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Vanessa Bárbara analisa o sucesso de seu livro de estreia, a crise do jornalismo literário e o cenário atual para jovens escritores
O relançamento do livro-reportagem O Livro Amarelo do Terminal pela editora Fósforo resgata o marco de estreia da escritora Vanessa Bárbara, autora também de O Verão do Chibo, com Emilio Fraia (Alfaguara, R$ 74,90), O Louco de Palestra (Companhia das Letras, R$ 64,90) e Três Camadas de Noite (Fósforo, R$ 79,90). A autora conversou com o Seu Dinheiro sobre a escrita da obra e fez um balanço do jornalismo literário no Brasil quase vinte anos depois.
O Livro Amarelo do Terminal (Fósforo, R$ 89,90) nasceu como o trabalho de conclusão de curso de Vanessa Bárbara, ainda em 2003. Publicado em 2008 pela prestigiosa Cosac Naify, o livro de estreia rendeu um prêmio Jabuti e colocou a autora em uma posição de destaque na cena literária da época.
O livro é, a rigor, uma grande reportagem sobre o terminal rodoviário do Tietê, a porta de entrada de milhões de pessoas para São Paulo, e acaba funcionando como uma espécie de microcosmo da cidade.
No livro, Vanessa entrevista os funcionários e passantes que davam vida ao terminal e conta suas histórias numa linguagem que revela a influência de autores do New Journalism como Gay Talese. Ao mesmo tempo, remete ao melhor da tradição cronística brasileira.
Na seção sobre a história do terminal, a linguagem se adapta e fica mais séria quando, por exemplo, a repórter narra as dificuldades de acesso à documentação do terminal e os absurdos burocráticos pelos quais passou quando um segurança disse que ela não poderia ficar em determinado espaço.
Os absurdos, aliás, são a fonte de humor do livro. Ao constatar o número de muletas deixadas para trás e armazenadas no setor de achados e perdidos, por exemplo, Vanessa conclui que o terminal é um lugar milagroso.
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Mas nem tudo é matéria de humor. O texto é particularmente sóbrio quando trata do lado político e econômico da construção do terminal rodoviário. O episódio envolveu corrupção e favorecimentos políticos, e o desfavorecimento daqueles que moravam nas terras onde o Terminal Tietê foi construído.
Marco ímpar num momento repleto de jovens talentos na literatura brasileira – Emilio Fraia, J. P. Cuenca, por exemplo –, O Livro Amarelo do Terminal é um livro que poderia ter sido escrito ontem – a não ser pelos valores de produtos, que denunciam a inflação sofrida nos últimos vinte anos.
Vanessa Bárbara conversou com o Seu Dinheiro sobre seu processo de escrita e as mudanças da literatura brasileira nos últimos 20 anos:
Vanessa Bárbara: Eu organizo de um jeito bem prático: pelo que precisa ser feito e, principalmente, pelo que paga. Encomendas e prazos acabam virando prioridade.
Vanessa Bárbara: O que costuma vir primeiro é a curiosidade ou a vontade de investigar alguma coisa; a forma vai se ajustando depois, de acordo com o que o material pede. Tem assuntos que pedem reportagem, outros que pedem ficção, outros que só funcionam se forem mais fragmentados ou mais livres. Acho que transitar entre gêneros acaba sendo menos uma escolha estratégica e mais uma consequência de não querer forçar um formato que não combina com a ideia. No fundo, o que me interessa é encontrar uma forma de escrita que dê conta da experiência.
Vanessa Bárbara: Foi mais uma escolha de forma mesmo. Eu queria que o terminal e as pessoas ocupassem o centro, não a narradora. Minha presença no livro aparece com certa reticência porque eu preferia funcionar como um ponto de passagem, alguém que observa e escuta, sem transformar a experiência num relato sobre mim. O “fora do lugar” estava no espaço e nas situações – eu não queria que o foco virasse a estudante escrevendo sobre ele.
Vanessa Bárbara: Foi tudo ao mesmo tempo. Entre outubro de 2002 e outubro de 2003 eu ia ao terminal quando conseguia, fazia entrevistas, observava, juntava material – e já escrevia e revisava em paralelo. Não foi uma pesquisa primeiro e a escrita depois: o texto foi nascendo junto com o trabalho de campo, e norteava as próximas ideias de capítulos.

Vanessa Bárbara: Acho que o mais marcante foi perceber que uma história tão à margem, num lugar tão comum, podia ganhar esse tipo de atenção. O prêmio acabou ampliando a visibilidade do livro, mas ele nasceu de um trabalho muito cotidiano, feito com tempo, escuta e paciência.
Vanessa Bárbara: Naquela época havia mais espaço e mais oportunidades, especialmente para quem estava começando. Existia uma sensação de abertura maior. De lá para cá, muita coisa foi se fechando: menos lugares de publicação, menos recursos, menos fôlego no mercado. Hoje em dia me parece bem mais difícil encontrar brechas.
Vanessa Bárbara: Acho que hoje é bem mais difícil. A lógica dominante da internet é de velocidade, distração e consumo rápido, e isso vai na contramão do tempo que a literatura exige. Na época dos blogs havia mais espaço para textos longos e uma leitura mais paciente. Hoje ainda existem exceções, claro, mas parecem cada vez mais marginais, fora do centro das redes.
Vanessa Bárbara: O jornalismo literário sobrevive quase como um desvio, um gesto de resistência, mais do que como centro da prática jornalística. Ele existe nas bordas – em livros, revistas, projetos especiais.
Seu Dinheiro: E os espaços para esse jornalismo literário, com um cuidado maior com o texto, mudaram ao longo do tempo? Aumentaram, diminuíram, se mantêm?
Vanessa Bárbara: Diminuíram drasticamente. Houve uma época em que existiam mais brechas institucionais – revistas, cadernos, editores dispostos a apostar em textos longos. De lá para cá, o mercado encolheu muito, os espaços ficaram raros e mais precários. E não é só uma questão de visibilidade: a verdade é que quase ninguém financia esse tipo de trabalho, que exige tempo e dedicação. Hoje esse jornalismo parece ter o tamanho de uma ervilha, sobrevivendo em projetos isolados, quase sempre fora do circuito principal.
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