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Quem é quem no tabuleiro, as apostas de cada grupo, estratégias, desafios e o que esperar da nova invasão em 2026
Quem foi ao Salão do Automóvel, em São Paulo, em novembro passado, pôde sentir de perto o apetite da nova onda chinesa que desembarca no Brasil.
Em termos históricos, vivemos a quarta era de evolução do nosso mercado. Se as Big Four (Ford, GM, Volkswagen e Fiat) nos anos 1960 a 1980 criaram a base, as japonesas nos anos 1990 (Toyota, Honda e Nissan) trouxeram a confiança. Já as coreanas (Hyundai e Kia) nos anos 2000, por outro lado, inovaram no design. O momento atual é de uma disrupção tecnológica liderada, contudo, por marcas chinesas que democratizam o luxo eletrificado.

Entre 2022 e 2024 testemunhamos a consolidação da BYD, GWM e o renascimento da Caoa Chery. Agora, porém, o biênio 2025-2026 marca a chegada de uma segunda safra. Desta vez, o foco não é apenas volume, mas prestígio.
Marcas como Zeekr, Avatr, Denza, Wey e Leapmotor, por exemplo, desembarcam com a promessa de redefinir o luxo, desafiando o tradicional quarteto alemão (Audi, BMW, Mercedes-Benz e Porsche) com tecnologias que pareciam ficção científica.
Mas a pergunta que ecoa nos showrooms é: todas são premium de verdade? Para o consumidor brasileiro, o luxo sempre esteve atrelado ao legado. As novas chinesas propõem uma inversão: o status agora é tecnológico. Elas entregam telas hipnotizantes e condução semiautônoma de série, enquanto marcas tradicionais cobram esses itens como opcionais caríssimos.

Diferentemente dos fracassos do passado (como Lifan e Neta), as novas entrantes chegam amparadas por gigantescos conglomerados. A Zeekr, joia da coroa do grupo Geely, compartilha plataformas com Volvo e Lotus.
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Neste mesmo tabuleiro, a Geely retorna ao Brasil com uma operação própria após anos de ausência e ganha contornos de gigante. Ela adquiriu uma participação de 26,4% na Renault do Brasil em novembro de 2025, mas com foco na produção de veículos híbridos e elétricos na fábrica de São José dos Pinhais, no Paraná, com início previsto para o segundo semestre deste ano.

A ideia é compartilhar tecnologias como a plataforma GEA, que será utilizada pela Renault para desenvolver carros de baixas emissões. Além disso, a Geely terá acesso aos 275 pontos de venda da Renault no Brasil.

Já a Leapmotor, por outro lado, selou uma joint venture com a Stellantis (dona de Fiat e Jeep), ganhando acesso imediato a uma rede logística que levaria décadas para construir sozinha.
Há ainda as “supermarcas” que unem a indústria pesada ao Vale do Silício chinês. É o caso da Avatr, colaboração entre Changan, Huawei e CATL, trazida pelo Grupo Caoa. Ao associar a marca a Gisele Bündchen, a estratégia sinaliza que esse luxo não é apenas uma planilha de dados, mas um item de desejo e lifestyle global.
Marcas como BYD e GWM pavimentaram o caminho ao provar que o brasileiro troca tradição por inovação, desde que haja confiança. A lição foi clara: no Brasil, a venda termina na entrega, mas o relacionamento depende do pós-venda.
O cenário para 2026, entretanto, impõe o desafio do imposto de importação, que atingirá 35% em julho. Esse “pedágio” protecionista é o grande motor da nacionalização forçada: marcas buscam o selo made in Brazil via parcerias locais (como utilizar as instalações da Mitsubishi em Catalão, GO, ou o Polo Automotivo Ceará), para que seus preços não sejam devorados pela alfândega. Produzir localmente não é mais expansão, é a única vacina contra a irrelevância.

O grupo Chery chinês amplia sua presença no Brasil com divisões globais como Omoda, focada em um design futurista para jovens urbanos, e Jaecoo, uma marca de SUV de luxo off-road com acabamento refinado que remete aos ícones britânicos. Essas marcas buscam preencher lacunas entre veículos comuns e o mercado premium, oferecendo, portanto, alta conectividade e assistência de condução. Omoda e Jaecoo devem ocupar as instalações da antiga Chery em Jacareí, São Paulo.

A lista se estende com a Jetour, do grupo Chery, por exemplo, focada em veículos espaçosos para viagens e aventura com planos de nacionalização de alguns de seus carros. Ou com a GAC (Guangzhou Automobile Group), que chega com um investimento bilionário anunciado para produção local. E ainda com a MG Motor, a icônica marca britânica mas sob gestão chinesa da Saic, que aposta no design clássico aliado à eletrificação moderna.

No mesmo escalão de prestígio, a Denza, braço de luxo da BYD originalmente criado com a Mercedes-Benz, mira o mercado corporativo com a van de luxo D9. Assim, desafia ainda a hegemonia de sedãs executivos tradicionais.
A GWM, por sua vez, reforça a quarta onda ao utilizar a marca Wey no Brasil para elevar o padrão de preço e tecnologia do grupo. O foco é a experiência de primeira classe e os espaços exclusivos para seus clientes, semelhantes a lounges.
A estratégia é consolidar a Wey como uma referência em luxo aspiracional. Assim, a GWM demonstra que uma marca chinesa pode oferecer o mesmo refinamento de marcas europeias de alto valor por um preço menor.
Para entender o mercado, porém, é preciso saber quem manda em quem. No mundo dos carros chineses, por exemplo, a estrutura de grupos é fundamental para garantir a sobrevivência das marcas.

Uma "supermarca" que une a fabricação da Changan, o software da Huawei e as baterias da CATL. A aposta é no SUV cupê elétrico Avatr 11, o estado da arte em direção autônoma e conectividade. Conforme a versão pode render 585 cv e até 710 km de autonomia. Ainda não teve preço divulgado, mas está em pré-venda, para chegada neste semestre.

Originalmente uma joint venture entre BYD e Mercedes-Benz, hoje a Denza é o braço de luxo da BYD. Uma das apostas é a minivan de luxo D9 (focada no mercado corporativo e executivo) por R$ 800 mil. Outra é a shooting brake Z9 GT, perua esportiva elétrica de quase 1.000 cv. Essa última chega este semestre por preço em torno de R$ 650 mil. A estratégia é oferecer o luxo que a linha tradicional da BYD ainda não alcança.
Uma das gigantes estatais da China. Ela chega com estrutura própria e apetite para brigar em vários segmentos. Os modelos são: Aion ES (sedã elétrico) R$ 169.990; Aion Y (SUV/minivan elétrica) de R$ 174.990 a R$ 184.990; GS4 Hybrid (SUV HEV) de R$ 189.990 a R$ 199.990; Aion V (SUV médio elétrico) por R$ 214.990; e Hyptec HT (SUV elétrico luxo) de R$ 299.990 a R$ 349.990.

A GAC diz que investirá R$ 6 bilhões no Brasil nos próximos cinco anos. O plano é iniciar a produção nacional em Catalão (GO) no final de 2026 e expandir sua rede para 120 pontos de venda. A ofensiva de produtos para 2026 foca no volume com o lançamento do SUV a combustão GS3 em março. Isso além da aposta em tecnologia local com o desenvolvimento de motores híbridos flex e a chegada de novos modelos elétricos, como o sedã Hyptec GT e o compacto Aion UT.
A gigante chinesa, com nome e sobrenome no Brasil, retorna ao país com uma estratégia de atalho industrial. Ela adquiriu 26,4% da Renault do Brasil e produzirá veículos eletrificados em São José dos Pinhais (PR) a partir de 2026.

A marca utiliza os mais de 270 pontos de venda da Renault para comercialização e pós-venda, resolvendo de imediato o desafio da capilaridade. Já vende os ótimos EX2, hatch elétrico compacto que briga com o Dolphin Mini, tem acabamento superior e multimídia de 15,4” por preços a partir de R$ 120 mil. Já o EX5, SUV médio 100% elétrico (rival do BYD Yuan Plus), oferece 218 cv, arquitetura GEA e autonomia de até 413 km por a partir de R$ 205.800.
Também do grupo Chery, mas focada em “travel” ou seja, SUVs espaçosos para viagens e aventura. A marca planeja seis lançamentos para este ano, começando pelo SUV urbano PHEV S06, além dos aventureiros e também PHEV T1 e T2 nos próximos meses. Esses dois últimos modelos possuem visual quadrado que remete ao Land Rover Defender, mas democratizado.

Ele entrega a estética robusta e o status dos jipes de luxo europeus por quase metade do preço, unindo a valentia do visual box à eficiência de um conjunto híbrido plug-in de 375 cv. Posicionado no segmento premium, o modelo aposta em uma garantia de sete anos e uma rede 100 concessionárias prometidas para este ano para atrair clientes de SUVs tradicionais, mantendo no horizonte a possibilidade de futura produção nacional.

Esta é uma jogada estratégica única: democratizar a eletrificação com suporte de uma gigante local. A Stellantis (dona da Fiat, Jeep e Peugeot) comprou 21% da Leapmotor e criou a Leapmotor International para vender os carros fora da China. No Brasil, ela aproveita a gigantesca rede da Stellantis e já anunciou produção em SKD/CKD para 2026 na fábrica de Goiana (PE). Já vende o C10, SUV médio ultra híbrido, com tecnologia de extensão de bateria que supera os 800 km de autonomia por R$ 220 mil. A versão só elétrica sai a R$ 205 mil. Em breve lança o SUV menor B10 por R$ 183 mil.
Operando de forma independente da Caoa Chery, estas marcas focam em design futurista (Omoda) e robustez off-road premium (Jaecoo). Vende já com relativo sucesso o Omoda 5 (crossover híbrido e elétrico), entre R$ 160 mil e R$ 210 mil; e Jaecoo 7, SUV híbrido plug-in (PHEV), que custa entre R$ 230 mil e R$ 250 mil.

A Omoda & Jaecoo está fortalecendo sua atuação no Brasil, planejando a fabricação nacional, provavelmente em Jacareí (SP), onde funcionava a fábrica da Chery, a partir de 2026 e a expansão para 110 lojas. Sua estratégia inclui diversificação de SUVs, com o lançamento do Omoda 4 (híbrido flex) para ampliar volume de vendas e os modelos de luxo Jaecoo 5 e 8, que combinam eletrificação plug-in com uso de etanol, visando competir com BYD e GWM.

A marca de origem britânica, agora sob comando da chinesa SAIC, foca em esportividade e design clássico-moderno. Ela iniciou suas operações oficiais no Brasil no final de 2025, com foco exclusivo em veículos 100% elétricos. Destaca-se sua estratégia de preços agressivos de lançamento e o planejamento de montar veículos nacionalmente já no final deste ano. São três modelos, por enquanto: o hatch MG4, de R$ 184.600 a R$ 229.800; o SUV MG S5 R$ 218.800 a R$ 238.800; e o conversível Cyberster, por R$ 499.800.
A Wey é a divisão premium da GWM e representa o máximo de sofisticação da marca, posicionada para competir diretamente com marcas premium europeias. Sua estratégia no Brasil foca na sofisticação e performance híbrida plug-in, além de acabamento de primeira classe e tecnologias de conveniência que superam os rivais tradicionais em sua faixa de preço. É a marca que consolida a GWM no segmento aspiracional, transformando o automóvel em um ambiente de hospitalidade e status tecnológico.

O único modelo da Wey à venda atualmente é o 07 é um SUV híbrido plug-in de grande porte, para seis pessoas em configuração 2+2+2, voltado para famílias que valorizam conforto semelhante ao de uma sala de estar. Com preço de R$ 429 mil, oferece desempenho poderoso graças ao motor 1.5 turbo combinado com dois motores elétricos, totalizando 517 cv, 83,6 kgfm de torquee aceleração de 0 a 100 km/h em 4,9 segundos. Seu interior apresenta alto nível de luxo, com bancos com massagem em todas as fileiras, banco do passageiro que vira uma poltrona de descanso reclinável até 110 graus e isolamento acústico de alta qualidade.

A Zeekr é, talvez, a marca mais puramente premium desta lista. Pertencente à Geely (que também é dona da Volvo e da Lotus e está no Brasil via Renault), ela utiliza a plataforma SEA, compartilhada com os suecos. Modelos: X (SUV compacto de luxo) de R$ 298 mil a R$ 338 mil; 7X (SUV médio premium) por R$ 448 mil e 001 (shooting brake) de R$ 495 mil a R$ 542 mil.
Para quem planeja alocar centenas de milhares de reais, a cautela é a palavra de ordem. O mercado de usados para essas marcas ainda está em formação e a infraestrutura de recarga ainda engatinha. Antes de fechar negócio:
1- Verifique a origem: Prefira marcas com operações oficiais da matriz, que oferecem maior comprometimento a longo prazo.
2- Pós-venda real: Consulte a disponibilidade de peças de funilaria. Atrasos podem deixar o carro parado por meses.
3- Garantia e letras miúdas: Cheque as exclusões de itens de desgaste e a cobertura específica das baterias.
5- Custo de seguro: Marcas novas podem ter prêmios elevados devido à incerteza sobre o custo de reparação.
6- Teste o software: Verifique se a central multimídia e o GPS estão devidamente tropicalizados para o Brasil.
O automóvel deixou de ser apenas um símbolo de status social para se tornar, definitivamente, um símbolo de vanguarda tecnológica. Se essas marcas sustentarão o prestígio que prometem, só o tempo e a quilometragem dirão.
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