões nos próximos anos, o empreendimento ganharia potencial de valor geral de vendas entre R$ 5 bilhões e R$ 10 bilhões ao longo da próxima década. O aeroporto regional inclusive ganhou atenção. Afinal, Jericoacara está a menos de dez horas de voo direto de Paris e Lisboa; argentinos, chilenos e uruguaios chegam num pulo. Além deles, suíços, alemães e australianos desembarcam por aqui. Todos atrás do que o local oferece como poucos lugares no planeta: vento forte, constante, quente e seguro, dia após dia, por meses seguidos. 

Para onde sopram os novos ventos

Preá nasceu como vila de pescadores e de mães rendeiras, guarda festas tradicionais como a do padroeiro São José, a regata de canoas e a cultura de cordéis – tudo isso, patrimônio que dá textura e calor à experiência de quem chega. Ao longo de todo o litoral, o esporte se tornou vetor de desenvolvimento e renda para vilarejos inteiros, com gente local virando instrutora certificada, abrindo negócios e recebendo o mundo em casa. Há espaço para mais.  

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O projeto de Preá, encabeçado por kitesurfistas, traduz, em estrutura, o apetite para desenvolver a região. O movimento não nasceu de fora para dentro, e sim de dentro para fora. Júlio Capua e Eduardo Juaçaba, ambos praticantes de kitesurfe e que não se furtam a cair no mar quando os bons ventos sopram, desenvolveram o Carnaúba Wind House. Trata-se de um Beach Club com hospedagem, restaurantes, spa, escola de kitesurfe e lagoas artificiais de águas doces e cristalinas inspiradas nos Lençóis Maranhenses.

Ainda há previsão para o primeiro hotel do Preá, que terá o selo Anantara — marca internacional da Minor International, em estreia na América Latina, conhecida por ter uma das melhores compreensões sobre bem-estar na hotelaria. Com obras iniciadas, o anúncio prevê 80 quartos. Haverá residências de alto padrão e as mesmas lagoas de areias brancas, pensadas para ampliar as experiências aquáticas ao longo do dia. Tudo isso dentro do Vila Carnaúba, condomínio de casas com mais de 500 mil metros quadrados.

Local onde ficarão instalações da Carnaúba Wind House, novo empreendimento Anantara
Local onde ficarão instalações do novo empreendimento Anantara no Preá

Bons ventos o ano todo

A aposta declarada é transformar Preá em uma potência mesmo em baixa temporada. Capua, que é apaixonado por esportes também, é categórico quanto a isso. “Preá já pode ser considerada a Meca do Kitesurf, mas fora da época de ventos, o comércio costuma fechar. Estamos conversando com os comerciantes para que aqui seja uma região que funciona e atrai pessoas o ano todo”, comenta o executivo.

Capua também detém a marca Rally dos Sertões e já promove na região um “rally sem cronômetro” em que o objetivo é dirigir em off-road. Trajetos incluem as areias das praias do Preá, Jericoacoara, Camocim e a chamada "Rota das Emoções”, que conecta Ceará, Piauí e Maranhão. De acordo com Júlio, a região ainda tem muito a oferecer por meio de kitesurfe, wellness e outras práticas de longevidade, com a ampliação de serviços e atrair cada vez mais amantes dos esportes.

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Com a chegada de boa infraestrutura que valoriza a região e a consolida de vez no circuito internacional do turismo, Preá é a prova definitiva da força gravitacional de um esporte que é capaz não só de mover atletas, mas capital. 

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