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Bia Azevedo

Bia Azevedo

Jornalista pela Universidade de São Paulo (USP). Em 2025, esteve entre os 50 jornalistas mais admirados da imprensa de Economia, Negócios e Finanças do Brasil. Já trabalhou como coordenadora e editora de conteúdo das redes sociais do Seu Dinheiro e Money Times. Além disso, é pós-graduada em Comunicação digital e Business intelligence pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

CLIMA DE CARNAVAL?

Brasil já perdeu (bem) mais do que ganhou: veja quem já nos venceu no Oscar — e quem pode repetir o roteiro em 2026

País chega à edição de 2026 com cinco indicações, mas carrega um histórico marcado por derrotas e concorrentes de peso em todas as categorias

Bia Azevedo
Bia Azevedo
27 de janeiro de 2026
14:31 - atualizado às 13:42
Wagner Moura em O Agente Secreto - Imagem: Reprodução
Wagner Moura em O Agente Secreto - Imagem: Reprodução -

Se “carta é esperança dobrada”, como ensina a personagem de Fernanda Montenegro em Central do Brasil, cinco indicações ao Oscar para nosso país em um mesmo ano parece ser esperança quintuplicada.

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O "Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, está concorrendo em quatro categorias: Melhor Filme e Filme Internacional, além de Melhor Ator, com Wagner Moura, e Melhor Seleção de Elenco (nova categoria). "Sonhos de Trem" carrega nossa quinta frente de disputa, com a indicação de Melhor Fotografia para o paulistano Adolfo Veloso.

Mesmo após emendar dois anos consecutivos com indicações na principal premiação do cinema mundial, o Brasil disputa espaço com produções e profissionais de peso em todas as categorias em que aparece — e o nosso histórico no Oscar não é lá muito animador.

Ao todo, o país já concorreu à estatueta em vinte e duas ocasiões diferentes, contando produções puramente nacionais e co-produções em parceria com outros países. No entanto, a primeira vitória veio só na temporada passada com o prêmio de Melhor Filme Internacional para "Ainda Estou Aqui".

Para quem o Brasil já perdeu o Oscar?

Só na categoria de Melhor filme internacional, foram seis indicações. A primeira foi para “O Pagador de Promessas”, em 1963. Nós perdemos para o francês “Sempre aos Domingos”.

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Enquanto o filme brasileiro de Anselmo Duarte aborda o choque entre fé popular, instituições religiosas e intolerância social, a obra francesa segue por outro caminho, mais íntimo e psicológico e se consolidou como o principal título da filmografia de Serge Bourguignon.

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A história que conduz o enredo é da amizade entre um veterano de guerra da Indochina com amnésia e uma criança órfã, abandonada pelos pais.

O Quatrilho, em 1996

Em 1996, “O Quatrilho” também buscou o prêmio na mesma categoria. Quem levou foi o filme dos Países Baixos, “A Excêntrica Família de Antonia”. O longa brasileiro acompanha a história de dois casais muito próximos que, para sobreviver, decidem morar juntos na mesma casa.

Com o passar do tempo, a esposa de um casal se apaixona pelo marido do outro. Os dois acabam fugindo para recomeçar a vida, deixando seus parceiros originais para trás. Assim, eles enfrentam uma experiência ao mesmo tempo dolorosa e constrangedora, mas com certo romance.

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“A Excêntrica Família de Antonia”, por sua vez, é uma utopia feminista que começa com a protagonista acordando aos 90 anos, no dia em que sabe que irá morrer. O filme remonta a trajetória dela desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando a personagem decide voltar ao seu vilarejo natal e formar uma comunidade matriarcal, unida pela solidariedade e fugindo às convenções sociais.

Ao longo das gerações, o filme trata de maternidade, sexualidade, violência e escolhas individuais com um tom sóbrio, mas permeado por humor e sensibilidade.

O que é isso companheiro, em 1998

Em seguida veio “O que é isso, companheiro?”, em 1998. O elenco contava com a Fernanda Torres e Selton Mello, protagonistas de “Ainda estou aqui”. O brasileiro perdeu para “Caráter”, também dos Países Baixos.

Baseado no livro homônimo, o filme Bruno Barreto retrata a história de jovens da classe média carioca que, em 1969, em plena ditadura militar, decidem sequestrar o embaixador dos Estados Unidos no Brasil — episódio que de fato ocorreu e foi narrado no livro por um dos militantes envolvidos, Fernando Gabeira. O embaixador sequestrado na vida real foi Charles Elbrick.

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O filme é considerado uma importante obra sobre a luta contra a ditadura, embora misture fatos e ficção para narrar o sequestro que abalou o regime militar.

Já o longa vencedor naquele ano narra a história de Jacob Katadreuffe, um jovem advogado que vive em Roterdã durante a Grande Depressão.

Ele é criado pela mãe, que o acolhe como bastardo de um oficial de justiça. A relação entre Jacob e seu pai é marcada por conflitos e rejeições, o que os críticos apontam como reflexo da dinâmica familiar da época. A história é recontada através de flashbacks, revelando a vida de Jacob e suas lutas para se tornar um advogado de sucesso.

Central do Brasil, 1999

No ano seguinte veio "Central do Brasil", de Walter Salles, que acompanha a jornada de Dora, uma ex-professora que ganha a vida escrevendo cartas para analfabetos na estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro.

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Após a morte da mãe de um menino para quem escreveu uma carta, ela acaba assumindo a responsabilidade de ajudá-lo a encontrar o pai no interior do Nordeste. A viagem transforma a relação entre os dois e serve como pano de fundo para um retrato sensível do Brasil profundo, marcado por deslocamentos, perdas e pela busca de pertencimento.

Nesse ano, perdemos para o espetacular e italiano “A Vida é Bela”, que conta a história de um pai judeu enviado com o filho a um campo de concentração nazista. Ele usa o humor e a imaginação para proteger a criança dos horrores do Holocausto, transformando a experiência em um jogo para preservar a inocência da criança.

A história ressoava com o momento por unir memória histórica, emoção e uma mensagem universal sobre afeto, resistência e humanidade diante da barbárie, tocando públicos muito além do circuito europeu.

A Vida é Bela, filme de 1998. Imagem: Reprodução.

Nesse caso, Fernanda Montenegro também concorreu na categoria de Melhor Atriz, mas perdeu para Gwyneth Paltrow, por “Shakespeare Apaixonado” — um desfecho que os brasileiros nunca esqueceram e que voltou a viralizar no ano passado, quando Fernanda Torres perdeu o prêmio de Melhor Atriz para Mikey Madison, de “Anora”.

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Além da categoria Melhor Filme Internacional

Outro revés marcante para o cinema brasileiro veio em 2004, com “Cidade de Deus”. Aclamado internacionalmente e frequentemente citado como um dos grandes filmes de sua geração, o longa acumulou quatro indicações ao Oscar — Direção, Roteiro Adaptado, Montagem e Fotografia.

Ainda assim, ficou fora das disputas por Melhor Filme e Melhor Filme Estrangeiro e acabou deixando a cerimônia sem levar nenhuma estatueta, apesar do amplo reconhecimento da crítica.

Há ainda dois casos emblemáticos ligados à indústria nacional que, apesar do forte vínculo com o Brasil, não entram oficialmente na conta de conquistas brasileiras do Oscar.

O “Beijo da Mulher-Aranha", de Hector Babenco, recebeu quatro indicações em 1986 e acabou premiado com a estatueta de Melhor Ator para William Hurt. Já “Orfeu Negro” venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1960. Ambos são coproduções com participação brasileira, mas, segundo a Academia, o primeiro é creditado aos Estados Unidos e o segundo à França.

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Além disso, o Brasil já marcou presença em outras categorias. “Raoni” (1978), “Lixo Extraordinário”(2010), “O Sal da Terra” (2014) e “Democracia em Vertigem” (2019) disputaram o prêmio de Melhor Documentário. Nenhum deles levou o prêmio.

Os vencedores, em ordem consecutiva, foram: “Assustado e Endireitado!”, “Inside Job”, “Cidadão Snowden” e “Indústria Americana”.

Em animação e curta-metragem, o país foi representado por “O Menino e o Mundo” (2016), indicado a Melhor Animação, e por “Uma História de Futebol” (2000), que concorreu como Melhor Curta-metragem em Live Action.

Eles acabaram derrotados por “Divertida Mente” e por “Meu Amor, Minha Vida”, respectivamente.

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A disputa do Brasil para este ano: clima de carnaval?

O caso de Wagner Moura mostra quão acirrada pode ser essa disputa. O ator baiano venceu o Globo de Ouro de Melhor Ator em Filme de Drama.

Apesar da premiação ser vista como um termômetro para o Oscar, Moura não concorreu diretamente com nomes que têm tido sangue nos olhos na corrida pela estatueta e que agora o enfrentam no Oscar.

O principal deles é Timothée Chalamet, candidato por “Marty Supreme”. No Globo de Ouro, ele venceu como Melhor Ator em Filme de Comédia ou Musical. Chalamet tem sido um dos nomes mais comentados da temporada por adotar uma postura incomum: abertamente ambiciosa em relação ao prêmio.

Ao longo da campanha, o ator deixou claro que quer vencer e passou a investir em ações de alto impacto para manter o filme e sua performance no centro das atenções — ele chegou a subir no topo da Sphere, em Las Vegas.

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Chalamet em cima da Sphere, em Las Vegas. Reprodução redes sociais.

A estratégia mostra como a corrida pela estatueta também se transformou em uma disputa de narrativa, visibilidade e presença pública.

No caso da categoria de Melhor Filme, O Agente Secreto também enfrenta concorrência de peso. Um dos principais rivais é “Uma Batalha Após a Outra”, dirigido por Paul Thomas Anderson, que saiu do Globo de Ouro com nove estatuetas.

Os dois, porém, não se enfrentaram diretamente, já que o filme de Anderson concorreu — e venceu — na categoria de Melhor Filme de Comédia ou Musical.

Leonardo DiCaprio em "Uma Batalha Após a Outra" - Imagem: Reprodução
Leonardo DiCaprio em "Uma Batalha Após a Outra" - Imagem: Reprodução

Além disso, o filme de Kleber Mendonça Filho também está disputando com “Hamnet: a vida antes de Hamlet”, que ganhou o Melhor Filme de Drama no Globo de ouro, vencendo o Agente Secreto.

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Na disputa por Melhor Filme Internacional, o Brasil enfrenta “Foi Apenas Um Acidente”, dirigido por Jafar Panahi, cineasta que foi condenado pela Justiça iraniana a um ano de prisão por supostas “atividades de propaganda” contra o Estado, além de receber uma proibição de viajar por dois anos — decisão da qual a defesa recorreu.

Apesar do histórico de perseguições, Panahi voltou ao centro do cinema mundial ao vencer a Palma de Ouro no Festival de Cannes com o próprio filme que agora disputa a categoria.

O filme acompanha Vahid, um mecânico que acredita ter reencontrado seu antigo torturador, Eghbal. Movido pelo desejo de vingança — e pela dúvida —, ele sequestra o homem para tentar confirmar se, de fato, está diante da mesma pessoa que marcou seu passado.

A obra explora vingança e moralidade, além de mostrar com sensibilidade a essência inquebrável do ser humano, mesmo em momentos de histeria e violência. A narrativa é reflexo da experiência pessoal do cineasta Jafar Panahi.

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Foi apenas um acidente. Imagem: reprodução.

Há ainda “Valor Sentimental”, drama europeu dirigido por Joachim Trier, que despontou como o grande destaque da 38ª edição do European Film Awards, realizada em Berlim, ao conquistar seis estatuetas, incluindo os principais prêmios da noite.

Stellan Skarsgård e Renate Reinsve, em "Valor Sentimental" - Imagem: Reprodução
Stellan Skarsgård e Renate Reinsve, em "Valor Sentimental" - Imagem: Reprodução

O filme foi reconhecido como Melhor Filme Europeu, enquanto Joachim Trier recebeu o prêmio de melhor diretor pelo retrato sensível de uma família em processo de reconexão. O roteiro, assinado por Trier em parceria com Eskil Vogt, também foi premiado na categoria de melhor roteiro.

Veja a lista completa dos indicados ao Oscar 2026 nesta reportagem do Seu Dinheiro.

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